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Domingão de urna, santo, boato e outras promessas

Ou o vale-tudo das eleições chega ao primeiro turno

Domingo tem eleição. O brasileiro acorda cedo, toma café, reclama do preço do café e depois vai para a escola onde funciona a democracia, essa instituição que nos permite escolher quem vai cuidar dos nossos problemas – e, às vezes, criar alguns novos. O eleitor terá de escolher presidente, governador, dois senadores, deputado federal e deputado estadual, numa sequência de números capaz de fazer qualquer cidadão sentir saudade da senha do banco.

É diante da urna que surge a pergunta filosófica do domingo: “Eu conheço esse sujeito?”. Na maioria das vezes, não conhece, mas alguém conhece, porque candidato é uma criatura que sempre tem um primo, um cunhado, um compadre, um ex-colega de escola ou um amigo de alguém que garante que ele é “gente boa”.

O candidato aparece sorrindo na fotografia, apertando mãos, abraçando crianças e prometendo defender o povo. O povo, por sua vez, já aprendeu que, depois da eleição, poderá passar quatro anos tentando encontrar o telefone do cidadão que prometeu defendê-lo.

Há uma curiosa metamorfose eleitoral brasileira. Na campanha, o político procura o eleitor; depois da posse, o eleitor procura o político, e descobre que ele está em reunião, em viagem, em votação, em evento ou, principalmente, construindo governabilidade.

Governabilidade é uma palavra muito útil. Serve para explicar por que o sujeito que prometeu uma coisa durante a campanha está sentado ao lado de quem prometeu exatamente o contrário, ambos sorrindo para a fotografia oficial.

A política brasileira desenvolveu uma tecnologia sofisticada de arranjos. Arranja-se bancada, arranja-se liderança, arranja-se relatoria, arranja-se emenda e, quando tudo parece suficientemente arranjado, alguém aparece para dizer que aquilo tudo é necessário para garantir a estabilidade.

Estabilidade para quem é uma pergunta inconveniente. Principalmente quando o cidadão continua enfrentando aluguel caro, transporte ruim, salário apertado, fila no serviço público, rua esburacada e a eterna promessa de que “agora vai”.

No Espírito Santo, também se conhece bem essa liturgia. O Estado tem praias, café, minério, petróleo, porto, belas montanhas e um eleitor que, apesar de tudo isso, continua descobrindo que desenvolvimento econômico e direito social nem sempre embarcam no mesmo ônibus.

E há ainda o Congresso Nacional, essa instituição onde a matemática possui regras próprias. Às vezes, uma maioria social vira minoria política; em outras, uma minoria eleitoral descobre uma maneira bastante eficiente de ocupar o centro da fotografia e decidir o que será votado.

O cidadão olha para tudo isso e conclui que não gosta de política. É uma conclusão compreensível, mas existe um pequeno problema: a política não precisa gostar dele para decidir o preço do remédio, a aposentadoria, a escola, o salário, o imposto, o transporte e até o tamanho do buraco em frente à sua casa.

Aí entra o WhatsApp, esse maravilhoso veículo de comunicação onde o tio que nunca leu um projeto de lei se transforma, durante a campanha, em especialista em Constituição, economia, religião, pesquisas eleitorais e geopolítica internacional. Basta uma imagem com letras garrafais e a frase “Compartilhe antes que apaguem” para nascer uma nova verdade nacional.

Foi assim que Nossa Senhora Aparecida entrou no campeonato eleitoral. Uma fala de Flávio Bolsonaro ao declarar o Brasil como país de Jesus foi associada nas redes a um antigo projeto que propunha alterar a referência legal a Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil.

O detalhe inconveniente é que o projeto era de 2007, foi apresentado pelo então deputado Victório Galli e acabou arquivado. Não há, portanto, base factual para atribuir a Flávio Bolsonaro a autoria daquela proposta antiga, embora a associação tenha provocado uma nova batalha política e judicial nas redes sociais.

A história, porém, já tinha ganhado pernas, asas e provavelmente financiamento de campanha. De um lado, a acusação de fake news; do outro, a acusação de que havia uma conspiração para atacar o candidato; no meio, a santa, que não pediu voto para ninguém e acabou convocada para uma eleição que não estava no calendário celestial.

A CNBB precisou dizer que não produziu, autorizou nem participou da divulgação das informações falsas. Enquanto isso, decisões judiciais passaram a determinar retirada, liberação e novamente suspensão de publicações, num daqueles episódios em que até quem acompanha o Judiciário precisa de uma colinha.

É o Brasil eleitoral de 2026: a urna é eletrônica, mas o boato continua analógico. A mentira pode nascer numa postagem, atravessar três grupos de família, ganhar uma música de fundo, receber uma imagem religiosa e chegar ao eleitor com a autoridade de uma certidão em cartório.

E não é só a boataria religiosa. O Tribunal Superior Eleitoral já estabeleceu regras específicas para conteúdos manipulados por inteligência artificial e para o chamado deepfake, justamente porque a tecnologia conseguiu transformar uma mentira malfeita em uma mentira com aparência de verdade.

O problema é que a máquina pode ser eletrônica, mas o dedo que aperta o botão continua sendo humano. E humano, como se sabe, é um bicho que compartilha notícia sem ler, acredita no áudio do amigo e depois reclama que “a imprensa não informa mais nada”.

Domingo, portanto, o cidadão entrará na cabine sozinho. A solidão dura alguns segundos, mas a escolha poderá durar quatro anos, porque o voto é pequeno no tamanho e enorme nas consequências.

Talvez seja por isso que a democracia pareça tão complicada. Ela não promete candidato perfeito, governo perfeito, Congresso perfeito nem eleitor perfeito; oferece apenas a possibilidade de escolher, fiscalizar, cobrar e tentar novamente.

O problema é que fiscalizar dá trabalho. Reclamar no grupo da família é muito mais fácil.

E reclamar é uma especialidade nacional. O brasileiro reclama do político que não trabalha, do político que trabalha demais, do político que fala, do político que não fala, do governo que gasta e do governo que não gasta, mas raramente abre a página da Câmara, do Senado, da Assembleia ou da prefeitura para descobrir o que aquele sujeito realmente votou.

No domingo, entretanto, todo mundo será chamado pelo mesmo nome: eleitor. Rico ou pobre, morador da cobertura ou da periferia, trabalhador formal ou informal, estudante, aposentado, servidor, empresário ou desempregado, todos terão de encarar a urna e a própria responsabilidade.

Não é pouca coisa. Num país acostumado a terceirizar a culpa, talvez seja saudável lembrar que democracia também significa assumir a parte que cabe ao cidadão.

Só não vale entregar essa parte ao grupo de WhatsApp. O grupo pode até ter a tia que “tem uma fonte lá dentro”, mas, até segunda ordem, ela não substitui o TSE.

Até domingo haverá bandeira, jingle, carreata, promessa, pesquisa, meme, acusação e muita gente dizendo que agora o Brasil vai. Haverá também milhões de pessoas tentando descobrir qual número apertar para que a vida fique um pouco menos difícil.

E depois da eleição virá o velho ritual. Os vencedores falarão em união, os derrotados falarão em resistência, os aliados falarão em governabilidade e o povo continuará falando de salário, posto de saúde, escola, ônibus, segurança, moradia e comida.

Porque é aí que a política deixa de ser discurso. É quando a promessa encontra a fila do SUS, o salário encontra o supermercado, o estudante encontra a escola, o trabalhador encontra o transporte e a família encontra a conta do mês.

No fim das contas, talvez seja isso que o eleitor deva lembrar antes de apertar qualquer botão. Não existe santo que governe, meme que legisle ou candidato que possa receber um cheque em branco.

A urna só registra o voto. Quem vai cobrar o resultado depois é a população.

E, se Nossa Senhora Aparecida quiser ajudar, que seja apenas para iluminar a memória de quem vota. Porque, neste domingo, esquecer o número do candidato é perfeitamente humano; esquecer o que ele prometeu é que pode sair muito caro.

Rubem Roschel é jornalista e cronista de quinta.

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