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Indígenas cobram participação efetiva na Teia Nacional em Aracruz

Bárbara Tupinikim critica concentração das atividades no Sesc, símbolo do empresariado

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A realização da 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura, em Aracruz, no norte do Estado, tem mobilizado lideranças indígenas, coletivos e representantes de pontos de cultura de diferentes regiões do país. O encontro acontece entre os próximos dias 19 e 24, promovido pelo Ministério da Cultura em correalização com a Secretaria da Cultura do Espírito Santo (Secult), reunindo fóruns, debates, oficinas, vivências culturais e atividades formativas sob o tema “Pontos de Cultura pela Justiça Climática”.

Pela primeira vez, a Teia Nacional será realizada fora de uma capital, com atividades em territórios indígenas Tupinikim e Guarani, mas a forma como a programação foi organizada tem sido criticada por concentrar as atividades no Sesc Aracruz, enquanto a expectativa das comunidades indígenas era a realização de atividades diretamente nas aldeias.

A delegada da Teia Bárbara Tupinikim também apontou incômodo entre participantes indígenas em relação à escolha do espaço principal do encontro. “Temos uma crítica sobre as atividades se concentrarem no Sesc de Aracruz, que tem uma proximidade com o setor industrial, responsável por impactar os territórios tradicionais”, destaca.

Henrique Jr

A presença mais ampla dentro dos territórios indígenas incluiria espaços voltados à economia criativa, feiras de artesanato, intercâmbio cultural e circulação das delegações nacionais nas aldeias. Segundo integrantes da articulação indígena ligada à Teia, a abertura do encontro no território acabou criando a expectativa de que outras atividades centrais também fossem realizadas nas comunidades. A ausência dessa definição gerou frustração entre ocupantes culturais e representantes indígenas que acompanham a construção do evento.

A organização ressalta que a Teia busca fortalecer a política Cultura Viva por meio da articulação entre cultura, meio ambiente, direitos coletivos e participação social. A programação inclui o 5º Fórum Nacional dos Pontos de Cultura, o 2º Fórum Nacional de Gestores Cultura Viva e a 1ª Reunião de Articulação do Grupo de Trabalho para Construção do Plano Nacional das Culturas dos Povos Indígenas.

Lideranças indígenas afirmam que houve tentativas de negociação com a organização para garantir maior participação das comunidades na programação oficial. Entre os pedidos apresentados estavam a realização de uma feira de artesanato indígena dentro da Teia, a criação de espaços de assembleia para lideranças indígenas, e atividades culturais organizadas pelos próprios coletivos locais.

O coordenador do Pontão de Cultura Taba Okara, Jocelino Ka’arondara, afirma que os coletivos indígenas pretendem realizar uma pré-Teia para reunir propostas e fortalecer a participação dos povos originários nos debates nacionais. São articuladas atividades paralelas nos territórios indígenas, incluindo noites culturais, sessões de cinema e encontros preparatórios voltados à construção de propostas para os fóruns nacionais da Cultura Viva.

Na última semana, durante o encontro dos pontos de cultura, os participantes expressaram preocupação com a falta de informações e definições sobre as atividades nos territórios indígenas e a participação da população no evento, a poucos dias do início da programação.

Outro ponto destacado é a importância da criação do Plano Nacional das Culturas dos Povos Indígenas, tema que deve ocupar parte central da programação oficial da Teia. A proposta busca construir políticas públicas culturais formuladas a partir da escuta de organizações e lideranças indígenas de diferentes regiões do país.

Ao mesmo tempo, participantes alertam para a abordagem do tema central da Teia — justiça climática — e defendem que o debate ambiental não pode ser tratado de forma abstrata ou desconectada dos conflitos socioambientais históricos vividos pelas comunidades tradicionais em Aracruz, marcados pelo crime da Samarco/Vale-BHP, além da presença de grandes empreendimentos poluidores como a Suzano S.A (ex Aracruz Celulose e Ex-Fibria), a Petrobras, o Estaleiro Jurong, e portos Imetame, e empresas Estel e JSL.

Representantes indígenas envolvidos na articulação do encontro questionam como os debates de justiça climática irão dialogar concretamente com processos de reparação, impactos ambientais e disputas territoriais enfrentadas pelas comunidades.

Também aparecem críticas à forma como grandes eventos climáticos e ambientais têm sido conduzidos internacionalmente. A percepção é de que parte desses espaços acaba priorizando negociações econômicas e disputas por financiamento em vez de medidas concretas de reparação ambiental e fortalecimento dos territórios tradicionais. As discussões ocorrem ainda em meio ao avanço de propostas de flexibilização do licenciamento ambiental no país, tema citado por participantes indígenas como um exemplo das contradições entre o discurso ambiental e as políticas efetivamente implementadas.

Apesar das tensões, lideranças indígenas também reconhecem a importância simbólica da realização da Teia em Aracruz. A organização aponta que a programação contará com mais de 200 atividades, incluindo fóruns, oficinas, rodas de conversa, ações formativas, apresentações artísticas e feiras de economia criativa e solidária. Também estão previstos encontros internacionais, debates sobre saúde mental, cultura digital, leitura, memória, culturas urbanas, enfrentamento à violência de gênero e cooperação entre universidades, institutos federais e redes populares.

Para as comunidades indígenas envolvidos na articulação da Teia, o evento expõe a potência dos territórios originários na construção cultural do país, mas também disputas sobre participação, autonomia e os rumos das políticas públicas voltadas aos povos tradicionais. Uma das atividades, a Grande Roda Direitos Culturais, Bem Viver e Justiça Climática, vai resultar na aclamação da Carta de Aracruz, documento político construído coletivamente durante o encontro.

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