Moradia, transporte e assistência estão entre prioridades da nova gestão
Rearticular as entidades de base e aproximar os estudantes das decisões da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) para ampliar a luta por permanência estudantil é uma das prioridades do novo Diretório Central dos Estudantes (DCE). A gestão, que assumiu a entidade após anos de comando do mesmo campo político, pretende ampliar o debate para além do restaurante universitário (RU) e atuar em pautas como moradia, transporte, orçamento, acessibilidade e infraestrutura.
A avaliação é da vice-coordenadora geral do DCE, Emanuelle Afonso. Segundo ela, a nova gestão encontrou uma participação estudantil abaixo da observada em períodos recentes e pretende reconstruir a mobilização a partir dos centros acadêmicos (CAs), diretórios acadêmicos (DAs) e estudantes que não estão organizados politicamente.
“A gente precisa ampliar a participação estudantil”, afirmou. Para Emanuelle, a dificuldade de mobilização é um dos principais desafios do movimento estudantil atualmente. Ela cita como contraste as mobilizações de 2023, quando estudantes participaram de protestos em Vitória, e a dificuldade mais recente para reunir alunos em manifestações dentro da própria universidade.

Nesta semana, a mobilização realizada no Dia dos Estudantes, na terça-feira (11), foi apresentada pela nova gestão como parte desse processo de retomada. O ato foi organizado pouco depois do início efetivo da gestão com o retorno das aulas, o que, segundo Emanuelle, limitou o tempo de mobilização. “Tivemos dois dias para fazer ações de panfletagem. Foi ainda pouco para o que a gente gostaria de ter feito”, afirmou.
A manifestação teve como pautas o aumento do orçamento da educação, a defesa de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) para a área e o combate à repressão estudantil. A gestão também buscou reunir grêmios e estudantes de outras instituições para ampliar o debate para além da Ufes. Segundo Emanuelle, a intenção é dar continuidade às discussões iniciadas no ato com mesas de debate em Maruípe e nos campi do interior.
A dirigente também afirma que houve dificuldade de articulação com setores que anteriormente compunham a direção do DCE. Ela relata que esses grupos não responderam aos convites feitos pela nova gestão e realizaram uma atividade paralela, mas avalia que o Dia dos Estudantes deveria ter sido uma mobilização unificada, independentemente das disputas políticas internas.
A nova estratégia de atuação ocorre após uma mudança na correlação de forças do movimento estudantil da Ufes. O chamado campo democrático popular, que esteve à frente do DCE por anos, reunia integrantes do Levante Popular da Juventude, da União da Juventude do PT (JPT) e do Movimento Participa, ligado à Juventude Socialista Brasileira (JSB), do PSB. Na eleição deste ano, a oposição reuniu movimentos como a União da Juventude Comunista (UJC), do PCB, e o Movimento Correnteza, da Unidade Popular. A chapa de oposição venceu por cerca de 600 votos de diferença, em um processo que Emanuelle descreve como marcado por forte tensão, acusações e disputas entre os grupos.
Segundo ela, a campanha deste ano teve maior presença nos campi do interior e contou com apoio de entidades de base. A dirigente afirma que a nova gestão também passou a enfrentar tentativas de questionamento de sua legitimidade após a posse. A prioridade, no entanto, segundo Emanuelle, é evitar que a disputa política interna impeça a atuação do DCE. “O principal desafio é superar esse estigma de que o movimento estudantil é uma briga entre partidos”, afirmou.
Para a dirigente, o DCE deve se voltar às demandas concretas dos estudantes e cobrar tanto a administração universitária quanto os governos quando necessário. “A gente não está aqui para defender governos ou parlamentares, a gente está aqui para defender os direitos dos estudantes”, disse.
A expectativa da nova gestão é que a reorganização das entidades de base e a ampliação da participação ajudem a sustentar uma agenda de permanência estudantil que vá além de ações pontuais. Para Emanuelle, a gestão não se resume às 21 pessoas que ocupam as cadeiras do DCE, mas depende da participação dos estudantes nos fóruns, CAs, DAs e mobilizações. “A gestão não termina nessas 21 cadeiras”, afirmou. “Ela continua em toda a amplitude do movimento estudantil que esteja realmente interessado em compor e estar presente nessas movimentações com a gente”, reforçou.

Reorganizar
Para a dirigente, recuperar a participação é fundamental para que as reivindicações por permanência avancem. “Não tem como uma gestão de 21 pessoas estar em todos os lugares dos quatro campos da Ufes”, disse. Segundo ela, o DCE precisa contar com estudantes organizados nos cursos e nos diferentes espaços de discussão da universidade.
A proposta é aproximar a entidade dos CAs e DAs e estimular a reorganização daqueles que estão com dificuldades para renovar suas gestões. Emanuelle afirma que há cursos em que os estudantes têm demonstrado pouco interesse em participar das entidades e até desconhecem as possibilidades de atuação desses espaços. “Parece que, nos últimos anos, os estudantes perderam a fé nessa possibilidade de conseguir agir de forma efetiva dentro da realidade”, afirmou.
A nova gestão pretende manter a assistência estudantil entre as principais pautas, mas ampliar o entendimento sobre o que significa garantir a permanência na universidade. Emanuelle reconhece que a gestão anterior teve conquistas relacionadas aos restaurantes universitários, como a retomada do café da manhã e a oferta de jantar no campus de Maruípe. Para ela, porém, o serviço não pode concentrar sozinho a política de assistência estudantil. “Somente o RU não faz assistência estudantil”, afirmou.
Entre as prioridades citadas estão a ampliação da discussão sobre moradia e transporte, além da busca por maior transparência sobre a distribuição dos recursos da universidade. A dirigente também defende a gratuidade dos restaurantes universitários, para além de políticas que estabeleçam critérios para definir quais estudantes têm direito ao benefício.
Moradia é uma das questões que a nova gestão afirma ter identificado como prioritária, logo nos primeiros contatos com a administração central. Segundo Emanuelle, a Reitoria informou ao DCE a existência de um grupo de trabalho voltado à discussão de moradia e transporte e de estudos para destinar espaços a novas moradias estudantis. Atualmente, segundo ela, a Ufes possui moradia estudantil em Alegre, mas a estrutura não atende toda a demanda do campus.
A situação do interior também é apontada como um desafio. A gestão pretende aproximar os campi de Alegre e São Mateus das discussões do DCE, levando em consideração que as condições de permanência nesses locais são diferentes das encontradas na Grande Vitória.
Para a nova direção, ampliar a participação também significa fazer com que os estudantes saibam quais políticas e recursos estão disponíveis na universidade. Emanuelle afirma que a gestão tomou conhecimento, em reunião com a Reitoria, de recursos destinados a projetos de ensino e extensão e a iniciativas estudantis que, segundo ela, não estariam sendo suficientemente divulgados ou utilizados.
A dirigente também cita uma pesquisa sobre moradia e transporte realizada pela universidade que, segundo ela, teve baixa participação da comunidade acadêmica. Na avaliação do DCE, a falta de divulgação e mobilização contribuiu para o baixo número de respostas. A nova gestão pretende, por isso, fortalecer a comunicação com os estudantes e as entidades de base.
A intenção é que os representantes estudantis participem mais diretamente dos espaços em que essas políticas são discutidas. Emanuelle cita o Fórum de Assistência Estudantil como exemplo. Segundo ela, havia cadeiras destinadas à representação dos centros que não estavam ocupadas e a nova direção pretende discutir com os estudantes quem poderá assumir esses espaços. A ideia, segundo a dirigente, é que a representação não fique concentrada na direção do DCE, mas seja acompanhada pelos próprios estudantes.
Além das políticas diretamente relacionadas à assistência, a nova gestão pretende cobrar melhorias na estrutura física da universidade. Iluminação, acessibilidade e funcionamento de serviços nos campi estão entre as questões apontadas. Emanuelle afirma que a gestão pretende compreender como funciona a Prefeitura Universitária e por que determinados serviços e contratos demoram a ser executados. “A gente precisa fazer uma auditoria de como acontecem os trabalhos da Prefeitura Universitária dentro do campus”, afirmou. A proposta, segundo ela, é entender onde estão os gargalos e quais recursos já existem para solucionar problemas que afetam a rotina dos estudantes.
Aproximação das bases
A tentativa de reorganizar o movimento estudantil passa diretamente pela aproximação dos CAs e DAs, aponta a liderança. A nova gestão criou um grupo para manter contato direto com as entidades de base, mas Emanuelle reconhece que ainda há dificuldades, especialmente nos campi do interior. No caso de Alegre, por exemplo, nenhum CA havia integrado o grupo no momento da entrevista. Para a dirigente, isso demonstra a necessidade de intensificar o contato presencial com os estudantes. “A gente está indo atrás nas aulas porque ali, no cara a cara, a gente consegue resolver muito fácil”, afirmou.
A gestão também pretende alcançar estudantes que não participam de organizações políticas. A avaliação é que a permanência do movimento estudantil depende da capacidade de mostrar resultados concretos e de demonstrar que a organização e mobilização políticas podem alterar as condições de vida.

