“Em 64 anos de idade, nunca me envolvi com roubo”, defendeu-se Lidiney Gobbi em julgamento

A Câmara de Vereadores de Marechal Floriano (região serrana) aprovou, em sessão extraordinária realizada nesta sexta-feira (25), a cassação do prefeito Lidiney Gobbi (PP). Todos os 11 parlamentares aprovaram o relatório final da Comissão Processante (CP) elaborado por Diogo Endlich Oliveira, mais conhecido como Diogo da AMAR (Podemos).
A Comissão Processante foi instaurada após denúncia do eleitor Júlio Alberto Armelau, recebida pela Câmara em 5 de novembro de 2025. Os trabalhos foram paralisados em dezembro por conta de uma liminar do Tribunal de Justiça do Estado (TJES), que foi derrubada em janeiro. Quando o julgamento do prefeito estava prestes a ocorrer, em fevereiro, sua defesa conseguiu nova decisão judicial favorável, e o Poder Judiciário liberou novamente a tramitação do processo este mês.
A gestão de Lidiney Gobbi foi acusada de fazer alterações nas datas de avisos de licitações publicados no portal oficial da prefeitura, entre julho e outubro de 2025, que deixaram de aparecer entre as publicações recentes e posteriormente retornaram. Em muitos casos, foram colocados anos aleatórios, como 2000, 1980, 1972 e 2022. A intenção, segundo a denúncia, era manipular a visibilidade dos avisos, de forma a favorecer determinadas empresas. Publicações nas redes sociais mostravam obras sendo executadas antes mesmo da assinatura dos contratos.
A defesa do prefeito alegou que as mudanças nas datas foram apenas erros técnicos, e que não há prova de envolvimento direto de Lidney em irregularidades. Entretanto, de acordo com o relatório final da Comissão Processante, servidores arrolados como testemunhas pelo próprio chefe do Executivo afirmaram em depoimentos que as alterações ocorreram de forma deliberada.
“Configura-se retardamento e fraude à publicação quando processos licitatórios são temporariamente removidos do portal de transparência, quando publicações permanecem com datas incorretas que dificultam ou impossibilitam sua localização pelos interessados, quando avisos de licitação ficam expostos por períodos ínfimos antes de serem retirados do sistema, e quando informações corretas são substituídas por dados falsos que prejudicam a identificação dos processos pelos potenciais licitantes. Equivale a deixar de publicar quando a publicação é removida ou mascarada por informações falsas que impedem sua efetiva consulta”, diz o relatório.
A defesa também abordou aspectos técnicos para alegar nulidade do processo. Entre eles está o fato de que a denúncia do caso se baseou em um relatório de Diogo da AMAR, que depois viria a ser o relator da Comissão Processante – colocando-o, portanto, na dupla função de denunciante e julgador. Diogo, porém, afirmou que “as infrações descritas na denúncia vão muito além daquilo que estava contido no relatório”, que teria sido produzido para outros fins.
No início da sessão extraordinária de julgamento, a defesa do prefeito solicitou a “decadência” do processo, alegando que o prazo de 90 dias para conclusão das atividades havia vencido, mas os vereadores entenderam que o fluxo temporal ficou suspenso por causa das liminares judiciais. Nas alegações finais, os advogados também argumentaram não haver provas de participação de Gobbi nas irregularidade, e afirmaram que a cassação do mandato provocaria instabilidade política.
Lidiney também estava presente no plenário e se defendeu. Na sua fala, destacou sua trajetória como servidor público do município, dizendo que “em mais de 30 anos, nunca tive uma denúncia de um desvio” e que “em 64 anos de idade, nunca me envolvi com roubo”. Gobbi apelou ainda aos vereadores para que as eventuais irregularidade fossem apuradas, mas sem cassá-lo, tendo em vista que não ele teve envolvimento.
Não foi o suficiente. Com a sua cassação, quem assumirá o comando da Prefeitura de Marechal Floriano é o vice-prefeito, Junior Lovatti (PL).
Histórico
Lidiney Gobbi foi eleito prefeito em 2024 após uma disputa relativamente acirrada: obteve 4.087 votos (36,6%), bem menos do que a metade do eleitorado. O segundo colocado, Felipe Del Puppo (MDB), teve 3.429 votos (30,7%).
Gobbi já havia sido prefeito de 2013 a 2016, mas não conseguiu se reeleger. Além disso, teve atuação no processo que resultou na emancipação de Marechal Floriano, em 1991, do município de Domingos Martins, e participou de outras gestões municipais.

