Pescador leva à UVV ações de preservação contra degradação de manguezais

Enquanto pescadores e ambientalistas organizam mutirões para retirar lixo dos manguezais de Vila Cajueiro, em Cariacica, novas intervenções continuam alterando áreas próximas ao ecossistema, segundo relatos de quem acompanha a região. A avaliação é de Alexandre Rosa, do Projeto Mangue Limpo, que aponta uma contradição entre o esforço comunitário de preservação e as intervenções realizadas no território impactado, que abriga trechos de manguezal do estuário do Rio Santa Maria da Vitória, parte deles inseridos na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Municipal do Manguezal de Cariacica, além de sítios arqueológicos registrados há anos.
Alexandre será um dos participantes, nesta quinta-feira (24), do encontro “O Mangue que Sustenta: Comunidade, Clima e Futuro”, na Universidade Vila Velha (UVV), durante o InovaWeek 2026. A programação acontece das 17h às 19h, na Arena Sustenta Tech, no campus Boa Vista. Na ocasião, ele pretende apresentar as ações desenvolvidas pelo projeto, incluindo os mutirões de limpeza e a eco-barreira instalada no Rio Bubu, além de discutir a relação entre manguezais, comunidades e mudanças climáticas. “Enquanto a gente e outras instituições lutam para preservar, as empresas continuam matando”, afirma Alexandre.
A participação na universidade ocorre em meio a uma série de denúncias sobre intervenções em Vila Cajueiro. No último dia 16, a Associação Juntos SOS Espírito Santo Ambiental ingressou com uma ação civil pública na Justiça Federal para pedir a interrupção de intervenções em áreas de manguezal, unidade de conservação, cursos d’água e sítios arqueológicos na região.
A ação tramita na 4ª Vara Federal Cível de Vitória e aponta como réus a Inova Participações Ltda., a RG Administração e Participação de Bens Ltda., a Andares Construção Civil Ltda., o Município de Cariacica, o Estado do Espírito Santo, o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a União. O Ministério Público Federal (MPF) também consta no processo para atuar como fiscal da lei. Entre os pedidos estão a interrupção de novos aterros, terraplenagens, cortes, escavações e pavimentações, além da recuperação das áreas apontadas como degradadas. Segundo a entidade, principalmente a partir de 2025, a região passou a registrar intervenções relacionadas a empreendimentos logísticos e obras viárias. A associação aponta três núcleos principais de intervenção, entre eles áreas relacionadas ao chamado Porto da Pedra, ao RG Centro Logístico e à obra da Rua Junho.
O processo também reúne informações do Iphan sobre impactos em sítios arqueológicos. Em documentos citados pela associação, o órgão federal registrou intervenções sobre áreas onde já haviam sido identificados bens arqueológicos, incluindo o Sambaqui Porto de Pedra e o Sambaqui Santa Maria 1. A questão ambiental se soma à preocupação com o patrimônio arqueológico porque parte das áreas denunciadas está próxima ao estuário do Rio Santa Maria da Vitória e inclui ambientes como manguezais, brejos, taboais e cursos d’água.
Nesse território, Alexandre e outros integrantes do Projeto Mangue Limpo vêm desenvolvendo ações de limpeza. Uma das iniciativas que será apresentada na UVV é a eco-barreira instalada pelo grupo no Rio Bubu. A estrutura começou a funcionar em fevereiro e foi criada para conter resíduos que descem pelo rio antes que avancem para áreas de manguezal e, posteriormente, para o oceano. Segundo Alexandre, a barreira é formada por uma rede sustentada por bombonas plásticas, que atravessa o rio de uma margem à outra. A estrutura fica próxima à superfície e alcança aproximadamente 10 a 15 centímetros abaixo da água.
A profundidade foi pensada, segundo ele, para evitar que a estrutura cause impactos sobre os animais aquáticos. “Ela não vai ao fundo. Ela só trabalha de 10 centímetros, 15 centímetros só para baixo da água”, explica. Desde a instalação, o grupo afirma ter retirado uma quantidade significativa de resíduos acumulados na estrutura. A limpeza também passou a ser incorporada aos mutirões realizados pelo projeto.
A próxima ação está prevista para 11 de outubro e será, segundo Alexandre, a 16ª mobilização realizada pelo grupo. A dinâmica envolve a divisão dos participantes: enquanto uma equipe trabalha na retirada dos resíduos acumulados na eco-barreira, outra segue de barco para realizar a limpeza do manguezal. A experiência, para Alexandre, mostra que a comunidade consegue atuar diretamente na conservação do ambiente. Mas também evidencia, segundo ele, que a retirada de lixo não resolve sozinha os problemas enfrentados pelo ecossistema.
Mudanças climáticas
A relação entre preservação ambiental e mudanças climáticas vai ser outro ponto abordado durante o encontro na universidade. Alexandre afirma que os manguezais precisam ser compreendidos também a partir da proteção que oferecem às comunidades diante dos impactos climáticos. Para ele, a degradação desses ambientes aumenta a vulnerabilidade de territórios que já enfrentam eventos extremos.“Os impactos do clima estão vindo”, afirma.
A programação da UVV reúne diferentes participantes para discutir o papel dos manguezais, das comunidades e da conservação ambiental. Alexandre pretende aproveitar o espaço para apresentar registros audiovisuais das atividades realizadas pelo Projeto Mangue Limpo e levar à universidade a situação vivida em Vila Cajueiro. A ideia é apresentar o contraste entre o trabalho realizado por moradores e ativistas para preservar o manguezal e as intervenções que, segundo os relatos e denúncias apresentados por organizações ambientais, continuam ocorrendo na região.
Ele aponta que a mobilização dos pescadores e ambientalistas também pode ganhar uma nova frente nas próximas semanas, com a mobilização de grupos de ativistas que planejam uma manifestação nas proximidades do manguezal. As conversas começaram em um encontro realizado no espaço Thelema, no Centro de Vitória, e devem continuar em uma reunião prevista para 18 de outubro, na região do Rio Bubu. A intenção, segundo ele, é organizar uma manifestação utilizando barcos e ocupar as margens do Rio Santa Maria da Vitória, nas proximidades das áreas onde são denunciadas intervenções.
A proposta ainda está em discussão e não tem data definida. Alexandre afirma que a mobilização também é uma resposta às dificuldades que o grupo vem encontrando para acessar algumas áreas do território. Segundo ele, um amigo que tentou gravar imagens no local foi abordado por um segurança e orientado a deixar a área. “Eles não querem a gente lá”, relata. O grupo, segundo Alexandre, passou a discutir formas de realizar as ações de maneira organizada e coletiva. A ideia é reunir pescadores, ambientalistas, ativistas e pessoas interessadas na defesa do manguezal.
Além do mangue
Além da vegetação típica dos manguezais, Alexandre destaca que a preocupação dos pescadores também abrange as mudanças em áreas próximas, onde, segundo ele, estão sendo realizados cortes de morros e movimentações de terra. De acordo com o pescador, parte do material retirado desses locais estaria sendo transportada para áreas mais elevadas próximas ao manguezal. Ele afirma ainda que áreas de mata ciliar também estariam sendo afetadas.
Segundo Alexandre, existe a previsão de instalação de uma estrutura de contenção para evitar que a terra seja carregada para dentro do manguezal durante as chuvas. Para ele, porém, parte do material já teria chegado ao ambiente. “Já está tudo lá dentro da lama”, afirma. Ele relata ainda ter observado marcas associadas à presença de caranguejos em meio ao barro.
As afirmações fazem parte das denúncias apresentadas por pescadores e organizações ambientais que acompanham a região. A ação civil pública protocolada pela Associação Juntos também pede que sejam realizadas perícias ambientais, arqueológicas, hidrológicas, topográficas e geotécnicas para avaliar os impactos apontados. Enquanto as denúncias seguem sendo discutidas em órgãos públicos e na Justiça, o Projeto Mangue Limpo continua realizando ações de limpeza e mobilização.
Para Alexansre, discutir a preservação dos manguezais significa também discutir quem tem acesso ao território, quem depende dele, quais atividades podem ser desenvolvidas na região e quais impactos são deixados para as comunidades. “Enquanto a gente luta para preservar, as empresas continuam matando”, resume.

