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Instituto alerta para biomídias encontradas no estômago de tartaruga em Vila Velha

Animal recolhido na Barra do Jucu ingeriu peça de sistemas de tratamento

Ipram

A presença de biomídias nas praias capixabas, que começou a chamar atenção com maior intensidade no primeiro semestre deste ano, já alcançou a fauna marinha. O alerta foi feito pelo Instituto de Pesquisa e Reabilitação de Animais Marinhos (Ipram), que reconheceu uma dessas estruturas no conteúdo estomacal de uma tartaruga-verde. O material só foi identificado agora, após a ocorrência das peças nas praias ganhar repercussão, durante uma revisão dos resíduos retirados do animal, recolhido na Barra do Jucu, em Vila Velha, em novembro de 2025.

Segundo o diretor-presidente do Ipram, Luiz Felipe Maiorga, trata-se do primeiro registro identificado pelo instituto de ingestão de uma biomídia por um animal marinho. A tartaruga, no entanto, não morreu em decorrência da ingestão do material. A necropsia apontou uma causa aguda associada à interação com artefato de pesca.

A biomídia estava no estômago junto a diversos outros resíduos sólidos, entre eles fragmentos de plástico e isopor. O animal apresentava bom estado corporal, sem sinais de que estivesse em processo de debilidade acentuada, apesar da presença dos resíduos. “Ela não morreu por causa disso”, explicou Maiorga. Segundo ele, a necropsia identificou alterações no sistema respiratório compatíveis com afogamento e outros indícios que levaram a equipe a considerar que a tartaruga tenha sido vítima da interação com equipamento de pesca.

A análise também encontrou um processo parasitário em desenvolvimento. Para o diretor-presidente do Ipram, os diversos resíduos ingeridos podem ter contribuído para uma possível debilidade do animal e, consequentemente, para o desequilíbrio observado na presença de parasitas. A relação, porém, não permite estabelecer a ingestão de plástico como causa da morte.

O presidente do Instituto explica que as biomídias são estruturas utilizadas em sistemas de tratamento para oferecer uma superfície à aderência de microrganismos envolvidos na filtragem e na degradação de matéria orgânica. Fora desses sistemas, entretanto, podem se transformar em resíduos dispersos no ambiente.

O Ipram considera a biomídia um “resíduo emergente”. De acordo com Maiorga, há cerca de cinco anos esse tipo de peça não chamava atenção nos monitoramentos realizados pelo instituto. A ocorrência começou a ser percebida com maior frequência no primeiro semestre de 2026, embora relatos posteriores tenham levado os pesquisadores a considerar que a dispersão pode ter começado ainda no ano passado.

Embora o animal tenha sido recolhido em novembro de 2025, quando as biomídias ainda não estavam no centro das atenções, a peça encontrada em seu estômago foi fotografada, triada e armazenada junto aos demais resíduos. Com o aumento das ocorrências nas praias, a equipe revisou casos anteriores e identificou a biomídia entre o material retirado do animal. Além do registro na tartaruga, a quantidade encontrada no litoral levanta a possibilidade de uma fonte contínua de dispersão. Maiorga afirma ter encontrado pessoalmente mais de cem biomídias na região da foz do Rio Jucu, na Barra do Jucu. Segundo ele, outros integrantes do monitoramento também continuam relatando a presença das peças no local.

Ipram

A concentração na região levou o Ipram a levantar a hipótese de que parte do material esteja chegando ao mar pelo próprio Rio Jucu. “A gente supõe que elas estejam descendo pelo Rio Jucu”, afirmou. A hipótese, porém, ainda não foi comprovada. O instituto já encaminhou ao Ibama um ofício com coordenadas geográficas dos pontos onde encontrou as peças, com o objetivo de auxiliar uma eventual investigação sobre a origem do material. O órgão federal havia informado anteriormente ao Século Diário que instaurou procedimento para apurar o caso.

A origem permanece uma incógnita desde então. As biomídias podem ser utilizadas em diferentes tipos de sistemas de tratamento e, portanto, o material encontrado nas praias não necessariamente teria origem em uma estação de tratamento de esgoto de grande porte. Luiz Felipe afirma que o instituto já buscou informações sobre sistemas de saneamento. A Cesan, segundo ele, informou que não utiliza esse tipo de biomídia em seus sistemas. Com isso, permanecem abertas outras possibilidades, como instalações industriais, empreendimentos ligados à produção de alimentos, pisciculturas, sistemas de aquarismo ou outros equipamentos de tratamento de água.

Também não está descartada a possibilidade de descarte inadequado de biomídias ou mesmo de perda de material durante o transporte. Outra hipótese levantada pelo pesquisador é a de que o material possa ter chegado ao litoral após um acidente envolvendo uma embarcação e um contêiner. Não há, contudo, evidência que permita apontar essa como a origem das peças encontradas no Espírito Santo.

Uma das principais questões da investigação é saber se as ocorrências atuais são consequência de um único episódio de grande liberação de biomídias ou se existe uma fonte que continua lançando o material no ambiente. Para Maiorga, as duas possibilidades permanecem abertas. Caso tenha ocorrido um único despejo, as peças poderiam estar sendo transportadas e redistribuídas pelas correntes e pelos rios ao longo dos meses. Outra possibilidade é que novas biomídias continuem chegando ao ambiente. A diferença é importante para dimensionar o problema ambiental. Uma liberação pontual exigiria identificar quando e onde ocorreu o descarte. Já uma fonte contínua indicaria a existência de um processo que ainda estaria produzindo novos resíduos no litoral.

Para tentar diferenciar esses cenários, o Ipram passou a recorrer à ciência cidadã em parceria com pesquisadores do Grupo LixoMar, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). A proposta é reunir informações sobre local, data, quantidade e características das peças encontradas por moradores e pesquisadores. Com os registros, o grupo pretende construir um mapa geográfico e temporal das ocorrências. A concentração dos achados poderá ajudar a indicar possíveis caminhos de dispersão e, posteriormente, orientar a investigação sobre as fontes.

O Grupo LixoMar já realiza monitoramento sistemático de resíduos nas praias capixabas e possui uma metodologia de coleta que permite comparar a quantidade e a distribuição dos materiais encontrados. O Ipram também mantém uma parceria de longa duração com o grupo, para o qual encaminha resíduos encontrados no trato gastrointestinal de tartarugas e aves marinhas.

Outro ponto de preocupação é o possível risco associado às biomídias depois que deixam os sistemas para os quais foram produzidas. As estruturas são desenvolvidas para favorecer a aderência de bactérias benéficas ao processo de tratamento. No ambiente, porém, podem ser colonizadas por outros microrganismos. “Uma vez que ela está fora desse uso dela, a gente não sabe quais microrganismos vão aderir nela”, explicou Luiz Felipe Maiorga. Segundo ele, não é possível afirmar, sem análises, se esses microrganismos serão benéficos ou poderão apresentar características patogênicas. Por isso, o Ipram recomenda cautela no contato com as peças.

Embora a população possa contribuir para o levantamento das ocorrências, a orientação é que o recolhimento só seja feito quando houver condições seguras, com uso de luvas. O instituto prefere que as peças sejam preservadas e encaminhadas para análise, quando possível, em vez de simplesmente descartadas. A orientação também busca evitar que moradores se exponham a um material cuja condição microbiológica, depois de permanecer no ambiente, ainda não é conhecida.

Investigação

Meses após os primeiros registros, pequenas peças plásticas continuam sendo encontradas em praias do Estado, enquanto o Ibama ainda tenta identificar a origem do material. As ocorrências foram registradas inicialmente em Vila Velha, no final do ano passado, mas a maior repercussão aconteceu a partir de junho, quando chegaram em grande quantidade na Serra. Moradores e entidades de outros municípios da Grande Vitória também relataram ter avistado o material. Segundo relatos de moradores, novas peças foram encontradas na última semana na região após o restaurante Maresia e na Curva da Baleia, em Jacaraípe, na Serra.

O Século Diário procurou novamente o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para saber se houve avanço na investigação sobre a origem das peças, quais providências foram adotadas desde a abertura do processo e se alguma instalação ou atividade já foi identificada como possível fonte do material. Até o fechamento desta reportagem, o órgão não havia respondido.

Em agosto, o Ibama havia informado que buscava apoio de órgãos ambientais estaduais para identificar a procedência das biomídias, uma vez que não dispõe de laboratório para realizar a análise específica desse tipo de componente. O órgão também afirmou que, caso fossem identificadas a origem, a materialidade e a autoria de eventual infração, poderiam ser adotadas medidas administrativas, incluindo penalidades e ações de reparação ou compensação de danos ambientais.

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