Associação de moradores afirma que intervenções continuam no bairro

Uma nova árvore foi removida na Rua Maria Eleonora Pereira, em Jardim da Penha nesta quinta-feira, mantendo a preocupação de moradores com a forma como a arborização urbana vem sendo manejada pela Prefeitura de Vitória, sob gestão de Cris Samorini (PP). O corte ocorreu em frente ao estabelecimento Mr. Dog e, segundo informação repassada à Associação de Moradores de Jardim da Penha (AMJAP), teria como justificativa uma interferência da árvore na calçada.
A intervenção ocorre cerca de um mês depois de uma mobilização iniciada por moradores e pela associação contra podas consideradas excessivas em diferentes pontos do bairro. Desde então, segundo Raiaq Roos, coordenador de Habitação, Urbanismo e Meio Ambiente da AMJAP, outras podas foram realizadas pelo bairro. “De lá para cá, a prefeitura fez algumas outras podas, só que essas podas não tiveram a intensidade daquela primeira poda ali na Rua Doutor Antônio Basílio. Foi a que foi o grande foco da nossa mobilização”, afirma.
A intervenção na Rua Doutor Antônio Basílio foi realizada em agosto e envolveu seis castanheiras de grande porte, que tiveram suas copas reduzidas de maneira considerada radical pelos moradores. Na ocasião, a associação passou a questionar os critérios utilizados pela administração municipal e a pedir acesso aos documentos que embasaram os serviços.
Segundo Raiaq, depois daquele episódio as podas continuaram em diferentes ruas de Jardim da Penha. A associação não possui, porém, um número fechado de árvores que passaram por intervenções. “Foram muitas em diversas ruas do bairro”, afirma. A diferença, segundo ele, é que, posteriormente, as intervenções se deram de maneira mais pontual, geralmente atingindo uma ou duas árvores por rua. Para a liderança, a mudança não significa que o problema tenha sido solucionado. “Ainda não é o ideal, porque em algumas árvores a prefeitura ainda tá passando um pouquinho do que a gente acha que é o aceitável, mas nenhuma chegou naquele ponto”, relata.
A associação também afirma ter recebido informações sobre intervenções semelhantes em outros bairros de Vitória, como Jardim Camburi, Praia do Canto e Santa Luíza. Para Raiaq, isso indica que a discussão não estaria restrita ao bairro. “A gente sabe que a prefeitura está agindo da mesma forma em outros bairros. Então não é uma coisa pontual, a gente já tem, é geral”, afirma.

Depois da mobilização iniciada em agosto, a AMJAP afirma não ter recebido novas explicações diretamente da Prefeitura de Vitória. Segundo Raiaq, a entidade solicitou laudos relacionados às podas e um cronograma das intervenções, mas não recebeu os documentos. “A prefeitura não mandou comunicado, não atendeu a associação de nenhuma forma, não se reuniu com a associação, não deu nenhuma explicação, além da nota que mandou pra imprensa”, afirma.
A associação também identificou uma mudança na gerência municipal responsável pelas podas. Raiaq ressalva que não é possível afirmar que a alteração tenha relação com a mobilização dos moradores. A troca, contudo, ocorreu depois das manifestações da entidade. “Não se pode afirmar que foi em decorrência das manifestações dos moradores e da associação, mas pode ter relação. O fato é que aconteceu depois da nossa mobilização”, avalia. A mudança foi identificada pela associação a partir das publicações oficiais de nomeações e exonerações. A entidade pretende levantar a publicação correspondente no Diário Oficial para documentar a alteração.
Na avaliação da associação, um dos problemas está na intensidade das intervenções. Segundo Raiaq, especialistas procuraram voluntariamente a entidade para avaliar os registros das podas e apontaram que a redução das copas teria ultrapassado o que consideram adequado. “Todo mundo fala a mesma coisa, que o recomendado é cortar até 30%. E aí, o que aconteceu foi que foi muito mais”, afirma.
A crítica já havia sido apresentada pela associação na mobilização de agosto. Na ocasião, Raiaq afirmou que a entidade teve acesso a um documento assinado por engenheiro agrônomo que recomendava a redução das copas, mas considerou que as orientações eram genéricas quanto à dimensão da intervenção.
A Prefeitura, por sua vez, havia informado que as podas realizadas em Jardim da Penha tinham como objetivo compatibilizar o porte das árvores com as condições do espaço urbano, reduzindo interferências em edificações e riscos à população e ao patrimônio. Segundo a administração municipal, as intervenções são realizadas a partir de avaliação e parecer técnico e seguem a legislação municipal e o Plano Diretor de Arborização e Áreas Verdes de Vitória.
O urbanista e professor de paisagismo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Homero Penteado, em reportagem anterior publicada pelo Século Diário, chamou atenção para os efeitos coletivos da redução das copas e defendeu que conflitos entre árvores e infraestrutura sejam avaliados individualmente. Ele reforçou que a arborização interfere na qualidade visual das ruas, na temperatura das superfícies e na retenção da água da chuva e de partículas de poluição, por isso sugere dar preferência por podas seletivas quando o problema estiver concentrado em determinados galhos ou pontos de interferência.

Mobilização continua
A associação afirma que pretende ampliar a articulação iniciada após as primeiras podas e discutir a arborização de Vitória de forma mais abrangente. Segundo Raiaq, moradores vêm fornecendo informações de novas intervenções e a entidade está construindo uma frente para incidir coletivamente sobre o tema. “Estamos avançando, a gente está construindo uma frente com os moradores para tratar dessas podas e da arborização de uma maneira geral”, afirma.
Procurada, a Prefeitura de Vitória foi questionada em relação à remoção realizada nesta quinta-feira (24), a justificativa para o corte, a existência de avaliação técnica e autorização para a intervenção, além do número de árvores podadas ou removidas em Jardim da Penha desde agosto e das solicitações feitas pela associação. Até o fechamento desta matéria, não houve retorno.

