quinta-feira, setembro 24, 2026
22.9 C
Vitória
quinta-feira, setembro 24, 2026
quinta-feira, setembro 24, 2026

Leia Também:

Nova árvore cortada em Jardim da Penha mantém alerta de podas ‘drásticas’ em Vitória

Associação de moradores afirma que intervenções continuam no bairro

Amjap

Uma nova árvore foi removida na Rua Maria Eleonora Pereira, em Jardim da Penha nesta quinta-feira, mantendo a preocupação de moradores com a forma como a arborização urbana vem sendo manejada pela Prefeitura de Vitória, sob gestão de Cris Samorini (PP). O corte ocorreu em frente ao estabelecimento Mr. Dog e, segundo informação repassada à Associação de Moradores de Jardim da Penha (AMJAP), teria como justificativa uma interferência da árvore na calçada.

A intervenção ocorre cerca de um mês depois de uma mobilização iniciada por moradores e pela associação contra podas consideradas excessivas em diferentes pontos do bairro. Desde então, segundo Raiaq Roos, coordenador de Habitação, Urbanismo e Meio Ambiente da AMJAP, outras podas foram realizadas pelo bairro. “De lá para cá, a prefeitura fez algumas outras podas, só que essas podas não tiveram a intensidade daquela primeira poda ali na Rua Doutor Antônio Basílio. Foi a que foi o grande foco da nossa mobilização”, afirma.

A intervenção na Rua Doutor Antônio Basílio foi realizada em agosto e envolveu seis castanheiras de grande porte, que tiveram suas copas reduzidas de maneira considerada radical pelos moradores. Na ocasião, a associação passou a questionar os critérios utilizados pela administração municipal e a pedir acesso aos documentos que embasaram os serviços.

Segundo Raiaq, depois daquele episódio as podas continuaram em diferentes ruas de Jardim da Penha. A associação não possui, porém, um número fechado de árvores que passaram por intervenções. “Foram muitas em diversas ruas do bairro”, afirma. A diferença, segundo ele, é que, posteriormente, as intervenções se deram de maneira mais pontual, geralmente atingindo uma ou duas árvores por rua. Para a liderança, a mudança não significa que o problema tenha sido solucionado. “Ainda não é o ideal, porque em algumas árvores a prefeitura ainda tá passando um pouquinho do que a gente acha que é o aceitável, mas nenhuma chegou naquele ponto”, relata.

A associação também afirma ter recebido informações sobre intervenções semelhantes em outros bairros de Vitória, como Jardim Camburi, Praia do Canto e Santa Luíza. Para Raiaq, isso indica que a discussão não estaria restrita ao bairro. “A gente sabe que a prefeitura está agindo da mesma forma em outros bairros. Então não é uma coisa pontual, a gente já tem, é geral”, afirma.

Leonardo Sá

Depois da mobilização iniciada em agosto, a AMJAP afirma não ter recebido novas explicações diretamente da Prefeitura de Vitória. Segundo Raiaq, a entidade solicitou laudos relacionados às podas e um cronograma das intervenções, mas não recebeu os documentos. “A prefeitura não mandou comunicado, não atendeu a associação de nenhuma forma, não se reuniu com a associação, não deu nenhuma explicação, além da nota que mandou pra imprensa”, afirma.

A associação também identificou uma mudança na gerência municipal responsável pelas podas. Raiaq ressalva que não é possível afirmar que a alteração tenha relação com a mobilização dos moradores. A troca, contudo, ocorreu depois das manifestações da entidade. “Não se pode afirmar que foi em decorrência das manifestações dos moradores e da associação, mas pode ter relação. O fato é que aconteceu depois da nossa mobilização”, avalia. A mudança foi identificada pela associação a partir das publicações oficiais de nomeações e exonerações. A entidade pretende levantar a publicação correspondente no Diário Oficial para documentar a alteração.

Na avaliação da associação, um dos problemas está na intensidade das intervenções. Segundo Raiaq, especialistas procuraram voluntariamente a entidade para avaliar os registros das podas e apontaram que a redução das copas teria ultrapassado o que consideram adequado. “Todo mundo fala a mesma coisa, que o recomendado é cortar até 30%. E aí, o que aconteceu foi que foi muito mais”, afirma.

A crítica já havia sido apresentada pela associação na mobilização de agosto. Na ocasião, Raiaq afirmou que a entidade teve acesso a um documento assinado por engenheiro agrônomo que recomendava a redução das copas, mas considerou que as orientações eram genéricas quanto à dimensão da intervenção.

A Prefeitura, por sua vez, havia informado que as podas realizadas em Jardim da Penha tinham como objetivo compatibilizar o porte das árvores com as condições do espaço urbano, reduzindo interferências em edificações e riscos à população e ao patrimônio. Segundo a administração municipal, as intervenções são realizadas a partir de avaliação e parecer técnico e seguem a legislação municipal e o Plano Diretor de Arborização e Áreas Verdes de Vitória.

O urbanista e professor de paisagismo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Homero Penteado, em reportagem anterior publicada pelo Século Diário, chamou atenção para os efeitos coletivos da redução das copas e defendeu que conflitos entre árvores e infraestrutura sejam avaliados individualmente. Ele reforçou que a arborização interfere na qualidade visual das ruas, na temperatura das superfícies e na retenção da água da chuva e de partículas de poluição, por isso sugere dar preferência por podas seletivas quando o problema estiver concentrado em determinados galhos ou pontos de interferência.

Leonardo Sá

Mobilização continua

A associação afirma que pretende ampliar a articulação iniciada após as primeiras podas e discutir a arborização de Vitória de forma mais abrangente. Segundo Raiaq, moradores vêm fornecendo informações de novas intervenções e a entidade está construindo uma frente para incidir coletivamente sobre o tema. “Estamos avançando, a gente está construindo uma frente com os moradores para tratar dessas podas e da arborização de uma maneira geral”, afirma.

Procurada, a Prefeitura de Vitória foi questionada em relação à remoção realizada nesta quinta-feira (24), a justificativa para o corte, a existência de avaliação técnica e autorização para a intervenção, além do número de árvores podadas ou removidas em Jardim da Penha desde agosto e das solicitações feitas pela associação. Até o fechamento desta matéria, não houve retorno.

Mais Lidas