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Moradores articulam frente em defesa da arborização de Vitória

Associação critica podas severas em Jardim da Penha e outros bairros

Leonardo Sá

As novas podas realizadas nos últimos dias em Jardim da Penha, em Vitória, ampliaram a mobilização de moradores que já vinham questionando a retirada considerada excessiva de copas de árvores no bairro. A Associação de Moradores de Jardim da Penha (AMJAP) afirma que pretende se articular com entidades de outras regiões da cidade para formar uma frente em defesa da arborização urbana e cobrar da Prefeitura de Vitória, sob gestão de Cris Samorini (PP), critérios mais claros para as intervenções.

Segundo o dirigente da associação, Raiaq Roos, novas árvores foram submetidas a intervenções semelhantes na Rua José Neves Cypreste nesta semana e nas ruas Doutor Moacir Gonçalves e Doutor Antônio Basílio na semana anterior. Ele afirma que já havia registros de podas nas mesmas vias e que a entidade também passou a receber relatos de moradores de outros bairros sobre situações parecidas.

“Não é algo pontual de Jardim da Penha. Parece ser a forma como a prefeitura está realizando a poda na estratégia inteira”, afirma Raiaq. Segundo ele, a associação tem recebido fotografias e relatos por meio das redes sociais e está tentando identificar outros moradores para compreender a dimensão das intervenções.

Um dos casos mencionados pela associação ocorreu em Santa Luzia, também em Vitória, onde uma castanheira teria passado por intervenção semelhante. A entidade pretende entrar em contato com moradores do local para reunir informações e avaliar a possibilidade de uma mobilização conjunta. A articulação, de acordo com Raiaq, pode envolver não apenas associações de moradores, mas também outras forças políticas e entidades interessadas na preservação da arborização.

A mobilização começou depois de repercutirem reclamações de moradores e da própria AMJAP contra uma poda considerada radical em diversas castanheiras. Na ocasião, a associação questionou a ausência de informações prévias para a intervenção e buscou acesso aos documentos que teriam embasado o serviço.

A Prefeitura de Vitória afirmou, em nota enviada à imprensa capixaba, que as intervenções realizadas em castanheiras de Jardim da Penha tiveram como objetivo compatibilizar o porte das árvores com as condições do espaço urbano, reduzindo interferências em edificações e riscos à população e ao patrimônio. De acordo com a administração municipal, na Rua Francisco Eugênio Mussielo, próxima ao Conjunto Pégasus, havia castanheiras de grande porte, algumas com mais de 20 metros de altura, cujas copas avançavam sobre telhados e estruturas dos imóveis. A prefeitura afirmou ainda que a intervenção foi autorizada a partir de avaliação e parecer da equipe técnica responsável pela arborização urbana.

A nota informa que o manejo é realizado com base na legislação municipal e no Plano Diretor de Arborização e Áreas Verdes de Vitória. Também afirma que cada árvore é avaliada individualmente e que, após intervenções, os exemplares permanecem sob acompanhamento das equipes responsáveis. A associação, porém, considera necessário ampliar a discussão para além da justificativa apresentada para cada árvore. Para Raiaq, a questão envolve também a forma como o serviço é especificado e executado.

Ele teve acesso ao documento assinado por engenheiro agrônomo que recomendava a redução da copa, mas observa que orientações eram genéricas e não estabeleciam com clareza a dimensão da intervenção. Para o representante da entidade, isso pode deixar margem para que a empresa terceirizada responsável pelo serviço execute uma poda mais intensa do que a necessária. A liderança também defende a necessidade de considerar, em uma intervenção desse porte, aspectos paisagísticos, urbanísticos e a comunidade que utiliza o espaço público e não somente os interesses dos imóveis diretamente afetados.

Leonardo Sá

Impactos coletivos

A avaliação do urbanista e professor de paisagismo na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Homero Penteado, reforça que uma árvore urbana não deve ser analisada somente pela existência de conflitos com imóveis ou infraestrutura. Ele ressalta os impactos que a redução significativa das copas pode produzir sobre a paisagem e o funcionamento da cidade. “O primeiro impacto é o visual, o estético, de uma perda importante para a qualidade visual da rua, da paisagem”, afirma.

A manutenção de uma copa íntegra também possui efeitos na temperatura, aponta o urbanista, pois o asfalto exposto ao sol pode alcançar temperaturas muito elevadas, enquanto a sombra das árvores contribui para reduzir o aquecimento das superfícies e melhorar as condições de circulação nas ruas. Homero acrescenta que a arborização também ajuda na retenção da água da chuva e na retenção de partículas de poluição pelas folhas. Em uma cidade como Vitória, onde os moradores convivem com altas temperaturas e problemas de qualidade do ar, ele reforça que esses benefícios deveriam fazer parte da avaliação das intervenções. “É sempre um conjunto de características que tem que ser considerado. Não é tão simples”, afirma.

O professor também chama à atenção para a dimensão coletiva da arborização. Segundo ele, quando uma árvore está localizada em uma rua pública, os benefícios não são restritos aos moradores de um determinado condomínio ou imóvel. “A rua é pública, todo mundo tem que ser consultado ou considerado”, afirma. Para Homero, a sombra proporcionada pelas copas também interfere diretamente na experiência de quem circula pelo bairro, especialmente em uma cidade quente.

Ele avalia que, diante de conflitos entre árvores e estruturas urbanas, a administração deveria considerar alternativas capazes de preservar ao máximo possível da vegetação. Em vez de simplesmente reduzir toda a copa, uma poda seletiva poderia ser utilizada quando o problema estiver concentrado em determinados galhos ou pontos de interferência. Homero lembra que, antes de deixar Vitória por alguns anos, tinha a percepção de que a cidade mantinha uma política de poda mais cuidadosa em gestões anteriores. “Eles não simplesmente saíam cortando tudo. Quando você faz uma poda, você tem que ver qual a interferência que ela está causando na fiação, por exemplo. E aí você faz uma poda seletiva”, afirma.

Outra proposta defendida pelos moradores é o enterramento da fiação elétrica como alternativa de longo prazo para reduzir conflitos entre árvores e rede aérea. A discussão já havia aparecido nas mobilizações anteriores em Jardim da Penha e voltou a ganhar força diante da justificativa de que a infraestrutura elétrica estaria entre os fatores considerados para algumas intervenções.

Para Homero, o aterramento é tecnicamente possível, embora envolva alto custo e uma transformação ampla da infraestrutura urbana. “É muito caro, mas é possível”, afirma. Segundo ele, a implantação exigiria intervenções em calçadas e ruas, além de mudanças na pavimentação e na infraestrutura subterrânea. Apesar da complexidade, o urbanista considera que os ganhos urbanos poderiam ser significativos, tanto para a arborização quanto para a paisagem.

Raiaq também defende que a cidade discuta essa alternativa. Na avaliação da associação, se um dos principais conflitos que levam às podas é a presença da rede elétrica, a adaptação da infraestrutura poderia contribuir para preservar árvores de maior porte. “Se o problema é esse, a gente enterrando a rede elétrica, a gente acaba com essa interferência”, afirma.

Enquanto as podas continuam, a liderança afirma que a entidade vai continuar a cobrar com a Prefeitura e informações relativas às intervenções. Caso isso não aconteça, Raiaq afirma que a associação poderá recorrer ao Ministério Público e a outros órgãos responsáveis pela proteção ambiental e pelo acompanhamento das políticas públicas. “Até o momento a postura da prefeitura não tem sido de diálogo”, critica. Segundo ele, a AMJAP historicamente procura a administração municipal para discutir questões relacionadas ao bairro, mas frequentemente precisa recorrer à imprensa e às redes sociais para conseguir respostas.

A associação agora pretende levar a discussão para além de Jardim da Penha. A ideia é reunir moradores e entidades de diferentes regiões para discutir quais critérios devem orientar a poda, quais alternativas existem para conflitos entre arborização e infraestrutura e qual deve ser o papel das árvores no planejamento urbano de Vitória. Para Homero, a questão central é justamente essa mudança de perspectiva: deixar de enxergar a árvore apenas como um elemento que precisa ser adaptado à cidade e passar a considerá-la parte da própria infraestrutura urbana.

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