Associação reclama que não foi informada dos motivos e quem autorizou os cortes
Moradores de Jardim da Penha, em Vitória, estão questionando a intensidade de uma intervenção realizada recentemente em árvores de uma rua do bairro, a Antônio Basílio. Para quem acompanha a arborização local há décadas, a retirada de grande parte das copas ultrapassou os limites de uma poda convencional e deixou exemplares que levaram muitos anos para crescer em condições que provocam preocupação. Um morador que vive há mais de 50 anos na região relata nunca ter presenciado uma intervenção semelhante naquele trecho. Segundo ele, o estado em que as árvores foram deixadas provocou indignação entre moradores e levantou dúvidas em relação aos critérios técnicos utilizados pela Prefeitura de Vitória.
A preocupação ganhou força porque existe um histórico de conflitos envolvendo aquelas árvores. O morador relata que, anos atrás, exemplares existentes na Rua Francisco Eugênio Mussielo, junto ao Conjunto Pégasus, teriam sido danificados por um vizinho, que também teria provocado danos em uma árvore localizada na rua onde reside. O relato é apresentado pelo morador como parte de uma história que se prolonga há décadas. Ele afirma que, diante desse histórico e do que presenciou durante a intervenção recente, considera legítimo questionar se a poda foi exclusivamente uma ação de manejo da arborização ou se houve outros interesses envolvidos.
A Associação de Moradores de Jardim da Penha afirma que não foi informada previamente da intervenção. Segundo o dirigente da entidade, Raiaq Roos, a associação tomou conhecimento das podas após moradores enviarem fotos e vídeos do serviço. Ele diz que a associação solicitou à Prefeitura os laudos e o cronograma das podas, mas ainda não teve acesso aos documentos. Segundo ele, sem essas informações não é possível verificar se a execução está de acordo com os critérios técnicos. “A gente está tentando saber se tem devido amparo nos laudos, se estão executando conforme os laudos, mas sem ter o acesso aos laudos a gente não consegue fazer essa avaliação”, afirma.
Para a liderança, a intensidade das intervenções também preocupa porque pode comprometer a recuperação das árvores. “A forma como está sendo feito, a intensidade das podas, ela está deixando tanto a associação quanto muitos moradores preocupados, porque aparentemente estão podando muito mais do que necessário”, afirma. Segundo Raiaq, a associação não é contrária à poda, mas defende que ela seja realizada apenas quando houver necessidade técnica comprovada. “A gente sabe que a poda é necessária, mas ela tem que ser feita observando o critério técnico, a real necessidade da intervenção”, diz.
Herbert Costa Moraes nasceu na mesma casa onde vive em Jardim da Penha e afirma nunca ter presenciado uma intervenção semelhante nas árvores da região. “Eu nunca vi uma poda, se isso for considerado poda, né? Para mim é um assassinato. Eu nunca vi uma poda desse jeito, dessa forma, ao longo desses 50 anos que eu estou aqui”, afirma. O morador diz que a intensidade do corte provoca preocupação sobre a sobrevivência das árvores. “Infelizmente, a impressão que dá é que essas árvores não sobreviverão, que fizeram isso de propósito para que elas morressem”, avalia.
Herbert também defende que a Prefeitura apresente os documentos que embasaram o serviço. “De onde saiu essa ordem? Quem mandou fazer tudo isso aqui desse jeito? Porque nunca foi feito dessa forma. Quem mandou fazer isso aqui? De onde saiu? Cadê o laudo que diz que precisava ser feito dessa forma?”, questiona. Além da paisagem do bairro, ele também destaca a importância da sombra proporcionada pelas árvores e sua contribuição para reduzir a exposição à poluição. “O significado dessas árvores para nós é o frescor, a purificação do ar. Elas fazem como se fosse um amortecimento de toda essa poeira, para a poeira não chegar tanto”, afirma.
A briga entre vizinhos não pode ser a causa de um dano tão grave às árvores da região. O que se questiona objetivamente são os critérios técnicos da intervenção, a autorização, o acompanhamento profissional e a necessidade de retirar uma parcela tão expressiva das copas. E, nesse ponto, a própria Prefeitura de Vitória oferece parâmetros para avaliar o episódio. A administração municipal afirma oficialmente que a poda é uma das principais práticas de manejo da arborização e deve ser utilizada para compatibilizar árvores com fiação, iluminação, sinalização e outros elementos urbanos.
Mas a Prefeitura também faz uma distinção importante. No site oficial, define a chamada “poda drástica” como a remoção total da copa, deixando apenas segmentos muito reduzidos dos ramos principais, e afirma que esse procedimento provoca desequilíbrio irreversível da árvore. Mais do que isso, o próprio Município informa que as “podas drásticas” são evitadas em Vitória. Segundo a orientação oficial, elas somente devem ser utilizadas em situações emergenciais. Essa informação torna ainda mais relevante a pergunta dos moradores de Jardim da Penha. Se a intervenção realizada corresponde, visualmente e tecnicamente, a uma poda dessa natureza, quais foram exatamente as circunstâncias emergenciais que justificaram sua adoção?
Uma árvore adulta não é um objeto decorativo que possa ser simplesmente reduzido de tamanho sem consequências para o desenvolvimento, a estrutura e os serviços ambientais que presta à cidade. A própria Prefeitura reconhece que a arborização urbana possui importância ambiental e urbana. Em seu programa de gestão ambiental, o Município afirma que o inventário da arborização é instrumento fundamental para conhecer espécies, distribuição, localização e estado fitossanitário dos exemplares e orientar seu manejo.
Vitória possui, segundo dados divulgados pela própria Prefeitura, mais de 34 mil árvores catalogadas em áreas públicas. O Município já reconheceu que informações quantitativas e qualitativas dessas árvores são necessárias para uma gestão adequada da arborização. Isso significa que a discussão de uma poda não deveria começar pelo conflito entre árvore e fio. Deveria começar pela avaliação da árvore, da condição fitossanitária, da estrutura, da espécie, do risco efetivo e das alternativas técnicas existentes.
A própria Carta de Serviços de Vitória estabelece que a realização de poda depende de vistoria técnica. Segundo o documento, engenheiros, biólogos e técnicos devem avaliar a necessidade do serviço antes que seja emitida a ordem para sua execução. É justamente essa documentação que os moradores têm o direito de conhecer. Quem realizou a vistoria? Qual profissional determinou a intervenção? Qual era o problema identificado em cada árvore? Qual percentual da copa poderia ser retirado sem comprometer o exemplar?
Outra pergunta é igualmente importante: havia risco comprovado ou apenas conflito com a fiação? A própria Prefeitura possui técnicas específicas para situações em que árvores interferem na rede elétrica, incluindo poda de conformação, poda em “V”, poda em “furo” e formação de copa alta. Todas as formas especificadas e explicadas de forma técnica pela própria PMV. A orientação oficial do Município chega a afirmar que, quando há conflito com a fiação aérea, deve-se considerar o equilíbrio e a estética da árvore. Vitória também informa que prioriza a formação de copa alta, procurando evitar ao máximo o simples rebaixamento da copa. Esse detalhe é fundamental porque evidencia que “há fios” não constitui, por si só, justificativa automática para uma poda radical. Existem diferentes estratégias de manejo e a escolha deveria decorrer de uma avaliação técnica individualizada.
Estudo publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana também encontrou associação entre poda drástica e problemas fitossanitários. Na pesquisa realizada em Luiziana, no Paraná, cerca de metade dos indivíduos que haviam sofrido poda drástica apresentava sinais de ataque de pragas e doenças. Não significa que toda árvore submetida a uma poda severa necessariamente morrerá. Significa que a intervenção agressiva aumenta a necessidade de avaliação, acompanhamento e cuidados posteriores, especialmente quando se trata de árvores adultas.
A questão também envolve o clima das cidades. Árvores maduras produzem sombra, ajudam a regular o microclima e contribuem para reduzir os efeitos das altas temperaturas. Estudo reunido pelo Ministério do Meio Ambiente destaca que a transpiração das árvores desempenha papel importante no resfriamento e que o sombreamento das estruturas urbanas influencia diretamente a temperatura local.
Em uma cidade quente e densamente ocupada como Vitória, retirar grande parte da copa significa reduzir justamente um dos serviços ambientais mais importantes prestados pela arborização urbana. A perda da sombra é sentida imediatamente por pedestres, moradores e imóveis expostos ao sol.
O problema também não é apenas térmico. Árvores urbanas também contribuem para a qualidade do ar, retenção de água da chuva, redução da poluição sonora, abrigo para fauna e qualificação paisagística. E Vitória é uma cidade marcada exatamente pela coexistência de pessoas e o pó preto. Por isso, uma árvore adulta não pode ser avaliada apenas pelo número de centímetros que os galhos ocupam perto de um poste. Ela precisa ser considerada como infraestrutura ambiental da cidade.
O Século Diário procurou a Prefeitura de Vitória para obter informações dos critérios técnicos, da autorização e dos motivos da intervenção, mas não recebeu retorno até o fechamento desta edição.

Exemplo de Curitiba
É nesse aspecto que Curitiba oferece uma experiência interessante. A capital paranaense não resolveu integralmente o conflito entre árvores e fiação, mas está discutindo e implementando projetos de enterramento da rede elétrica e de telecomunicações. Em julho de 2026, a Prefeitura de Curitiba apresentou um projeto de enterramento de cabos para a região central. Segundo o Município, a medida busca reduzir acidentes, incêndios, furtos e interrupções provocadas por eventos climáticos, além de melhorar a paisagem e a acessibilidade.
A Prefeitura curitibana já havia discutido com o BNDES, em 2025, alternativas para projetos de enterramento da fiação elétrica. A proposta foi apresentada justamente como uma maneira de reduzir interrupções, melhorar a paisagem e minimizar impactos ambientais relacionados à infraestrutura aérea. Curitiba também trabalha com diagnóstico individualizado das árvores. Em ações recentes, a Prefeitura informa que considera condições fitossanitárias e estruturais, conflitos com infraestrutura urbana e riscos para pedestres, veículos e imóveis antes de definir as intervenções.
A comparação é importante porque mostra que o conflito entre árvore e infraestrutura não precisa ser resolvido sempre sacrificando a árvore. Uma cidade pode optar por adaptar a infraestrutura para preservar o verde. A própria Prefeitura de Curitiba reconhece que podas sem necessidade ou realizadas fora dos padrões podem representar mais risco. O Município afirma que a poda deve seguir critérios técnicos e que a queda de uma árvore nem sempre é resultado da falta de poda.
É uma lógica que deveria ser discutida em Vitória. Se a cidade considera a arborização patrimônio ambiental e reconhece os benefícios advindos, a política pública deveria buscar reduzir os conflitos estruturais entre árvores, fios, calçadas e equipamentos urbanos, e não simplesmente cortar a copa sempre que esses conflitos aparecem.
Em Jardim da Penha, portanto, a discussão não deveria terminar com a constatação de que “a árvore estava perto da fiação”. A pergunta correta é se a solução adotada era a menos agressiva entre as alternativas tecnicamente disponíveis. Os moradores pedem respostas objetivas. Querem saber quem autorizou o serviço, qual foi o diagnóstico das árvores, se houve laudo ou ordem de serviço, quais profissionais acompanharam a intervenção e qual será o monitoramento dos exemplares agora, após a poda.
Há ainda uma questão de transparência pública. Se uma intervenção pode produzir desequilíbrio irreversível em uma árvore, como reconhece a própria administração municipal ao definir a poda drástica, a comunidade tem o direito de saber por que aquele procedimento foi considerado necessário. As árvores de Jardim da Penha cresceram junto com o bairro e fazem parte da memória urbana dos moradores. Algumas delas, segundo os relatos locais, têm décadas de existência.
Nenhuma política de arborização séria pode ignorar esse patrimônio. Tampouco pode transformar a sombra proporcionada por árvores maduras em um problema a ser eliminado simplesmente porque a infraestrutura urbana não foi planejada para conviver com elas.

