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O baile das máscaras na Ilha de Monte Belo

Ou como sambar quando a banda toca rock progressivo em horário eleitoral

Reprodução

Entra eleição, sai eleição, e o roteiro político capixaba rumo ao Palácio Anchieta continua parecendo uma comédia de costumes. No mais recente debate da Rede Gazeta, os candidatos ao Governo do Espírito Santo mostraram que, por trás dos sorrisos ensaiados e dos paletós bem alinhados, o que vale mesmo é a coreografia das farpas.

No início, tudo parecia cordialidade: apertos de mão, frases de efeito e aquele tom professoral de quem ensaia frente ao espelho. Mas bastou o cronômetro disparar para que o baile das máscaras começasse. O governista, herdeiro da máquina estatal, sacou gráficos coloridos e números reluzentes para provar que a gestão é um espetáculo de eficiência. Só que, em segundos, os adversários transformaram os gráficos em castelo de cartas, acusando-o de maquiar a segurança pública e de governar de costas para as periferias.

Na outra ponta, o ex-delegado e ex-prefeito da capital encarnou o papel de justiceiro. Com dedo em riste, cobrou firmeza contra a violência e acusou o governista de omissão. A resposta veio ácida: oportunismo eleitoral, vidraça municipal estilhaçada e flerte com autoritarismo punitivo. O paletó do candidato da lei parecia encolher a cada acusação sobre suas alianças com alas retrógradas da política capixaba.

O terceiro vértice do triângulo, veterano parlamentar com base sindical e bandeira da educação, entrou em cena denunciando o “estelionato social” dos rivais. Falou em precarização do serviço público, falta de investimentos nas escolas e privatizações disfarçadas. Mas logo foi alvejado em bloco: os adversários se uniram para acusá-lo de viver em palanque nacional e esquecer o interior capixaba.

O estúdio virou palco de um espetáculo tragicômico. Cada candidato parecia mais preocupado em arrancar aplausos do que em apresentar soluções concretas. O eleitor assistia a uma reunião de condomínio, onde ninguém queria pagar o boleto majorado pelas melhorias na portaria, mas todos sabiam reclamar do vizinho.

Quando os microfones foram cortados e as luzes apagadas, restou ao público a sensação de déjà-vu. No dia seguinte, nas calçadas de Camburi, nos ônibus lotados do Transcol e nas feiras de Cariacica, o comentário era unânime: muito barulho por nada. As urgências da classe trabalhadora, do cidadão comum, ficaram fora da pauta, escondidas atrás dos intervalos comerciais e das frases de efeito. O baile das máscaras segue, e o eleitor capixaba continua a sambar quando a banda insiste em tocar rock.

Rubem Roschel é jornalista e cronista de quinta.

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