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‘Só leram o título’: professor da Ufes quer explicar pesquisa sobre cristofascismo

Após ataques nas redes sociais, Vitor Cei promete material gratuito sobre tema

Alvo de ataques nas redes sociais após a divulgação do título de um projeto de pesquisa em uma portaria do Diário Oficial da União (DOU), o professor de literatura da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Vitor Cei afirma que pretende transformar a repercussão em uma oportunidade para ampliar o debate sobre o conceito de “cristofascismo bolsonarista”. A pesquisa motivou críticas de parlamentares de direita e milhares de comentários nas redes sociais, muitos deles feitos, segundo o docente, sem que o conteúdo do projeto fosse conhecido.

A repercussão começou após a publicação, em 26 de junho, de reportagens com base na autorização para que Cei se afastasse da Ufes por 90 dias para realizar um estágio técnico-científico na Universidade Nova de Lisboa, em Portugal. O título do projeto passou a circular nas redes sociais e motivou vídeos e manifestações dos deputados federais Gilvan da Federal (PL) e Delegado Capitão Alden (PL-BA), além dos deputados estaduais Capitão Assumção (PL) e Lucas Polese (PL), que criticaram o uso de recursos públicos na pesquisa.

“Eu era um pesquisador anônimo. Agora está todo mundo curioso. Então, acho que tenho uma responsabilidade também. Se ficaram curiosas, eu quero aproveitar isso para explicar o trabalho de uma forma que qualquer pessoa consiga entender. Tenho a intenção de produzir material gratuito, provavelmente digital, porque impressão de livro é muito caro. Quero devolver isso para a sociedade que financia a pesquisa”, afirmou.

Cei acrescentou que estuda o tema há mais de uma década e estranhou que justamente um documento administrativo, referente a uma pesquisa que ainda será desenvolvida, tenha despertado mais atenção do que os trabalhos já publicados. “Tenho uns 15 anos lendo sobre esse assunto e uns dez anos escrevendo sobre ele. Já publiquei artigos, capítulos de livro, escrevo sobre o bolsonarismo desde 2018 e até publiquei um romance neste ano. Nunca aconteceu nada parecido. O que viralizou foi apenas o título do projeto. As pessoas não leram o trabalho, porque ele sequer começou a ser desenvolvido. Elas leram um título técnico de um projeto acadêmico e tiraram conclusões sobre algo que ainda será pesquisado”, enfatizou.

Segundo o professor, a licença concedida pela Ufes segue um procedimento previsto na legislação para servidores públicos federais e não representa uma concessão excepcional. “Primeiro fui aceito pela Universidade Nova de Lisboa. Depois pedi a licença para capacitação, que é um direito dos servidores. Paralelamente, participei de um edital público da Fapes, aberto para pesquisadores do Espírito Santo. Passei por avaliação acadêmica, análise documental, apresentei certidões negativas, vou prestar contas quando retornar. Não recebi dinheiro de político. Se eu tivesse dado um título menos chamativo para o projeto, provavelmente ninguém teria tomado conhecimento dele”, observou.

Após a divulgação das primeiras reportagens, Cei disse que não recebeu mensagens privadas ofensivas, mas encontrou centenas de comentários com insultos e ameaças em redes sociais e páginas de notícias. “Nos comentários teve ameaça de agressão física, muita ofensa verbal. Tirei vários prints porque imaginei que isso poderia acontecer. Ainda estou conversando com advogado para avaliar quais medidas cabem. Registrei ocorrência em um dos casos, justamente aquele em que houve ameaça mais direta de agressão”, relatou.

Embora afirme que a situação tenha arrefecido nos últimos dias, o docente conta que chegou a rever sua rotina por receio de sofrer algum ataque. “Pensei até em mudar a data da viagem, porque divulgaram o período em que vou viajar. Também fiquei com medo de apanhar na rua. Pessoas passaram a me reconhecer. Algumas vieram prestar solidariedade, o que foi muito importante, mas isso também significa que alguém pode me reconhecer por causa dessas publicações e querer fazer alguma coisa. Felizmente, até agora, isso não aconteceu”, disse.

O projeto a ser desenvolvido durante um estágio técnico-científico de 90 dias no Instituto de Filosofia da Universidade Nova de Lisboa vai apresentar uma análise de livros, discursos políticos, textos literários, jornais e publicações em redes sociais. “É uma pesquisa bibliográfica, fundamentada em autores como Nietzsche, Theodor Adorno e outros pensadores da crítica social. Meu interesse não é estudar religião, mas discursos políticos que se apropriam da religião. Eu sou professor de literatura, tenho formação em filosofia, então minha preocupação é entender como essa linguagem foi construída historicamente e como ela aparece hoje em determinados discursos políticos”, explicou.

O pesquisador pretende relacionar manifestações contemporâneas da extrema direita com debates filosóficos iniciados ainda no século XIX. “Durante meu doutorado, eu estudava o niilismo em Machado de Assis quando aconteceram as manifestações de 2013. Eu estava na Alemanha e percebi que muitos discursos lembravam aquilo que filósofos do século XIX chamavam de niilismo: uma rejeição generalizada às instituições e à política. Minha hipótese é investigar como parte desse discurso evoluiu posteriormente para manifestações autoritárias que defendem violência, tortura e ditadura”, destacou.

Ele aproveita para reforçar que o termo “cristofascismo” não foi criado por ele. “Tem gente dizendo que inventei essa palavra, mas ela existe desde 1968. Foi cunhada por uma teóloga alemã e vem sendo utilizada por pesquisadores há décadas. Há muitos estudiosos trabalhando com esse conceito no Brasil e no exterior. Minha pesquisa dialoga com essa tradição acadêmica”, apontou.

Nas pesquisas que desenvolve, o professor tem utilizado a literatura brasileira como instrumento para compreender a expressão do fascismo na atualidade. “Machado de Assis continua sendo um dos maiores pensadores brasileiros. Nos romances e nas crônicas, ele discutiu religião, autoritarismo, golpes de Estado e o uso político da fé. Quero mostrar como a obra dele continua atual e como ajuda a compreender questões que permanecem presentes na sociedade brasileira.”

Outra referência importante será a obra de Friedrich Nietzsche, especialmente os debates que tratam do niilismo e das apropriações posteriores dos escritos dele. “O próprio Nietzsche teve sua obra apropriada de maneira distorcida pelo nazismo após a morte. A irmã dele selecionou trechos, retirou frases do contexto e produziu uma leitura enviesada. Minha pesquisa também observa processos semelhantes, quando determinados grupos utilizam textos religiosos ou filosóficos para justificar posições políticas que contradizem o conjunto dessas obras”, contou.

O professor reitera que não vê como problema a religião em si, mas sim o uso dela como instrumento político. “Quem é cristão e segue o Evangelho não precisa se sentir ofendido pela pesquisa. Minha crítica não é ao cristianismo, mas à apropriação da religião para defender discursos de violência, ódio e autoritarismo. Cristo pregava amar o próximo e amar os inimigos. Quando alguém usa o nome de Deus para justificar violência política, isso merece ser estudado academicamente”, sustentou.

Obras

Além da pesquisa, Cei espera que a repercussão contribua para que os livros já publicados possam chegar a um público mais amplo. A tese de doutorado que defendeu deu origem ao livro “A Voluptuosidade do Nada”, lançado em 2016 pela Editora Annablume, onde investiga o niilismo na obra de Machado de Assis. Neste ano, lançou o romance “Metafísica de Carrasco”, ilustrado por Márcio Vaccari, uma sátira política inspirada nas discussões que também aparecem na pesquisa acadêmica dele. O lançamento ocorreu em simultâneo a “O Peste”, obra ilustrada de Vaccari que trata de acontecimentos políticos recentes.

“O romance usa humor. Foi uma forma terapêutica de lidar com toda a violência daqueles anos. O projeto acadêmico é uma pesquisa científica; o romance é literatura. São linguagens diferentes para refletir sobre o mesmo fenômeno. Eu prometi entregar um artigo e um livro ao final da pesquisa, mas quero produzir mais do que isso e disponibilizar parte desse material gratuitamente para ampliar o acesso ao debate”. Os interessados podem conhecer as obras já publicadas pelo professor nos sites das editoras: “A Voluptuosidade do Nada”, da Anablume, e “Metafísica de Carrasco”, além de “O Peste”, publicados pela Catraia Livraria.

‘Direito dos servidores’

Em nota, a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) informou que o afastamento do professor Vitor Cei seguiu o trâmite previsto para pedidos de licença para capacitação. Segundo a instituição, a solicitação é analisada inicialmente pela Câmara Departamental e, se aprovada, segue para deliberação do Conselho Departamental. Após essa etapa, o processo é encaminhado à Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas. Em nota, o Departamento de Letras destacou que a licença para capacitação “é um direito” dos servidores, previsto na Lei nº 8.112/1990 e no Decreto nº 9.991/2019, podendo ser concedida por até 90 dias, sem prejuízo da remuneração, para participação em ações de desenvolvimento. A universidade também ressaltou que o projeto de pesquisa de Cei foi aceito pela Universidade Nova de Lisboa, descrita como uma instituição de “reconhecida relevância acadêmica e internacional”.

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