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Operação Colosso de Areia deixa cenário político capixaba agitado

PF apura lavagem de dinheiro extraído de verbas públicas municipais

Divulgação

A Operação Colosso de Areia, deflagrada na quarta-feira (8) pela Polícia Federal (PF), tem deixado atônitos alguns prefeitos, ex-prefeitos, gestores públicos e mais outras figuras políticas do Estado, que estiveram ou ainda estão orbitando o poder. Além é claro de deputados federais e senadores, aqueles que têm o poder de encaminhar emendas parlamentares para os municípios.

Está no bojo das investigações um suposto esquema de lavagem de dinheiro relacionado a contratos públicos celebrados por municípios do Espírito Santo. Na operação, realizada com apoio da Controladoria-Geral da União (CGU), foram cumpridos 17 mandados de busca e apreensão, expedidos pela Justiça, que resultaram no recolhimento de farta documentação, veículos e R$ 270 mil em dinheiro. Os contratos em análise remontam R$ 908 milhões, no período avaliado entre 2017 e 2025. As cifras podem ser ainda muito maiores.

A Polícia Federal, com base no que a CGU constatou, analisa o caminho dos valores usados pelas prefeituras para contratar as empresas envolvidas no esquema. Esse dinheiro tinha origem em recursos públicos municipais regulares. Ou seja, provenientes principalmente do próprio orçamento municipal, valores previstos nas leis orçamentárias anuais, destinados a obras, serviços e manutenção da máquina pública. Outra fonte para a entrada dos valores seriam as transferências constitucionais, aqueles recursos repassados pela União e pelo Estado, como o Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e cotas do ICMS. Entram também convênios e repasses federais, aquele dinheiro enviado por meio de programas federais (saúde, educação, infraestrutura), muitas vezes vinculado a emendas parlamentares. E as próprias emendas parlamentares, que, embora não se tenha confirmação de uma ligação direta na Colosso de Areia, parte desses contratos municipais investigados pode ter sido alimentada por recursos de emendas, prática comum em esquemas semelhantes que têm sido alvo da Polícia Federal em operações similares em contexto nacional, como a “Emendatio”, o que aumenta a vigilância sobre deputados capixabas.

Emendas parlamentares

O principal foco de auditoria da CGU recai exatamente sobre as verbas federais repassadas a esses contratos, carimbadas especificamente para programas de fomento da educação e da saúde dos municípios. E o que chamou mais à atenção da CGU foi o volume de saques realizados na boca do caixa e em dinheiro.

Além, obviamente da suposta participação direta ou indireta de prefeitos e gestores municipais, pressupondo-se a possibilidade de desvio dos recursos, o que se tem para a deflagração de uma operação nesses moldes é uma investigação maior que trataria de repasse de emendas parlamentares, o que levaria ao trabalho desenvolvido pelo ministro Flávio Dino, no Supremo Tribunal Federal (STF).

O modus operandi para os desvios praticados, em tese, é o mesmo. Prefeituras recebem recursos, os valores são destinados a contratos públicos, como obras, serviços, fornecimento, e as empresas ligadas ao esquema são contratadas, muitas das vezes, com licitações direcionadas ou superfaturadas. O próximo passo é essas empresas subcontratarem outras pessoas jurídicas, repassando valores em cadeia para criar camadas de transações. O objetivo é dificultar a fiscalização, mascarando a origem e o destino do dinheiro.

As contratações do grupo criminoso se dividiriam em segmentos específicos. Transporte, envolvendo locação de frotas, transporte escolar e logística terceirizada. Obras de construção civil, contratos para a execução de infraestrutura urbana, reformas de prédios públicos e pavimentação. Serviços especializados de engenharia, onde entrariam projetos estruturais, fiscalização técnica e intervenções de engenharia geral. E, por último, prestação e fornecimento de serviços gerais, no qual eram feitos os contratos de apoio administrativo, operacional e de mão de obra terceirizada para a manutenção de secretarias municipais.

Esquema sofisticado

A PF identificou um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro e corrupção. Os mecanismos usados pelos investigados seguiam padrões típicos de ocultação de valores ilícitos, mas com algumas particularidades. As empresas de fachada, sem atividade real, eram utilizadas para emitir notas fiscais frias e justificar movimentações financeiras. Os contratos públicos eram inflados em valores muito acima do mercado, permitindo que parte do dinheiro fosse desviado. Esses valores ilícitos eram fragmentados, com pagamentos divididos em pequenas transações, para dificultar a detecção por órgãos de controle. Eram utilizados laranjas, pessoas físicas e jurídicas que movimentavam esses recursos, ocultando os verdadeiros beneficiários. Parte desses recursos também eram convertidos em bens de luxo, veículos, imóveis, objetos de alto valor, que depois eram revendidos para “esquentar” o dinheiro. Esse tipo de esquema é considerado de alta complexidade, pois mistura corrupção administrativa com técnicas clássicas de lavagem de dinheiro.

O fio da meada, ao que consta, veio após a prisão em flagrante, feita por uma equipe da Polícia Civil do Espírito Santo, em 9 de setembro de 2025. Dois homens foram presos dentro de uma agência bancária em Vitória, depois de sacar R$ 2 milhões em espécie. A partir dessa prisão foi possível expandir as investigações, na tentativa de desbaratar esse esquema criminoso, que teve mais uma etapa cumprida com a Operação Colosso de Areia. Aliás, o nome da operação, segundo a versão dos policiais, refere-se à aparente solidez do patrimônio e da estrutura financeira dos investigados, mantidos por mecanismos fraudulentos de ocultação e dissimulação de recursos.

Diversas cidades capixabas podem estar envolvidas, criando uma rede de contratos interligados, o que dificulta rastrear a origem dos desvios. As empresas investigadas atuariam, em princípio, em nove municípios: Barra de São Francisco, Cachoeiro de Itapemirim, Cariacica, Iconha, Itapemirim, Presidente Kennedy, Serra, Vila Velha e Vitória, criando uma espécie de círculo de contratos municipais. A PF não descarta a inclusão de outras mais cidades capixabas.

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