Da mal fadada CPI do Grampo à tentativa de abertura das CPIs da licitação do Sistema Transcol, dos empenhos e dos hospitais filantrópicos. O espaço de nove anos entre a CPI do Grampo e as novas que ele pretende “lançar”, só amplia a controvérsia sobre a atuação do deputado Euclério Sampaio (PDT). Antigo crítico do governador Paulo Hartung (PMDB) nas investigações das escutas ilegais feitas aos jornalistas da Rede Gazeta, o pedetista assumiu o papel de articulador das investidas contra o principal adversário do peemedebista, o ex-governador Renato Casagrande (PSB).
Não é à toa que foi Euclério, em conjunto com o ex-deputado Paulo Roberto Ferreira (PMDB) – hoje secretário-chefe da Casa Civil de Hartung, que articulou a manobra frustrada para a rejeição das contas do socialista no exercício de 2013. Mas apesar disso, o pedetista segue como o principal soldado no front aberto entre Hartung e Casagrande, que extrapola a seara política e invade o debate sobre a saúde financeira do Estado.
Depois de apresentar o relatório contrário às contas de Casagrande no final da última legislatura, Euclério se articula para abrir duas CPIs contra atos da gestão passada na nova Assembleia. Na manhã desta terça-feira (10), o pedetista aproveitou a realização de uma sessão da Comissão de Saúde para anunciar o recolhimento de abertura de uma CPI para apurar a dívida de R$ 79 milhões com os hospitais filantrópicos, herdada da gestão anterior.
A Federação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos do Estado do Espírito Santo (Fehofes) cobra o pagamento por serviços prestados até dezembro do ano passado. Os integrantes do governo passado acusam a atual gestão de cancelar empenhos, fato que inviabilizaria os pagamentos. No entanto, Euclério já tomou uma posição, antes mesmo de uma eventual investigação. “Temos de colocar um ponto final nessa barbaridade. Prestou serviço, recebe. O que foi feito de ilegal no final da gestão passada tem de ser corrigido”, cravou.
Mais tarde, o deputado mirou a licitação para concessão das outorgas do Sistema Transcol como um novo alvo das críticas à gestão passada. Euclério se referiu ao certame como “fajuto” e “direcionado”. Segundo ele, “a falcatrua era tanta que todo mundo sabia quem iria ganhar”. Neste caso, o pedetista tem como aliado o Ministério Público de Contas (MPC), que protocolou uma representação contra os atos realizados na gestão anterior.
Na última semana, Euclério já havia declarado à imprensa que pretendia instaurar uma CPI para apurar despesas feitas sem empenho no governo passado. O secretário de Transparência, Marcelo Zenkner, acusa a gestão anterior de ter gasto R$ 296 milhões em dívidas sem previsão orçamentária. Já os antigos integrantes do governo sugerem que a responsabilidade recairia sobre o governo Hartung, que teria cancelado os empenhos.
Além da disposição em “passar a limpo” a gestão socialista, Euclério também não demonstra o mesmo empenho para defender antigas bandeiras, como o fim do pedágio da Terceira Ponte e o escândalo do posto fantasma. O pedetista foi o primeiro a acusar Hartung de ter desperdiçado R$ 25 milhões nas obras do Posto Fiscal São José do Carmo, em Mimoso do Sul. Na época, Euclério foi ao local e desmentiu as declarações do hoje aliado, que afirmou ter deixado um patrimônio para a população capixaba.
No campo político, a aproximação entre Hartung e Euclério se deu através do prefeito de Vila Velha, Rodney Miranda (DEM), aliado de primeira hora do peemedebista. Ao longo de 2013, os bastidores davam conta da indicação de Euclério no quadro de comissionados da prefeitura canela-verde. Quando foi questionado pela reportagem, o pedetista sempre negou a participação na gestão de Rodney, porém, a reaproximação com o antigo adversário revela esse “novo Euclério”.

