Nerter Samora e Renata Oliveira
O desfecho da análise das contas do governador Renato Casagrande (PSB) na Assembleia reflete uma nova conjuntura política no Estado, no sentido de que não tira o socialista do jogo político com Paulo Hartung (PMDB) no futuro. Papo de Repórter debate as consequências dessa movimentação.
Nerter – A aprovação das contas do governador Renato Casagrande, relativas ao exercício de 2013, foi muito mais do que um teste de habilidade do socialista. Na verdade, a decisão dos deputados reflete uma nova conjuntura política, na qual a Assembleia dá um recado direto ao governador eleito Paulo Hartung. A crise que começou com uma tentativa do peemedebista de desgastar a fotografia final do governo Casagrande acabou se tornando em uma derrota política a poucos dias da posse. É bom destacar isso, porque o comportamento da Assembleia, que vai ser renovada em sua maioria no próximo ano, pode servir como indicativo de como a classe política vai se portar nesses próximos quatro anos.
Renata – A temperatura no plenário subiu e claramente se via a divisão entre os aliados de Casagrande e os de Paulo Hartung. Ainda no início da semana passada foi possível perceber quem levava a melhor, caso a rejeição fosse colocada em votação no plenário do jeito que veio da Comissão de Finanças. Sem conseguir um número de votos suficientes para vencer Renato Casagrande, os aliados de Hartung não tiveram outra opção senão obstruir. O problema é que a manobra política ficou muito evidente. Fugia totalmente das estratégias de Hartung, que sempre foram muito bem camufladas. O estouro da boiada aconteceu com o desabafo do deputado Claudio Vereza (PT), que expôs o nervo da questão, ao criticar a falta de unidade dos companheiros do PT. A partir daí não houve outra leitura senão a tentativa de vingança de Hartung contra Casagrande, com o claro objetivo de tirar seu principal adversário de enfrentamentos futuros.
Nerter – Antes de entrar nesse tema, precisamos relembrar um detalhe que foi muito importante para esse contexto todo, que foi a reação do Casagrande, que soube aproveitar o espaço natural de um governador na mídia para denunciar o golpe. Casagrande foi muito claro, não tinha nada de técnico naquela discussão das contas. Era uma questão meramente política, de revanchismo eleitoral. Tanto que o presidente da Assembleia, Theodorico Ferraço (DEM), fez questão de dizer aos jornalistas que acompanhavam a sessão, inclusive, você, que se tratava de um reflexo do embate eleitoral, colocando a história das passagens da esposa. Isso é inadmissível para um Estado de direito, e ainda mais no Espírito Santo, que já superou ou pelo menos deveria ter superado essa fase.
Renata – Só fazendo um parêntese aí, Ferraço contou só metade da história. Como para bom entendedor meio pingo é letra, ficou entendido nas entrelinhas que também havia muito do ressentimento do próprio presidente da Assembleia, em relação à prisão de sua mulher, a ex-prefeita de Itapemirim, Norma Ayub (DEM), dentro das investigações da famigerada “Operação Derrama”. Ferraço sempre colocou na conta de Casagrande a culpa pela prisão da mulher, que agora ele se esforça para levar para Brasília…
Nerter – Mais um elemento que mostra a quantidade de interesse que estava em jogo nesse cabo de guerra que se estabeleceu na Assembleia. Engraçado é que sempre Ferraço se dá bem. Pegou um e pegou o outro, com ele não tem jeito. Mas voltando ao assunto, o desfecho desse imbróglio acabou sendo o pior possível para o governador eleito. Não só por ter ficado com o desgaste de ter operado com uma Assembleia no apagar das luzes, mas também a perda de um instrumento que utilizava para amedrontar seus desafetos. Vamos imaginar a lógica reversa: se Hartung vence a peleja das contas após derrotar Casagrande na eleição, imagine como ficaria a situação da classe política daqui pra frente! Todos temeriam Hartung, o imperador teria voltado e com gana de vingança. Mas não foi isso que aconteceu.
Renata – Agora a situação é outra, Hartung encontra uma Assembleia que vai negociar seus interesses. Não vamos dizer que haverá um núcleo de oposição, que vai enfrentar o governador e tal. Isso, não. Mas em vez de o governador eleito ditar as ordens com um rígido controle da classe política, agora terá que negociar, barganhar e os deputados vão querer atendimento às suas bases, sem aquela obediência cega de outrora.
Nerter – Isso também foi importante do ponto de vista de ter mantido no jogo político o governador Renato Casagrande. Se tivesse as contas rejeitadas, juridicamente não seria afetado porque se tratam de irregularidades sanáveis, aliás, seria muito difícil considerar Renato Casagrande inelegível por descumprimento de metas fiscais. Mas o julgamento público era o que interessava ao governador eleito. Se Casagrande tivesse as contas rejeitadas teria uma mancha em sua imagem, suficiente para que Hartung fizesse um carnaval em cima disso. Além de usar o fato criado para justificar os reveses iniciais do seu governo. Atribuiria tudo que desse errado nos primeiros meses à incompetência administrativa de Casagrande.
Renata – Isso seria um instrumento e tanto, já que Hartung não consegue impor a Casagrande a mesma desconstrução que conseguiu imprimir aos governadores que o antecederam. Como os anteriores não reagiram a tempo, ficou consolidado o ataque de Hartung. Mas como Casagrande reagiu, o selo de mau gestor não cola mais. Também não há mais clima para tentar remontar o cenário de terror criado no início da década passada de combate ao crime organizado. Casagrande não é um inimigo público a ser combatido por toda a sociedade. É um adversário a ser enfrentado, e um adversário com capital político forte e imagem preservada.
Nerter – É foi isso que ele deixou claro na entrevista que concedeu para Século Diário, publicada nesse sábado (27). Aliás, recomendo ao leitor do Papo que leia a entrevista, caso não o tenha feito. Casagrande deixa claro que tem disposição de liderar um movimento político no Espírito Santo…
Renata – Além de fundamental para a democracia, a entrada de Casagrande como um “player” no mercado político já joga luzes sobre o socialista para as próximas eleições. Ele nega que vai ser candidato a prefeito de Vitória, insiste na aliança com o atual prefeito Luciano Rezende (PPS) e mira um retorno ao Palácio Anchieta em 2018.
Nerter – Mas até lá são quatro anos e muita coisa acontece nesse período. Só que esse assunto vamos deixar para um próximo Papo, até porque, como disse o governador, o dia 2 [da janeiro] está logo ali.

