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Papo de RepórterIntriga entre Hartung e Casagrande compromete fim da legislatura

Nerter Samora e Renata Oliveira

O jogo político envolvendo a prestação de contas do governador Renato Casagrande criou um precedente de perigoso no Estado e comprometeu a credibilidade que a Assembleia tenta construir. Papo de Repórter debate a questionável manobra política que foi destaque nesta semana.

Nerter – Evidentemente que o assunto da semana foi o impasse que se deu na Assembleia Legislativa sobre as contas do governador Renato Casagrande relativas ao exercício de 2013. Desde o início do mês, aliás, a coisa já seguia esse rumo e a expectativa era justamente de uma batalha no plenário. O julgamento é político e a Assembleia tem o direito de fazer o julgamento político. Até aí tudo bem, mas a forma como a coisa aconteceu, o momento e a origem do motim é que tornou tudo muito complicado. Parte dos deputados aceitou participar de um jogo de poder muito arriscado entre o governador eleito Paulo Hartung (PMDB) e o governador atual Renato Casagrande, e quem saiu prejudicado nisso tudo foi o Legislativo.

Renata – A estratégia foi muito agressiva, deixou a ferida exposta. O governador trava uma batalha dura com seu adversário, que sai vitorioso da eleição, mas não se dá por satisfeito. Quer acabar politicamente com seu adversário, que tem contas a serem votadas na Assembleia. Aí o grande aliado do governador eleito, o deputado Paulo Roberto (PMDB), cria um motim para rejeitar as contas do governador, o que em tese, poderia deixar o socialista inelegível. A coisa parece simples, mas não tem sentido dentro do processo democrático. Usar um poder inteiro para um segundo turno depois da eleição, não cabe. E a justificativa é de doer, não é?

Nerter – Por meio de Theodorico Ferraço (DEM), Hartung manda dizer que o problema foi Renato Casagrande ter atacado sua mulher, Cristina Gomes, durante o processo eleitoral. Hartung vem dizendo que não vai perdoar isso, que com família não se mexe, mas na verdade, para os meios políticos, o que preocupa Paulo Hartung não é isso e sim o fato de que agora não é um todo poderoso, terá um governo que será comparado com o do seu antecessor, e em um momento de crise econômica. Ele é economista, sabe que a coisa não vai ficar fácil nos próximos anos. Para quem prometeu mundos e fundos, vai ficar difícil cumprir.

Renata – É mais um subterfúgio. Claudio Vereza (PT), que, aliás, está fazendo um belo fim de mandato, deixou bem claro o que está acontecendo. Hartung quer tentar tirar Renato Casagrande do jogo político. Há uma tentativa de se diminuir Casagrande a um limbo político, mas ele tem uma situação interessante pela frente. Não se elegeu, mas teve uma boa fatia dos votos, não foi para o segundo turno por quatro pontos percentuais e Hartung tem mesmo que agradecer ao PT por isso, ele tem o governo aprovado por 60% dos capixabas, Casagrande é uma liderança com condições de disputar as próximas eleições em Vitória. Ganhando em Vitória, coloca em risco o projeto de Hartung em 2018, seja ele qual for. Não é rancor de eleição, isso é um subterfúgio para criar uma  batalha contra Casagrande para evitá-lo no futuro.  

Nerter – Agora, essa posição da Assembleia cria um clima muito desagradável para a próxima legislatura, não é? Uma parte desse grupo que está fazendo esse movimento contra Casagrande não volta para a Casa no próximo ano…

Renata – É, mas muita gente nesse bolinho está é negociando cargo, viu. Não para seus cabos eleitorais, como sempre foi, mas para eles mesmos. Querem lugar no governo, querem ficar na Assembleia. Estão usando isso para agradar Hartung e tentar conseguir algum favorzinho do governador depois.

Nerter – Mas e os que foram reeleitos? Estão mostrando que estão dispostos a novamente colocar a Assembleia de joelhos perante o Executivo. Durante oito anos, o Legislativo disse amém para tudo que veio do governo. Não considerava sequer a possibilidade de derrubar um veto. Numa das prestações de contas de Hartung, o deputado Euclério Sampaio (PDT) rasgou um pedaço seda, em crítica à submissão dos colegas e agora está fazendo movimento que beneficia o governador eleito.

Renata – Isso é importante. Sempre defendemos aqui que a Assembleia fosse um poder independente, que cumprisse seu papel de legislar e fiscalizar o Executivo. Muita gente pode dizer: “ué, não era isso que vocês queriam”? Mas há uma diferença enorme entre ser um poder independente e ser um instrumento para colocar o Executivo refém de manobra política. Isso não é democracia, muito ao contrário. Paulo Roberto quer tipificar criminalmente o caso, caso que ele aprovou quando líder do governo Paulo Hartung. Lá podia, agora não pode. Por quê? Qual a diferença. Essa é a pergunta que eles não respondem:  por que Hartung podia descumprir a meta fiscal e Renato Casagrande não pode?

Nerter – Mas é exatamente por isso que o desgaste ficou com a Assembleia. Porque isso é muito claro. O cara que lidera o movimento pela rejeição foi o líder do governador anterior. Esteve na Assembleia e votou favoravelmente a ele…

Renata – Assim como Euclério Sampaio, Dary Pagung, Elcio Alvares…todos eles. O jogo é deixar as contas para o próximo ano, acreditando que assim Casagrande estará mais fragilizado. Pode até ser, mas rejeitar as contas de Casagrande não o tira automaticamente do jogo político e se ele souber usar isso de forma inteligente, vira vítima política e aí pode ser até pior para as pretensões de Hartung.

Nerter – Muita água vai rolar ainda por debaixo desta ponte. 

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