O retorno do pedágio na Terceira Ponte alterou a vida dos capixabas nesta segunda-feira (29). Depois de oito meses de suspensão da cobrança, a rotina de longos engarrafamentos e filas na praça do pedágio parecer ter voltado. Com isso, o assunto deve novamente fazer parte do debate entre a população, apesar da distância com o cenário na época dos protestos em junho de 2013. No campo político, a ponte também deve ser alvo de discussão, sobretudo com a posse do governador eleito Paulo Hartung (PMDB).
O peemedebista nem chegou a subir as escadarias do Palácio Anchieta, mas já demonstra que o tom de suas declarações sobre o assunto é bem distante daquelas no período eleitoral. Apesar de acusar o atual governador Renato Casagrande de ter feito “uso eleitoreiro” da questão, Hartung mudou radicalmente de opinião sobre o tema.
Em outubro, o governador eleito declarou que o pedágio era uma “página virada na história do Espírito Santo”. Hoje, o posicionamento de Hartung é de que o debate sobre o fim da cobrança “deve ser discutido com a população de modo responsável”, como afirmou na entrevista ao jornal A Gazeta deste domingo (28). Ele atribuiu a suspensão do pedágio, em abril passado após a divulgação do resultado preliminar de uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado (TCE), como uma “mera tentativa de influenciar no processo eleitoral”.
Na mesma entrevista, o governador eleito também se voltou, pela primeira vez, contra a própria corte de Contas. “Nunca antes na história do planeta uma auditoria demorou tanto para chegar ao fim. A impressão que vai ficando para mim, para a sociedade e para os cidadãos comuns é que, na verdade, o que foi feito nesse assunto foi um movimento absolutamente com o foco na eleição”, declarou.
Chama atenção que entre as duas declarações, surgiram as denúncias de que a empresa de consultoria Éconos – antiga sociedade entre Hartung e o seu ex-secretário da Fazenda, José Teófilo de Oliveira – prestou serviços à concessionária Rodovia do Sol (Rodosol), que administra a ponte e o trecho da rodovia ES-060. A Rodosol pagou R$ 160 mil em 16 prestações mensais por eventuais serviços de consultoria, relação que nunca foi explicado pelo governador eleito. A Éconos também prestou serviços para acionistas da ponte, como a empreiteira A. Madeira, que desembolsou R$ 228 mil à antiga empresa do peemedebista.
Em julho do ano passado, época em que teve início os trabalhos de auditoria, o ex-governador Max Mauro denunciou que o peemedebista teria praticado os maiores atos de favorecimento aos atuais donos da ponte. Max defendia a ampliação da investigação do TCE sobre atos da gestão de Hartung em relação à Terceira Ponte, fato que está sendo apurado no bojo da auditoria. Naquela oportunidade, Max considerou que a retirada da obrigatoriedade para realização das obras pela concessionária era um dos pontos cruciais da auditoria.
Durante o governo Hartung, o Estado assumiu as obras de construção do Canal Bigossi e a ligação das novas vias à Rodovia Carlos Lindenberg e ao Fórum de Vila Velha, que deveriam ser executadas pela concessionária. Na época, a Rodosol afirmou que não tinha condições para realizar as obras – previstas desde o início do acordo, em 1998 – e o governador aceitou o “trato” sob o pretexto de manter congelada a então vigente tarifa do pedágio.
“Quando o ex-governador (Paulo Hartung) aparece com essa história injustificável que fez as obras [construção do Canal Bigossi e a alça da Terceira Ponte] para congelar o valor da tarifa do pedágio, ele subestima a inteligência da população. Imagine só congelar um pedágio a R$ 1,50. Na verdade, esse foi o grande presente que ele deu aos donos da ponte”, exclamou Max Mauro, que também lembrou que o peemedebista recebeu R$ 1,5 milhão em doações de campanha das empresas ligadas à ponte, no pleito de 2006.

