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Como servir a dois senhores

Pazolini ensaia colocar no mesmo palanque Paulo Hartung e Magno Malta; prossegue a crise no PL com Michelle “imparável”; e mais

Redes Sociais

Está lá na Bíblia, em Mateus 6:24: “Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro…” O ensinamento deveria ser repetido como mantra pelos postulantes ao Executivo capixaba. Na ala da direita, Lorenzo Pazolini (Republicanos) flerta com o PL, adulando Flávio Bolsonaro, de olho nos votos e tempo de tv que atrairá para a coligação, que hoje tem o PSD, que não é pouca coisa, e traz consigo Paulo Hartung. É uma sensação estranha ver Hartung e Magno Malta, – este carregando a pré-candidata ao Senado Maguinha Malta no colo -, lado a lado, no mesmo palanque, para puxar votos para o republicano. Essa é uma das questões nevrálgicas da composição, que deve ser equacionada só depois das convenções. As divergências entre Hartung e Malta são históricas e remontam a mais de três décadas. As farpas e rusgas entre eles, diretamente e entre os grupos que os representam, sempre foram extremadas. Mas tudo é possível. É necessário lembrar que no Ceará o PL oficializou o apoio à pré-candidatura do tucano de nova plumagem Ciro Gomes, demonstrando que água e óleo podem se misturar.

O estopim da bomba

Aliás, essa decisão de compor palanque com o PSDB no Ceará foi o estopim para os atritos internos que atormentam até hoje o clã dos Bolsonaro. A ex-primeira-dama Michelle manifestou publicamente sua discordância com a aproximação e o resto da história a gente já sabe. Saiu atirando e foi destituída da presidência do PL Mulher, que foi desarticulado nacionalmente. Atacada pelo enteado morador dos EUA, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, ela é autora de denúncia velada da existência de um vídeo comprometedor, anteriormente citado por Anthony Garotinho, que pode colocar em dúvida a moral e os bons costumes de Flávio. E tem mais: é agora ativista-mor do movimento “Imparáveis”, onde, travestida de Mulher Maravilha, vem arrebanhando um séquito de seguidoras não muito satisfeitas com o tratamento dedicado a elas pela ala masculina do PL. Entre elas, a senadora e ex-ministra Damares Alves, que deixou a campanha de Flávio Bolsonaro por sofrer ataques misóginos e ameaças pessoais vindos de aliados da própria direita, especialmente após o racha entre Flávio e Michelle Bolsonaro. Ela relatou que a filha foi ameaçada de morte e que foi alvo de ofensas que configuram violência política de gênero. Além disso, afirmou não ter recebido apoio ou contato direto de Flávio durante a crise.

Tropeçando nas próprias pernas

Aliás, Flávio vem escorregando nas próprias cascas de banana que descasca. Depois de ser proibido de visitar o pai, por ter divulgado uma carta do ex-mandatário, para ratificar que ele próprio era o escolhido para ser o porta-voz do bolsonarismo raiz, acusou o ministro do STF Alexandre de Moraes de “interferência eleitoral”. Ele disse que a medida foi tomada para deixar Jair Bolsonaro “incomunicável” durante a campanha presidencial de 2026 e que isso representava uma tentativa de manipular o processo democrático. Chamou a sentença de “sem pé nem cabeça” e “claramente desproporcional”. Acusou Moraes de buscar “uma desculpinha” para endurecer a pena do pai e retirá-lo da prisão domiciliar. Fato é que a Procuradoria-Geral Eleitoral analisa se Flavio teria feito propaganda antecipada e o descumprimento da medida cautelar que proíbe Bolsonaro de usar redes sociais, o que pode levá-lo para a Papuda. A suspensão das visitas vale até 11 de outubro, após o primeiro turno das eleições.

Imparcialidade entre desiguais

O pré-candidato ungido por Bolsonaro tenta demonstrar que está havendo dois pesos e duas medidas em relação ao tratamento dado pelo Judiciário em um comparativo com a prisão de Lula, em 2018. Mas como advogado, deve estar atento para a situação processual, entre um e outro, que é completamente diversa. Lula, à época, cumpria pena provisória, sem que houvesse o trânsito em julgado. Jair Bolsonaro tem condenação definitiva, com trânsito em julgado, e está em prisão domiciliar condicionada a cautelares. Lula teve o direito de manter a comunicação com o mundo exterior por meio de correspondência escrita e visitas reconhecido pela Justiça. Já Jair, por estar condenado, está proibido de manter qualquer meio de comunicação externa e muito menos pode utilizar redes sociais, diretamente ou por meio de terceiros. Se isso fosse permitido ao ex-presidente, poderia, por extensão, beneficiar todos os internos do sistema penitenciário. Mais um detalhe deixado de lado por Flavio é o momento eleitoral para comunicações. A carta em favor de Fernando Haddad, em 2018, foi divulgada durante a campanha eleitoral, quando a propaganda já era permitida. A missiva bolsonarista “Carta aos Brasileiros” se torna pública antes do período de propaganda eleitoral, ferindo as regras do jogo.

Como montar o lego

Voltando ao Espírito Santo, entram em campo, por aqui, a habilidade e capacidade de persuasão do time do Pazolini, que agora também é do time do Flávio, para contornar ruídos que ficam cada dia mais gritantes. O encaixe precisa ser milimétrico, para não causar uma implosão nos moldes do que aconteceu com o PL nacional diante da guerra bolsonarista. Isso porque é preciso lembrar que, diferentemente do PL, o PSD adota uma postura pragmática de independência e formou uma chapa pura para a eleição presidencial, tendo o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado como candidato ao Planalto e o próprio presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab, na vaga de vice. A relação e os posicionamentos do partido dividem-se em duas realidades: uma estratégia nacional, em que o comando nacional recusou um alinhamento ao Projeto Bolsonaro, posicionando-se como uma alternativa de centro-direita. Esse seria o mar de tranquilidade para a navegação tranquila de Hartung, o céu de brigadeiro para seguir um voo direcional com Pazolini. O ex-prefeito está se aproveitando da brecha sugestionada, mas não apalavrada, em outra realidade apontada pela direção nacional do PSD, como orientação aos diretórios regionais. Por ser uma legenda flex, liberou os Estados para que façam as composições necessárias, deixando as portas abertas para possíveis composições em um eventual segundo turno. O republicano, assim, lançou a possibilidade de apoio local de cara ao PL de Bolsonaro, levando Magno e Maguinha. A reação de Hartung é a próxima cartada. Deve jogar pra cima a decisão, o que pode embolar todo o meio de campo.

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