segunda-feira, julho 13, 2026
19.5 C
Vitória
segunda-feira, julho 13, 2026
segunda-feira, julho 13, 2026

Leia Também:

Apontada pela ONU como inovação social, horta comunitária completa 10 anos em Vitória

Projeto transformou rua no Centro com agroecologia e trabalho coletivo

Redes sociais

Criada por moradores para recuperar uma rua usada para descarte irregular de lixo e marcada pela falta de manutenção, a Horta Comunitária Quintal na Cidade, no Centro de Vitória, completou 10 anos no domingo (12). Classificado como exemplo de inovação em tecnologias social pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO-ONU), o projeto transformou cerca de 50 metros de uma rua sem saída em um corredor verde com árvores frutíferas, hortaliças, plantas medicinais e ornamentais cultivadas de forma agroecológica, conta a assistente social Eduarda Bimbato, uma das fundadoras da iniciativa.

Ela também descreve como a horta ressignificou a relação dos moradores com o espaço público e se tornou uma área de produção de alimentos, educação ambiental, convivência comunitária e promoção da saúde, reunindo voluntários de diferentes idades e recebendo estudantes, pesquisadores e grupos acompanhados pela rede pública de saúde e assistência social. “A realidade do lugar era uma rua que a prefeitura não fazia um processo de cuidado. As pessoas a utilizavam como espaço de descarte para tudo”, relembra.

Inicialmente, o grupo buscou apoio do poder público para resolver os problemas de limpeza e manutenção, mas Eduarda relata que a demora no atendimento fez com que os próprios moradores assumissem o cuidado com o local. “A gente pensou na possibilidade de começar a cuidar da rua, nós mesmos, enquanto moradores”, afirma. O grupo pesquisou projetos de hortas comunitárias desenvolvidos em outras cidades brasileiras e em países como Alemanha e Cuba. A partir dessas referências, elaborou um projeto que buscava ressignificar o espaço público.

“O objetivo era fazer com que os moradores pudessem aproveitar melhor esse espaço e, ao mesmo tempo, cuidar do lugar onde vivem, plantar alimento saudável, criar um espaço de educação ambiental e também um espaço terapêutico”, relata. A iniciativa ganhou força após uma parceria com um projeto Hortas Urbanas da Prefeitura de Vitória, na época sob gestão de Luciano Rezende (Cidadania). Eduarda destaca que o projeto resultou em um curso de formação para a comunidade, com interesse que superou o número de vagas disponíveis e deu origem ao coletivo responsável pela horta.

Redes sociais

Embora o núcleo permanente seja formado por sete pessoas atualmente, dezenas de moradores participam dos mutirões realizados periodicamente. Ao longo da década, a horta passou a receber estudantes da educação infantil ao ensino superior, grupos acompanhados por unidades de saúde, usuários dos Centros de Referência de Assistência Social (Cras), pesquisadores e organizações interessadas em agricultura urbana.

Segundo Eduarda, a proposta nunca foi produzir em larga escala, mas construir um espaço vivo de convivência. Nos aproximadamente 50 metros de extensão, a horta reúne espécies frutíferas, hortaliças, plantas ornamentais e medicinais cultivadas segundo princípios da agroecologia e da agrofloresta. Entre as espécies estão acerola, jabuticaba, pitanga, goiaba, limão, cajá, araçá, banana, manga, pitaia e uva, além de diferentes verduras e ervas medicinais. “O trabalho tem uma base de agroecologia. A gente não planta as coisas separadinhas. No canteiro de hortaliça você encontra planta medicinal. A gente tenta aproveitar cada pedacinho do espaço”, descreve.

Ela afirma que um dos maiores resultados da experiência foi aproximar conhecimentos diversos. “O saber de cada um agrega. Se por um lado a gente tem dois agrônomos, também tem pessoas que viveram na roça durante muitos anos. São saberes que não se excluem; eles se somam”, enfatiza.

Esse intercâmbio também acontece na produção de remédios naturais, aponta. Uma moradora ligada à Pastoral da Saúde utiliza plantas cultivadas na horta para preparar medicamentos distribuídos gratuitamente. “A gente vai descobrindo os tesouros que a comunidade tem e revelando um pouquinho disso. O saber de cada um vai agregando ao saber do outro”, relata.

Para Eduarda, os impactos da horta extrapolam a produção de alimentos e alcançam a saúde física, emocional e as relações sociais. “Com certeza houve impacto tanto na saúde física quanto na saúde mental, porque é muito terapêutico”, avalia. Ela lembra que, durante a pandemia de Covid-19, o espaço tornou-se um local de acolhimento para participantes que enfrentavam ansiedade, depressão e outros sofrimentos psíquicos. “Durante a pandemia foi uma terapia para todo mundo. Sempre foi um espaço de revitalização, de tratamento emocional”, afirma.

Uma das maiores recompensas é ouvir relatos de pessoas que reencontram bem-estar após passar um tempo trabalhando na horta, aponta. Além disso, o projeto fortalece relações entre gerações. Crianças, jovens, adultos e idosos participam das atividades conforme a disponibilidade de cada um. “É uma coisa muito adaptável. Tem atividade para todo mundo”, descreve.

Pensando em garantir um legado permanente para o espaço, ela conta que o coletivo passou a investir cada vez mais no plantio de árvores frutíferas ao longo dos anos. “Se um dia não tiver ninguém para cuidar da horta, vai continuar sendo uma rua com um pomar no Centro da cidade”, observa. Ela afirma que a vegetação já produz efeitos perceptíveis no clima local. “Você anda pelo Centro no verão, chega aqui e sente a diferença. As árvores criam um microclima. É um corredor verde no Centro de Vitória”, afirma.

Neste ano, moradores também se mobilizaram para impedir o corte de uma mangueira existente na rua. A árvore, segundo o grupo, ajuda na compostagem e na qualidade ambiental do espaço. “A mangueira é a melhor coisa que tem aqui. As folhas viram adubo. Tudo a gente aproveita de alguma maneira”, destaca.

Arquivo pessoal

Apesar de parcerias pontuais ao longo dos anos, Eduarda afirma que a manutenção da horta sempre dependeu do esforço dos moradores. “Nós nunca recebemos apoio financeiro. A gente se mantém com eventos e bazares”, conta. Entre os desafios enfrentados estão a instalação de um ponto de água, assumido pelos próprios integrantes do coletivo, e a necessidade de reforma da escadaria de acesso ao espaço, que ainda aguarda uma intervenção da Prefeitura de Vitória para melhorar a acessibilidade.

Para ela, ampliar o número de hortas urbanas depende menos de grandes investimentos financeiros e mais de decisão política. “Não é um projeto caro. O maior desafio das hortas comunitárias são os recursos humanos, porque é um trabalho que exige dedicação e compromisso”, avalia. Eduarda defende que políticas públicas integrem as áreas de meio ambiente, saúde, assistência social e educação, incentivando comunidades a ocupar terrenos disponíveis com produção agroecológica. “A horta atravessa todas essas políticas públicas. Ela fala de alimentação saudável, de meio ambiente, de educação e de saúde”, aponta.

Ao analisar como se desenvolvem experiências de hortas comunitárias em diferentes contextos, ela indica que cada território desenvolve uma experiência diferente conforme as necessidades. Enquanto algumas iniciativas priorizam educação ambiental e convivência comunitária, outras podem fortalecer a segurança alimentar e gerar renda em regiões mais vulneráveis. “A nossa não nasceu para produzir grande quantidade de alimentos. A pegada principal é comunitária e terapêutica. Mas existem outras experiências em que a horta pode ser para geração de renda e como parte importante da segurança alimentar”, reforça, mencionando referências como programas municipais desenvolvidos em Maringá (PR) e iniciativas como a ONG Cidade Sem Fome, em São Paulo, voltadas à produção de alimentos e geração de renda.

Na Grande Vitória, Eduarda lembra da existência de poucas hortas comunitárias consolidadas, entre elas, iniciativas em Eurico Salles, Jaburu, Santo Antônio e tentativas de implantação em bairros como Santa Teresa. Para ela, o crescimento dessas experiências depende principalmente de mobilização social e apoio institucional. “Com certeza sempre vai ter gente interessada em fazer. Falta divulgar mais, incentivar as comunidades e ter vontade política para transformar espaços ociosos em espaços de convivência, produção de alimentos e cuidado com a cidade”, conclui.

Mais Lidas