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Aberta a contagem

O ministro da Defesa Raul Jungmann garantiu a presença das Forças Armadas no Espírito Santo até o dia 8 de março. O anúncio do governo federal é um recado ao governador Paulo Hartung (PMDB), que poderia ser interpretado mais ou menos assim: “Amigo, dia 8 completa um mês que estamos aqui e você ainda não resolveu o impasse. Seu prazo está se esgotando”. 
 
Hartung já entendeu que o governo federal abriu contagem para o Espírito Santo solucionar a crise na segurança pública, que entrou nesta quinta-feira (23) no seu vigésimo dia. Em tese, o governador ganhou mais 15 dias para pôr a PM de volta nas ruas. 
 
Após encerrar o teatro das negociações, o governador assumiu de vez a estratégia de intimidar e ameaçar os policiais militares. Estratégia, aliás, usada por ele desde o início da crise. No seu primeiro pronunciamento ele disse que o movimento era “covarde”, e que não negociaria com chantagistas. “Não sobrará pedra sobre pedra”, afirmou em tom profético, anunciando que faria uma limpeza na PM, que chamou, na ocasião, de reestruturação.
 
Com o prazo se esgotando para a permanência das Forças Armadas no Estado, o governador sabe que não tem mais direito para errar. Nos próximos dias, o governo deve intensificar ainda mais a estratégia da intimidação, anunciando novas listas de policiais que devem responder a inquéritos administrativos, com risco de expulsão da Corporação. Hoje a lista, que já passa dos 2,5 mil PMs, já representa um terço do efetivo da instituição, que gira em torno de 9,4 mil policiais.
 
Paralelo à intimidação, o governo também acirra a narrativa da criminalização da PM. Os policiais têm sido associados sistematicamente a atos criminosos ocorridos durante a crise. Nunca de forma individualizada, eles são acusados de pôr fogo em ônibus, integrar grupos de extermínio e até a ameaçar de morte o secretário de Segurança André Garcia e sua família. Na mais nova modalidade de crime atribuída aos “motinados”, o secretário de Direitos Humanos, Júlio Pompeu, afirmou, sem provar nada ou dar nomes aos bois, que há policiais ameaçando de morte colegas que decidiram voltar ao trabalho. 
 
Sempre sem apresentar provas ou indícios do envolvimento de policiais nesses crimes, Pompeu recorre ao anonimato das denúncias, velha usual no Estado quando se quer incriminar alguém sem ter provas circunstanciadas. Até os mais ingênuos sabem que uma investigação envolvendo policiais não é simples. O secretário de Direitos Humanos deve conhecer o caso de Maria das Graças Nacort, que demorou duas décadas para provar à Justiça que seu filho foi executado por policiais. 
 
O governo não teria tempo para concluir as investigações e apresentar provas conclusivas para punir os supostos envolvidos. Mas como as acusações são apenas para criar fatos e criminalizar os policiais, está de bom tamanho. 
 
Outra medida adotada de última hora para aumentar a pressão sobre o movimento foi o anúncio de transferências compulsórias. O mecanismo é velho nas policiais Civil e Militar. A transferência funciona como uma “punição branca”. Nesta quinta-feira (23), o Comando da PM anunciou uma lista de policiais que serão transferidos a contragosto, justamente os que estariam na lista negra do Comando como “núcleo duro” do movimento.
 
Importante agora para o governo é mostrar que tudo está voltando à normalidade. O carnaval de Vitória, por exemplo, foi o “espetáculo da paz”. Criou-se uma bolha de segurança na “Vitorinha linda” do prefeito Luciano Rezende (PPS), enquanto as zonas de exclusão da Grande Vitória seguiam entregues à própria sorte. Em Nova Almeida, na Serra, por exemplo, os alunos estão 20 dias sem aula porque ainda não há segurança para ir para a escola. Para o governo, porém, o que importa é que o carnaval foi um sucesso e que as “pessoas de bem” estão retomando suas rotinas.  
Essa narrativa da normalidade é outra estratégia usada pelo governo para tentar desmobilizar o movimento. As notícias positivas na mídia corporativa sobre a iminente superação da crise aliadas aos “boletins” que atualizam a cada dia o aumento do efetivo nas ruas servem para minar os núcleos que ainda resistem em jogar a toalha. 
 
O governo, na expectativa de que o fim da crise esteja próximo, começa a procurar uma estratégia para sair do imbróglio que se meteu de maneira honrosa. Como essa é uma queda de braço sem vencedores, independentemente do desfecho do impasse, é importante para o governo apontar quem são os responsáveis pela tragédia, que deixou mais de 180 mortos e prejuízos psicológicos e materiais incalculáveis para a população de maneira geral.
 
Não foi por acaso que o governo acelerou as negociações com o Sindipol, sindicato que representa a Polícia Civil. Na assembleia marcada para está sexta-feira (24) os policiais poderiam decidir pela greve. Um novo movimento, desta vez na Civil, poderia incendiar novamente a PM, expondo o governo a uma nova crise ainda mais aguda. Se durante a crise, com a explosão dos homicídios, o Departamento Médico Legal não tinha mais onde armazenar os corpos, imaginem com os serviços todos parados; como ficaria a perícia, as investigações e outras atribuições da Polícia Civil? 
 
Acuado, o governo está tentando atender às demandas dos policiais civis e usar as negociações como exemplo, para mostrar à sociedade que o governo sempre busca a via do diálogo. Se há impasse, no caso da paralisação PM, é porque a intransigência sempre partiu dos policiais militares. 
 
Com a paciência no limite, a Polícia Civil já tratava a paralisação como uma ameaça: “ou o governo conversa, ou paramos”. A diferença é que o governo, já vulnerável com o movimento da PM, que classificou como “chantagem”, chama didaticamente a retomada do diálogo com a Polícia Civil de negociação. A diferença de tratamento é meramente circunstancial. Caso os policiais civis irrompessem a paralisação, também seriam chamados de chantagistas pelo governo.

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