É como um museu de mim mesma
Tem coisas que a gente faz e não precisa, e outras que a gente se arrepende de não ter feito – e continua não fazendo. A cada aniversário, desde os 10 anos, Mara tira uma foto 3×4, preto no branco, e cola no álbum reservado exclusivamente para essa singela interação consigo mesma. “É como um museu de mim mesma, e muita gente já veio aqui para estudar as alterações e complicações da vida social”.
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Nos tempos atuais, essa coleção parece supérflua se comparada com a exagerada quantidade de fotos que tiramos nos celulares, mas uma galeria de fotos tiradas sempre na mesma data mostra a lenta transformação que o passar dos anos e as variações da moda vão impondo a todos. As áreas da observação humana mais afetadas são a face e o cabelo, claro: Olha esse penteado! Não lembro de ter usado esse coque ridículo!
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Obviamente, uma foto 3×4 só mostra mesmo a face e o cabelo, mas sempre sobram alguns milímetros para analisar friamente a moda vigente em cada aniversário, as preferências e adaptações muito comuns nessa área transitória, mas essencial. Quanta gente não enriquece com a vaidade humana? “Na foto do aniversário de 32 anos estou com a mesma roupa da festa dos 42. Que horror!”. Dá para perceber que Mara passou por uma crise financeira nesse período. A bolsa tem tudo a ver com o bolso!
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Outro detalhe que dá uma cosquinha na ponta do nariz é perceber a evolução da cor preta nas roupas das fotos. Mesmo em preto e branco, o preto absoluto se destaca: “Adoro roupa preta, visto quase todo dia, mas não tem nenhuma cor escura nas fotos mais antigas…o que provocou essa mudança tão radical nas minhas preferências?”. Radical, sim, mas nenhum ato de feitiçaria foi praticado nessa mudança de hábito.
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Nos tempos da saia godê-balão a cor preta era tabu, usada apenas nos funerais e no luto. Na roupa, só mesmo dos empregados e das bruxas. Sai, azar! Tudo mudou quando a imortal Coco Chanel desenhou o que foi chamado de “Pequeno Vestido Preto”, costurado por Givenchy. O vestido foi lançado em 1926 na revista Vogue, que o comparou ao carro Modelo T, da Ford. O que vai com tudo e faz bem a todas!
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No filme Bonequinha de Luxo, Audrey Hepburn consagrou o pretinho-básico como peça obrigatória no armário de toda mulher que se preze, rica ou pobre, feia ou bonita, boa ou má: “O melhor amigo da mulher”. Quem não se lembra dessa obra de arte criada em crepe da China e enriquecida com o exuberante colar de pérolas legítimas? E a piteira? Sempre Audrey! Em um mundo volátil como o da moda, o pretinho básico continua imperando: emagrece, engrandece, embeleza. O que vai com tudo e resiste ao troca-troca das tendências. Mara: “Nessa foto aqui, estava com meu primeiro pretinho-básico…”.

