“Chumbo trocado denota um cenário eleitoral decadente”
As eleições não trazem novidades. A polarização é a mesma. O nivelamento é por baixo, com muitos escolhendo quem não quer e, pior, em ambos os casos temos notícias sobre corrupção e quetais. No caso de Flávio Bolsonaro, o Dark Horse envolve investigação do STF sobre o uso de recursos do Banco Master, com mediação do senador, para o financiamento de um filme político sobre seu pai e para custear a permanência de seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, o Bananinha, na sua fuga aos Estados Unidos.
A partir da divulgação de áudios em que Flávio cobra ao menos R$ 61 milhões de Vorcaro, o ex-dono do Banco Master, que está preso e é o centro do escândalo atual de corrupção na Nova República, o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) pediu investigação do caso, com o senador e atual candidato a presidente negando irregularidades, afirmando que os recursos foram integralmente aplicados na produção e reforça a todo tempo que considera o episódio como “página virada”, embora até agora não tenha havido a apresentação transparente de contratos detalhados de contas públicas.
Além da autorização de abertura de inquérito na Polícia Federal feita pelo ministro do STF André Mendonça, no intuito de rastrear a rota dos milhões repassados por Daniel Vorcaro para a produção do filme, temos uma segunda frente de apuração sob relatoria do ministro Flávio Dino no STF, em que ocorre a investigação se verbas públicas de emendas parlamentares foram desviadas no financiamento do filme, o que inclui R$ 2 milhões vindos do deputado Mário Frias, com repasses ao Instituto Conhecer Brasil, cuja presidente Karina Ferreira da Gama também é a comandante da produtora do filme, a Go Up Entertainment.
O avanço do caso Dark Horse provocou abalos iniciais na candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL), com levantamentos de institutos como o Datafolha indicando uma abertura de vantagem do presidente Lula (PT) em cenários de primeiro turno. Contudo, mesmo que Flávio Bolsonaro tenha perdido apoio, este não migrou para a esquerda, mas inflou o quadro de eleitores indecisos.
Em meio aos escândalos, o chumbo trocado denota um cenário eleitoral decadente, terra arrasada, em que o comitê de campanha de Lula usa o caso Dark Horse como instrumento eleitoral contra Flávio, ao passo que este se utiliza das denúncias contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, que é investigado sob a relatoria do mesmo ministro do STF André Mendonça, como estratégia de contra-ataque. Enquanto outros candidatos aproveitam para atacar dos dois lados, mas sem resultado eleitoral nas pesquisas de institutos até o momento.
Frente ao contra-ataque da oposição, na exploração dos três inquéritos da Polícia Federal envolvendo Lulinha, com suspeitas de tráfico de influência na Dataprev,
Ministério de Saúde e negócios de cannabis medicinal, o PT tenta conter este desgaste e ameaça à imagem ética do governo Lula com a retomada agressiva do caso Dark Horse na mídia e nas redes sociais. Flávio, então, como defesa, argumenta que já declarou em agendas públicas, como na Fiesp, que a prestação de contas do filme vazou da Polícia Civil de São Paulo, como prova que os gastos privados foram regulares, e que, portanto, o caso está encerrado.
Mesmo depois de uma tentativa de criação de uma CPMI pela oposição contra Lulinha no Congresso, a estratégia do PT de recolocar na pauta o caso Dark Horse surtiu efeito relativo, pois levantamento do Datafolha apontou uma oscilação de apenas um ponto para baixo de Lula, com 39% das intenções de voto contra 33% de Flávio Bolsonaro, ao passo que a oscilação negativa de Lula no Quaest é apontado por integrantes do PT e analistas políticos como resultado do “fator Lulinha”, interrompendo uma trajetória de recuperação do presidente que aparecia em diversos segmentos.
O governo federal sofre desgastes com o caso e a isso associa-se o discurso antipetista que reativa os escândalos pretéritos do mensalão e do petrolão. Com isso, o cenário eleitoral, que sempre tem e terá a influência da economia, e que estava dominado pelo tema da segurança pública, com todo o contexto diplomático sobre terrorismo etc, tem pela frente a corrupção, outra crônica permanente e que se renova como tema na pauta jornalística constantemente.
Portanto, depois da especulação ridícula do Sítio de Atibaia e do pedalinho, parece que o filho de Lula é uma casca de banana real e para valer no futuro político que se pretende que seja, na ala do governo federal, de mais um mandato, provavelmente sendo o último, do líder petista.
O caso Lulinha está sendo apurado pela Polícia Federal e a investigação tenta identificar se o filho do presidente era uma espécie de “agenciador oculto”, atuando junto a empresária e lobista Roberta Luchsinger e seu amigo Fernando Bittar, já que mensagens que foram encontradas no celular da lobista sugerem a existência de um grupo permanente que age na viabilização de negócios privados milionários dentro da administração pública federal.
Tal atuação deste grupo envolve o Ministério da Saúde na suspeita sobre uma articulação de um esquema que facilitaria a venda de medicamentos à base de cannabis (canabidiol) para o governo, beneficiando o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, e que também inclui conversas com Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula, que teria recebido pagamentos. E o temor de novos vazamentos coloca a campanha na tensão de ter que atualizar a sua estratégia de defesa, enquanto o próprio Lula disse apenas que as investigações continuem, evitando uma contaminação direta com o caso do filho.
O fator mais perigoso para a campanha é o envolvimento de Marcola, pois ele era um funcionário que despachava de dentro do Palácio do Planalto, tendo um elo direto com o governo federal, mais do que as acusações contra o filho do presidente. A blindagem
em torno de Lula tem sido uma atuação pública do PT, com a adoção de um discurso republicano típico que defende o legalismo de “quem errou deve pagar”, no entanto, acusando a promoção de vazamentos seletivos com intenções eleitorais feitos por setores da oposição e da Polícia Federal.
No Caso Master, outro caso que chama atenção, e que desgasta o Judiciário, é o do Escritório de Viviane Barci de Moraes, em que mensagens interceptadas revelaram um contrato de R$ 129 milhões assinado em janeiro de 2024 entre Vorcaro e o escritório de advocacia da esposa do ministro do STF, Alexandre de Moraes, com parcelas mensais previstas de R$ 3,6 milhões por três anos para consultoria de compliance, e que a Polícia Federal classificou como uma tentativa de comprar proximidade política com a cúpula do Judiciário.
Para contratos milionários a tratativa direta e informal via WhatsApp entre Vorcaro e a esposa de Moraes soaram atípicas por órgãos de controle, pois geralmente isso passaria por diretores ou departamentos jurídicos corporativos, o que implicou numa crítica pública da Transparência Internacional à Procuradoria-Geral da República por uma suposta “inação grave” ao não abrir um inquérito específico para uma investigação sobre a relação da família Moraes com o banco.
Foi divulgada a defesa feita por Viviane de Vorcaro e do Banco Master em um processo de calúnia e difamação movido contra o gestor da Esh Capital, em que foram derrotados. Contudo, o escritório da advogada nega que tenha representado o Banco Master ou Daniel Vorcaro em ações no Supremo Tribunal Federal.
No que se refere a reportagens que diziam sobre voos realizados pelo ministro Alexandre de Moraes e Viviane em jatos vinculados a empresas em que Vorcaro era sócio, o escritório afirmou sobre a utilização regular de táxis aéreos e que os valores foram compensados nos honorários, ao passo que o gabinete do ministro negou proximidade com Vorcaro e disse que as informações eram falsas.
A interferência do ministro Alexandre de Moraes a favor de Vorcaro e do Banco Master é o centro das investigações e relatórios da Polícia Federal divulgados pela imprensa. Temos investigações jornalísticas que apontam que Alexandre de Moraes teria procurado Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, pelo menos quatro vezes, numa tentativa de pressionar a favor do Banco Master, em meio ao escândalo, antes da liquidação da instituição financeira, quando Vorcaro já teria admitido o pagamento dos R$ 129 milhões ao escritório de Viviane Barci especificamente para comprar uma aproximação indireta com o ministro e o STF.
Tal admissão enfraqueceu a tese da defesa de que os valores bilionários correspondiam estritamente a serviços padrão de consultoria jurídica e compliance. O ministro Alexandre de Moraes então determinou a abertura de um inquérito sigiloso para apurar o vazamento de dados envolvendo o contrato de sua esposa e pediu o afastamento formal de servidores da Receita Federal e peritos envolvidos no manuseio das informações de suas funções.
E houve uma contraofensiva determinada por Moraes em que o STF autorizou uma operação de busca e apreensão contra o perito criminal federal João Cláudio Nabas, que foi suspenso de suas funções públicas, acusado de extrair e repassar a jornalistas o material sigiloso obtido no celular de Vorcaro durante a Operação Compliance Zero.
Moraes fez uso do aparato judicial e policial do Supremo Tribunal Federal (STF) para conter o avanço e o vazamento de dados do escândalo do Banco Master e de sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes. O ministro justificou medidas drásticas para apurar crimes funcionais e violação de sigilo, usando sua prerrogativa na instauração de investigações de ofício dentro do STF para blindar as informações do caso, com uma apuração sob estrito segredo de Justiça no rastreamento da cadeia de custódia das provas e para a punição de quem repassou os documentos à mídia.
Numa proposta de delação de Vorcaro que não avançou na Justiça, este mencionou a negociação de um segundo contrato de R$ 50 milhões com empresas ligadas à defesa, enquanto investigações em pastas sob custódia legislativa levantaram suspeitas sobre comunicações efêmeras enviadas às vésperas da prisão do empresário, negado pela defesa de Viviane.
E a defesa do empresário Marcelo Conde, investigado sobre a compra de dados sigilosos vazados referentes a Viviane Barci, acionou o presidente do STF para exigir o afastamento do ministro Alexandre de Moraes da relatoria do caso, alegando conflito de interesses, uma vez que o ministro não pode relatar uma investigação que envolve diretamente sua própria esposa.
Por fim, o vínculo de R$ 129 milhões por três anos foi rescindido antecipadamente no final de 2025 devido à prisão de Daniel Vorcaro na Operação Compliance Zero e com a consequente liquidação do Banco Master, quando a Polícia Federal realizou uma operação contra um perito suspeito do vazamento ilegal à imprensa dos documentos sigilosos do contrato e das conversas de WhatsApp extraídas do celular de Vorcaro.
Gustavo Bastos, filósofo e escritor. Blog : poesiaeconhecimento.blogspot.com

