quinta-feira, fevereiro 12, 2026
24.9 C
Vitória
quinta-feira, fevereiro 12, 2026
quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Leia Também:

De costas pra folia

Bastaram menos de dois meses para Luciano Rezende (PPS) provar por que quase perdeu sua reeleição para o forasteiro Amaro Neto (SD).
 
É muito sério o que o prefeito de Vitória fez este ano com o carnaval de rua do Centro, um fenômeno em franca ascensão há pelo menos cinco anos, mas que ele, parvamente, ignora. Foi uma folia exuberante como sempre, que já cruzou as centenas de foliões diários, as fronteiras do Centro e aglutina a cidade inteira. Foi no entanto problemática como nunca, efeito direto da decisão anunciada na segunda-feira (20) de negar autorização aos blocos – e, portanto, a oferta de suporte logístico (interdição de vias, banheiros químicos, segurança).
 
Uma decisão que, então, já se revelou grosseira. Desde o primeiro mês da primeira gestão, Luciano tropeça em decisões primárias e ações amadoras – quem não se lembra da divisão do espaço entre ciclistas, skatistas e pedestres no calçadão de Camburi de janeiro de 2012? Um assunto simples que se degringolou em polêmica. 
 
Quantas vezes Luciano agiu primeiro para pensar depois? Não vamos muito longe: a mais nova veio à tona nessa quarta-feira (1), com o recuo da Prefeitura de Vitória em dizer que a morte de um morador de Jardim da Penha foi por febre amarela, como divulgado de início, mas que ainda se encontra sob investigação.
 
Mas neste Carnaval a falta de tato do prefeito atingiu dimensões apoteóticas. Era previsível que a decisão de negar autorização a blocos de rua seria o contrário de sábia. O que Luciano esperava? Que as pessoas se resignassem a uma eterna quarta-feira de cinzas em seus lares, sobretudo após uma semana enclausurada fermentando medo e tensão? 
 
Óbvio que não, até a lixeira de seu gabinete sabe disso. Para moradores e foliões, ficou a mensagem de que Luciano simplesmente virou as costas para o carnaval de rua do Centro. Entre a noite de sexta-feira (24) e segunda-feira (27), a alegria dos blocos conviveu com carros de som mecânico que vararam a madrugada no miolo do Centro (entre as praças Costa Pereira e Ubaldo Ramalhete). A noite de sábado (25) foi a mais caótica, em que pelo menos três carros de som estavam entre as duas praças.
 
O Centro também virou um imenso banheiro a céu aberto. Isso aí: nem banheiro químico a prefeitura teve sabedoria, bom senso ou capacidade de fornecer. Nem a escadaria da histórica Igreja do Carmo se salvou. 
 
Luciano às vezes ainda parece um vereador e não a liderança máxima de uma Capital. 
 
Uma ressalva: quando a decisão de lavar as mãos para o carnaval da cidade foi tomada, a greve da Polícia Militar ainda não dava indícios de término. Não se pode subestimar a importância da PM para o suporte à segurança de grandes eventos. Mas, nessas horas, a liderança máxima de uma capital deve assumir a proa – e não abandoná-la, como Luciano fez, colocando o secretário de Segurança, Frônzio Calheira, para segurar o pepino.
 
Esperava-se um planejamento mínimo – interdição de vias e fornecimento de banheiro químico já abrandariam os transtornos. 
 
Mas não. Quem segurou o rojão da omissão do prefeito e do ápice dos transtornos, na madrugada de segunda para terça (28), quando houve um tiroteio com homens feridos na Costa Pereira? O vereador, presidente da Câmara e filho do Centro Vinicius Simões (PPS).
 
Seus tímpanos devem ter fervido com a fúria de moradores desde sexta à noite contra carros de som em volumes estratosféricos até alta madrugada, a imensa privada a céu aberto que se tornara o Centro e a sensação de insegurança.
 
Na noite de segunda-feira, Simões publicou no Facebook um texto um tanto virulento que, em suma, culpava a greve da PM para justificar as madrugadas caóticas que o Centro passara até então – expediente fácil, já que, quem, diria, a PM vive seus dias de cachorro morto. Vereador que gosta de assumir a tribuna da Câmara para condenar as práticas da “velha política”, agiu de forma igualmente mesquinha ao culpar nas a greve para apenas tirar da reta o seu e o do seu prefeito. 
 
Na terça, duas lojas de moda feminina na Rua Sete de Setembro amanheceram isoladas por fita. No chão, manchas de sangue do tiroteio da madrugada anterior.
 
Mais uma vez, depois as coisas aconteceram para depois agir, a gestão Luciano Rezende começou a trabalhar.
 
Apenas na terça de Carnaval o Centro viu aquilo que faltara nos quatro dias anteriores: planejamento. Interdição de vias de acesso ao local e, com o fim da greve, viaturas da PM pontilhavam a paisagem. Apenas na terça a guarda municipal passou a trabalhar para impedir o acesso de carros de som ao local. Vinicius apagou o post anterior e publicou ovo texto, em tom mais diplomático, jurando cobrava ações em reuniões com secretários. Mas ainda culpava a greve da PM.
 
Não adiantou. A bobagem já se consumara e o Carnaval de 2017 consolidou a principal marca da Era #VitóriaSuaLinda na Prefeitura de Vitória: uma inacreditável incapacidade de planejamento. 
 
Luciano desconhece a cidade que administra e, assim, vai perdendo a oportunidade de cristalizar algo que por décadas assombrou Vitória: a falta de Carnaval. Poucos anos atrás, enquanto o país mergulhava na ofegante epidemia, Vitória era silêncio e tédio. No entanto, a tendência nacional de resgate do Carnaval de rua chegou tarde a Vitória, mas chegou – e o Centro da capital é o estandarte desse renascimento.
 
E é um fenômeno que também movimenta a economia. Para quem se reelegeu prometendo gerar emprego e renda – este foi o principal mote de Luciano – não é uma decisão sábia virar as costas para uma chance dessas. Como há muito não ocorria, hoje muita gente fica em Vitória para viver o Carnaval.
 
Este Carnaval ensinou mais uma lição: vai ser árduo tirar Luciano dessa bolha que o prende entre Bento Ferreira e Jardim Camburi.  Ele tem a obrigação de oferecer em 2018 um carnaval de rua à altura da cidade que administra. 

Mais Lidas