O governador Paulo Hartung (PMDB) empurrou a culpa pela crise na segurança no movimento da Polícia Militar. Sua estratégia na entrevista concedida à jornalista Míriam Leitão (Globo News), nessa quinta-feira (10), era a de mostrar ao mesmo tempo que também é vítima da situação – a PM teria aproveitado sua ausência por causa de um problema sério de saúde para fazer o motim – e, também, que sua política de austeridade não pode ser responsabilizada pela crise.
Por um lado, está certo. Sim, a Polícia Militar se aproveitou da saída do governador para realizar o ato. Por outro, está errado. Na gana de capitalizar politicamente com a crise no País, quis mostrar exemplo de gestão e tirou de onde não podia tirar. Agora na guerra de chantagem, é o governo quem põe a arma na cabeça da categoria e tenta vencer a queda de braço pelo cansaço.
Hartung conseguiu em partes o que queria: colocar a população contra a greve da Polícia Militar. Até porque o comportamento da PM nas greves e protestos de outras categorias sempre passou bem longe da solidariedade. Mas Hartung não saiu ileso, vide o panelaço na noite de ontem (9) que se espalhou pela Grande Vitória. Difícil acreditar que o batuque era para a PM, pois aconteceu, não por acaso, durante a entrevista do governador.
Foi talvez, a partir do tão compartilhado comentário do apresentador do Jornal da Band, Ricardo Boechat, no início da semana, de que o que acontecia no Espírito Santo era desproporcional, porque a Polícia Militar não poderia fazer esses tipo de protesto e que isso deixava a população refém. Boechat disse ainda que a PM está sendo covarde com a população capixaba. Nesse momento, Hartung deve ter se tocado de qual seria o caminho de sua salvação. Mas isso deixa marcas também.
Pode ser que em nível nacional, o governador conseguiu se sair bem, já que quem olha de fora pode acreditar em sua imagem, ainda mais com o reforço de uma estratégia de marketing tão eficiente. Mas não saiu sem escoriações dessa história. Se quiser ser presidente, ministro, no futuro fica bem na fita. Mas se precisar dos votos do Espírito Santo, Hartung agora tem problemas. Saiu chamuscado.
Fragmentos:
1 – Quanto tudo isso acabar, a Polícia Militar vai demorar um tempo até recuperar a confiança da população. E a classe política, se recupera até o processo eleitoral de 2018.
2 – Na Assembleia Legislativa, o silêncio impera, mas há quem diga que o fato de os deputados terem feito algo que o governo até então não tinha feito, abrir o diálogo, tenha prejudicado a relação institucional.
3 – Há quem acredite que o vice-governador César Colnago foi fritado nesse processo de propósito. Seria o cúmulo da vingança política, mas no Espírito Santo hoje, tudo é possível.

