Está nas mãos do governador Paulo Hartung (PMDB) o destino da lei aprovada nessa segunda-feira (23) na Assembleia Legislativa, que segue a onda conservadora que toma conta do País e proíbe manifestações artísticas que explorem a nudez no Estado. Parece uma bobagem, do ponto de vista da política séria, debater esse tipo de coisa em 2017, mas essa “bobagem” coloca o governador em uma situação complicada.
Se sancionar o projeto de Euclério Sampaio (PDT), Hartung coloca em risco a construção de uma imagem de político erudito, à frente do seu tempo, distante dos populistas e adepto de uma política com P maiúsculo. Mas se vetar corre o risco de desagradar uma boa fatia do eleitorado capixaba, que vem entrando de cabeça na paranóia conservadora.
Alguns elementos se somam a essa dificuldade de visualização do que pode acontecer com a lei daqui pra frente. O fato de não ter interferido no processo de discussão do projeto na Assembleia, por meio da Casa Civil ou da liderança do governo, mostra que Hartung deu aval para que a Casa fizesse o debate. Debate é uma palavra muito forte, já que não se discutiu com a sociedade a relevância da matéria, mas entre os deputados.
Agradou a bancada evangélica, deixou que os discursos inflamados na defesa da “família” fossem encampados pelos parlamentares e a polêmica criada. Lembrando que o projeto foi apresentado pelo deputado Euclério Sampaio, que é desafeto palaciano. Outra matéria não teria chance sequer de ser votada nas comissões.
Os holofotes ficam agora em cima de Hartung, que deve estar em campo na eleição do próximo ano e se deparar com o eleitor conservador e aí a sanção pode ser o melhor caminho. Por outro lado, se Hartung quiser valorizar o discurso que vem pregando fora do Estado de buscar alternativas aos “pescadores de águas turvas”, aos “vendedores de terreno na lua”, aí o veto é o seu caminho.
Uma coisa é certa, tudo até aqui foi feito com o consentimento do governo. Logo Hartung tem um plano para tornar essa polêmica mais um palanque para dar visibilidade à sua imagem.
Fragmentos:
1 – No frigir dos ovos, o que projeto de Euclério está proibindo mesmo são as performances de nu artístico. Isso graças à emenda das deputadas Luzia Toledo (PMDB) e Janete de Sá (PMN). Aliás, emenda é um sinal que o governador pode acabar sancionando a matéria.
2 – Há ainda uma terceira opção para o governador sobre a lei. Ele pode ficar quietinho, perder o prazo para sanção ou para veto e deixar que a Assembleia Legislativa promulgue a nova lei. É o popular dar uma de João–sem-braço.
3 – O senador Ricardo Ferraço (PSDB) deve se reunir com o presidente interino do partido, senador Tasso Jereissati, que quer o retorno do parlamentar às suas atividades ao Senado.

