Por José Carlos Pigatti
Há uma velha brincadeira que atravessa gerações no Brasil: somos todos técnicos de futebol. Da arquibancada ao sofá de casa, do boteco ao grupo de mensagens, cada pessoa tem sua escalação ideal, sua estratégia preferida e sua explicação para a vitória ou para a derrota.
Mas existe outra atividade em que os brasileiros também se tornam especialistas: as eleições.
A cada nova pesquisa divulgada, surgem prognósticos definitivos. A cada discurso, aliança ou movimento de campanha, aparecem análises que tratam o resultado eleitoral como algo já decidido. Muitas vezes, a política é reduzida a uma disputa de torcidas, como se a democracia fosse apenas um campeonato e os candidatos fossem os únicos responsáveis pelo resultado final.
A realidade, porém, é mais complexa.
Nenhum time vence apenas porque possui um craque. O futebol é um esporte coletivo. Exige organização, treinamento, estratégia, disciplina e participação de todos os jogadores em campo. Da mesma forma, uma eleição não se explica apenas pelo carisma de um candidato ou pelos números de uma pesquisa. Por trás de cada voto existem experiências concretas de vida, interesses sociais, projetos de sociedade, disputas econômicas e visões diferentes sobre o futuro do país.
Foi justamente isso que os grandes pensadores da transformação social procuraram compreender.
Karl Marx ensinava que as ideias não nascem do nada. Elas são influenciadas pelas condições materiais da existência. Em outras palavras, as pessoas interpretam o mundo a partir da forma como vivem, trabalham, produzem e enfrentam seus desafios cotidianos. Quando observamos uma pesquisa eleitoral, portanto, devemos olhar além dos percentuais. Precisamos perguntar quem está empregado, quem procura trabalho, quem tem acesso à moradia digna, quem depende do SUS, quem utiliza o transporte público e quem sente diariamente o peso da inflação.
É na vida concreta que a política ganha significado.
Antonio Gramsci aprofundou essa reflexão ao mostrar que a disputa política não acontece apenas nas eleições. Ela acontece também nas escolas, nos sindicatos, nas igrejas, nos meios de comunicação, nos espaços culturais e nas comunidades. As urnas revelam apenas uma parte da correlação de forças construída ao longo do tempo.
Por isso, quando os partidos se limitam aos períodos eleitorais, correm o risco de abandonar justamente o terreno onde se forma a consciência popular.
Paulo Freire, por sua vez, ensinou que ninguém transforma a realidade sozinho. A mudança social nasce da participação consciente das pessoas em sua própria história. A democracia não é um espetáculo para ser assistido. É uma construção coletiva que exige diálogo, organização, reflexão crítica e compromisso com o bem comum.
Talvez seja essa a maior lição que podemos tirar da comparação entre futebol e política.
No futebol, a torcida organizada em torno de um objetivo pode empurrar um time para grandes conquistas. Na política, o povo organizado pode transformar a sociedade. Nenhuma mudança profunda acontece por obra de um indivíduo isolado. As conquistas sociais, os direitos trabalhistas, a educação pública, a saúde universal e a ampliação da democracia foram frutos da luta coletiva de gerações inteiras.
Por isso, quando alguém afirmar ter certeza absoluta sobre o resultado de uma eleição, vale lembrar uma velha sabedoria dos gramados: o jogo só termina quando o juiz apita o final. E mesmo depois do apito, novos campeonatos começam.
As pesquisas importam. Os candidatos importam. As campanhas importam.
Mas quem escreve a história não são os comentaristas de ocasião. É o povo em movimento.
O Hexa ainda não veio. Continuamos esperando a próxima Copa com a mesma paixão que caracteriza nossa relação com o futebol. Mas existe outra conquista que depende muito mais de nós do que de qualquer seleção: a construção de uma sociedade justa, democrática, solidária e igualitária.
Essa vitória não será alcançada apenas pelo voto, embora o voto seja fundamental. Ela será construída pela participação popular, pela organização social, pela defesa dos direitos, pela solidariedade entre os trabalhadores e pela capacidade de transformar esperança em ação.
Que venham as próximas Copas. Que venham as próximas eleições.
Seguiremos sonhando com um futuro que ainda não existe, mas que pode nascer daquilo que fazemos hoje. Como ensinou Paulo Freire, a esperança só se torna força transformadora quando caminha de mãos dadas com a prática.
E é exatamente por isso que a luta continua: porque o futuro não está escrito. Ele será construído pela consciência, pela organização e pela participação do povo trabalhador.
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José Carlos Pigatti

