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Toda moeda tem duas faces, toda solução teve uma discussão

Acompanho de longe a FLIP, admirando essa leva de autores que revertem o mundo interior e inventam o impossível sem medo de errar. Sangue novo e malabarismos da linguagem que soam como música num país em que a maioria dos títulos nas livrarias é traduzida. A Esfinge egípcia talvez seja uma metáfora do livro, fitando as areias do deserto, infinitas como a criatividade humana: “Decifra-me ou te devoro!” A boa notícia é que esse ano houve mais autores nacionais do que invasões internacionais — poucas vezes de melhor qualidade. 

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O livro é uma bússola que pode nos levar a todos os lugares. Tem quem ame, tem quem despreze; tem quem não largue. O angolano Jucás Portobello venceu a olimpíada de quem leu mais livros no mundo, embora não tenham  explicado  como tal façanha foi comprovada.  Devíamos ter um campeonato de leitura, como existem os de xadrez, com os participantes lendo os clássicos e os modernos, os premiados e os ignorados. Tempo esgotado, os julgadores fariam sabatinas para comprovar os textos lidos.

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Na arena oposta temos o irlandês Nibio Farolla, que ganhou o descampeonato dos que jamais leram livro algum. Nem mesmo panfleto ou jornalzinho de promoções dos supermercados. Venite adoremus, pois, o que os modernos escrevinhadores rabiscam em seus laptops. Primeiro lugar na lista dos mais vendidos: Como Matar um Limão Sem Acordar as Crianças – com 100 milhões de cópias vendidas na primeira semana de lançamento e com os direitos de filmagem vendidos para a Netflix.  Li as 600 páginas e não encontrei um só limão no enredo.  Talvez estivessem infectados com a ciclosporiase. Mas procure, pois toda moeda tem duas faces, toda solução teve uma discussão.

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Segundo lugar, com 97 milhões vendidos durante o tic-tac da minha Remington: O Desastroso Desastre. Não compre! Essa massaroca de Crime e Castigo com 2.499 páginas é um emaranhado de todos os romances de detetives, os famosos Who-did-it, dos quais a campeã continua sendo Agatha Christie: um bilhão de livros vendidos em inglês, um bilhão de traduções no resto do mundo (suspeito que sejam dos mesmos livros).

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Padre Antônio Vieira: “O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.” Da caneta e do tinteiro, quantas lágrimas rolaram!  Tantas palavras enfileiradas,  tanto toner derramado… Do título na primeira página até o ponto final, todo livro revela alguma coisa, como o gênio te esperando dentro da lâmpada do Aladim. Jorge Luis Borges: “Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria”.

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O livro é resistente. O mundo na correria para o dia seguinte,  e as livrarias continuam vendendo livros, apesar das novas tecnologias, do Kindle, do Ipad, da TV, da Internet, do analfabetismo, da pobreza, dos incrédulos, dos apressados… Muita letrinha me confunde, diz a amiga. A melhor frase do ano nada tem a ver com livros, mas merece ser repetida: “Quarenta e dois embaixadores numa sala. Dava para vender soja, dava para abrir mercado para a indústria, dava para atrair investimento. Escolheram falar de urna eletrônica.” (Ronaldo Caiado).

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