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Truques filantrópicos

Já faz tempo a figura do milionário popularizada pelo humor irônico, que financiava campanhas eleitorais só por ser excêntrico, sem interesse de qualquer espécie. Era acolhido pela classe política que, ávida de poder, se transformava em canal para levá-lo à massa dos desinformados, onde recebiam aclamações como generosos e inteligentes, erguido em um pedestal de pessoas de bem.  

Na verdade, todos sabiam dos malfeitos da facilitação de emprego para o apadrinhado, das obras de acesso à fazenda com dinheiro público, de barragens, estradas, perdão de dívidas tributárias e outros favorecimentos que permaneciam no silêncio próprio às conveniências de cada um.

Os cenários mudaram, o vestuário foi trocado, o texto alterado, mas os personagens são os mesmos. O objetivo, o lucro. Em tempos de pós-modernismo, a mais valia relativa identificada pelo velho Marx exprime com rigor a disparidade entre os investimentos e a lucratividade. Os atuais projetos de filantropia, filão explorado por corporações bilionárias, são um bom exemplo. 

Seus idealizadores sequestram competências e atribuições do Estado, sempre sinalizado como ineficiente, e impõem modelos de gestão com plena liberdade do capital financeiro, mesmo depois de experiências desastrosas, com o objetivo de alcançar rentabilidade cada vez maior, a partir do gerenciamento de setores essenciais da sociedade, como educação, segurança, saúde e relações de trabalho. 

As entidades “sem fins lucrativos”, como o Instituto de Co-Responsabilidade pela Educação (ICE), a ES em Ação e o Instituto Milenium, envolvidos no projeto Escola Viva, em implantação no Espírito Santo, se encaixam nesse perfil, com a marca da filantropia capitalista que espalha o americanismo em boa parte do mundo e gera lucros trilionários, na mesma proporção em que contribuem para aumentar desigualdades sociais e a pobreza. 

A política de privatizações, de incentivo fiscais, no Espírito Santo, guardadas debaixo de sete chaves, a manutenção de um modelo de desenvolvimento econômico exaurido e corte de gastos públicos que abre espaços imensos para a terceirização e a perversa desconstrução do Estado como gestor, podem ser colocados com fatores favoráveis à implantação de projetos desse tipo. 

Vale recordar o nível do ensino público e o sucateamento iniciado há quatro ou cinco décadas, para permitir a expansão, em larga escala, da rede privada, com liberdade para fixar preços, e as investidas no sistema de saúde mantido pelo governo, onde pode ser visto, sem muito esforço, que o fechamento das farmácias populares segue no mesmo ritmo da abertura de outras pertencentes a grandes corporações empresariais. 

O “milionário excêntrico” está vivo e atuante, com poder de tomar decisões em nível de governo e direcionar as políticas públicas para onde quiser, usando a estrutura do Estado para obter mais lucro. Não é sem sentido, portanto, a polêmica em torno da Escola Viva.

A iniciativa faz parte de um extenso programa de retirar do Estado prerrogativas essenciais e transferi-las para o mercado, a fim de garantir a manutenção de modelos e sistemas cujos beneficiários são um pequeno grupo de “milionários excêntricos”, extremamente talentosos. 

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