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A miríade de promessas políticas que assola o cidadão

Leonardo Sá

Ou como não enlouquecer diante da urna eletrônica

Dizia meu saudoso primo Paulo, sujeito de luzes e profundo conhecedor da fauna política, que escolher candidato no Brasil é como pedir rodízio de sushi na rodoviária: você não entende nada do que escrevem no cardápio, o preço é indigesto e, no fim, a dor de barriga é garantida. Pois bem, cá estamos de novo no período em que o país se fantasia de esperança e o horário eleitoral gratuito que bate à porta transforma a televisão num manicômio com trilha sonora de jingle chiclete — daqueles que grudam na mente mais do que boleto atrasado.

O brasileiro, esse herói sem nenhum caráter e com muito carnê para pagar, acorda cedo com a nobre missão de escolher quem vai mandar na sua carteira pelos próximos quatro anos. Os planos de governo, registrados com a solenidade de quem assina a Constituição, parecem psicografados por autores de realismo fantástico. “Tudo o que você pode imaginar, você pode alcançar”, diria Pablo Picasso eterno, agora em exposição no Palácio Anchieta.

Tem candidato prometendo acabar com a fome distribuindo hambúrguer vegano com gosto de costelinha por decreto presidencial. Outro, mais ousado, garante que vai construir o “Trem-Bala Subterrâneo Transamazônico (TBST)”, ligando o Chuí ao Acre em meia hora, com parada para cafezinho em Brasília. O eleitor lê aquilo e pensa: “Se o ônibus da minha linha atrasa duas horas na chuva, como é que esse cidadão vai botar um trem-bala debaixo da terra?”.

Quando a gente acha que o Executivo já é um circo, chega a hora de olhar para o Legislativo. Aí, nesse caso, o bom senso pede falência direto. Nem passa pela recuperação judicial da Apex. O Congresso virou uma mistura de picadeiro com convenção de influenciadores digitais. Tem candidato que faz dancinha de TikTok vestido de super-herói da terceira idade, jurando que vai “combater a corrupção na base da voadora”. Tem candidata que usa o nome do cachorro como sobrenome parlamentar e promete criar a “Bolsa Ração Premium” para os caninos da classe média baixa.

A gagueira intelectual dos pronunciamentos é um espetáculo à parte. O candidato nacional, cercado de marqueteiros que cobram o PIB de um país europeu, tenta falar de macroeconomia, mas confunde “superávit primário” com “superfaturamento de armário”. O eleitor assiste à gafe, ri de nervoso e se pergunta se o voto nulo não deveria vir acompanhado de calmante tarja preta.

Mas como cá estamos, precisamos trazer essa epopeia cá, para as terras do Espírito Santo. Aqui, o drama de escolher representante ganha o requinte das nossas disputas locais. O candidato capixaba ao Legislativo Federal é um ser mitológico. Ele aparece de quatro em quatro anos, geralmente vestindo a mesma camisa de linho amassada para parecer “do povo” e comendo pastel de vento na feira da Praia do Canto, fazendo cara de quem saboreia iguaria cinco estrelas, enquanto o assessor fotografa para o Instagram.

As promessas também são um atentado à possibilidade de sinapses. Um candidato à Câmara promete verba federal para construir uma ponte estaiada ligando Vitória a lugar nenhum. “Vamos ligar nossa capital ao progresso!”, bradou do alto do carro de som passando em alta velocidade pela Dante Michelini. Um feirante mais esperto, naquelas visitas de candidatos, gritou: “Doutor, e o trânsito da Segunda Ponte?”. O candidato fingiu que não ouviu e passou a falar da “privatização do vento para gerar energia limpa nas praias de Vila Velha”.

Aliás, mobilidade urbana é um tema clássico. A proposta de um candidato a senador descreve um projeto de expandir o aquaviário até as montanhas de Domingos Martins, transformando as barcas em submarinos capazes de navegar pelas cachoeiras de Matilde. O eleitor lê aquilo, olha para a fila do Transcol sob o sol de 38 graus desse nosso inverno escaldante e sente vergonha alheia, deletando para sempre qualquer possibilidade de registrar aqueles três números.

Os debates televisivos locais não começaram, mas o humor involuntário nas entrevistas com os candidatos já reina. O jornalista pergunta as medidas para segurança pública na Grande Vitória, e o candidato, perdido nas anotações, começa a discursar sobre proteger tartarugas marinhas da Praia de Camburi contra o avanço do comunismo internacional. Outro adversário aproveita a questão semelhante, no dia seguinte, para prometer isentar de IPVA todos os donos de quiosques que venderem moqueca legítima e verificada — sem azeite de dendê. É a culinária como cabo eleitoral. Outro acusa o entrevistador de etarismo, por fazer uma pergunta moderna demais. Aquelas coisas que a gente vê, ouve, mas preferia ter usado o tempo pra admirar o quadro do Picasso (ele, de novo, lá no Anchieta).

As promessas que jamais serão cumpridas formam um arquivo mais espesso que lista telefônica dos anos oitenta (alguém lembra?). Promete-se que o aeroporto de Vitória terá voos diretos para a Lua, diariamente, e que o Convento da Penha ganhará teleférico climatizado com distribuição de picolé de graviola.

Diante desse panorama de delírio coletivo, o cidadão chega ao domingo de eleição, com a cabeça parecendo batedeira industrial. Entra na cabine indevassável de papelão, encara o teclado da urna e lembra da costelinha de clorofila, da ponte para lugar algum e da dancinha do super-herói. O dedo treme diante do botão verde do “Confirma”. Nesse milésimo de segundo, a gente percebe que votar não é escolha racional; é ato de fé cega, misturado com torcida para que o eleito faça pelo menos metade do estrago que prometeu. O sinal sonoro da urna ecoa: pirulimlulim! Está feito. O cidadão capixaba sai, compra uma água de coco na pracinha, olha para o céu azul que abençoa o Espírito Santo e pensa: “Seja o que os deuses quiserem. Pelo menos a moqueca ainda é nossa… e sem dendê”.

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