quinta-feira, julho 9, 2026
20.8 C
Vitória
quinta-feira, julho 9, 2026
quinta-feira, julho 9, 2026

Leia Também:

A Revolta dos Dejetos na Praia do Canto

Ou como as inocentes fezes de um cachorro podem causar uma hecatombe

Reprodução

A Praia do Canto, tradicional reduto da fidalguia da capital capixaba, assistiu recentemente a um drama de proporções shakespearianas, embora o elemento dramático central estivesse mais para o compêndio de veterinária do que para a alta literatura. Trata-se do clássico e milenar conflito entre a arte da pichação, a política partidária e o trato digestivo dos caninos.

Consta que uma senhora de fino trato, daquelas que a crônica social costuma rotular como “empresária de visão”, resolveu dar uma utilidade verdadeiramente cívica ao passeio noturno de seu fiel amigo de quatro patas. O animal, alheio às turbulências do espectro político, cumpriu sua função biológica com o rigor que a natureza exige. A madame, dotada de um espírito prático e revolucionário que faria inveja aos jacobinos, recolheu a oferenda. Mas, em vez de depositá-la na lixeira mais próxima, encontrou um destino muito mais nobre e estético para a matéria orgânica.

O alvo da intervenção artística foi a chamada “Casa Bolsonaro”, um templo de adoração que ostenta na fachada a efígie do ex-mandatário nacional. A empresária, com a precisão de uma pintora impressionista e a fúria de quem não aguenta mais o proselitismo alheio, aplicou o subproduto canino diretamente nas feições impressas da liderança conservadora. O ato repetiu-se, demonstrando que a digestão do cão e a convicção política da dona andavam em perfeito sincronismo.

Dizem as más (e boas) línguas que a imagem, habituada ao longo dos anos a receber bajulações da mais baixa extração, finalmente encontrou algo que combinasse perfeitamente com a sua essência histórica. O semblante do ex-presidente, que tantas vezes destilou o que a política nacional tem de mais rústico e desagradável, ganhou uma moldura orgânica à altura de seu legado. Era a crueza da realidade urbana se sobrepondo à solenidade de plástico do reacionarismo local.

Descobriu-se o “crime” pelas onipresentes lentes do videomonitoramento, essa praga que acabou com o anonimato dos heróis anônimos. O herdeiro das dores do templo, um jovem vereador da bancada do PL, correu às autoridades policiais bradando contra a “conspurcação” do santuário. O parlamentar, que certamente ignora o significado da palavra que usou, parecia mais chocado com o uso do adubo animal do que com as habituais grosserias que seu próprio partido distribui gratuitamente pelos microfones da República.

Para adensar o caldo da comédia de costumes, entra em cena o marido da artista plástica canina. Um médico-cardiologista de renome, acostumado a lidar com os corações da alta sociedade, resolveu infartar a paciência do edil. Invadiu o recinto em horário comercial e, longe de pedir desculpas pelo excesso de nitrogênio na parede, tascou uma senhora ameaça ao parlamentar. Prometeu acabar com a carreira política do rapaz, num rompante de coronelismo urbano que mostra que, na Praia do Canto, até a oposição se faz com o peso do sobrenome e da conta bancária.

A legislação brasileira, sempre tão severa com as manifestações estéticas periféricas, agora ameaça a socialite com as penas da Lei de Crimes Ambientais. Uma ironia deliciosa, considerando que os homenageados daquela casa passaram quatro anos incentivando a devastação de florestas reais, mas agora choram a degradação de uma parede manchada pelo produto de um estômago canino.

O veredicto das calçadas, contudo, já foi dado. Entre um latido e uma dedada de protesto, a Praia do Canto descobriu que a política nacional, quando atinge o nível do insuportável, só pode ser respondida com aquilo que o cachorro do vizinho faz de melhor. E que, no fundo, a moldura combinou perfeitamente com o quadro.

Rubem Roschel é jornalista e cronista de quinta.

Mais Lidas