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‘Alguns dados sobre a ditadura permanecem contraditórios e confusos’

Websérie de Gustavo Conceição busca “rastros” do regime a partir de filmes capixabas

A websérie documental Cinema, Poema e Gangrena, lançada no YouTube, busca por possíveis “rastros” da ditadura militar (1964-1985) no cinema produzido no Espírito Santo durante aquele período. No próximo dia 24, às 20h, será realizada uma sessão especial no Cineclube Metrópolis, na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), em Vitória, seguida de debate com o diretor, Gustavo Guilherme da Conceição.

Reprodução/TVE

A websérie, uma produção experimental, se estrutura como um videoensaio dividido em três episódios. O primeiro, Gangrena, foi lançado nesta semana. O segundo, Poema, estará disponível a partir de segunda (20). E o terceiro, Cinema, vai ser lançado na quinta-feira (23). A obra utiliza um procedimento semelhante ao de Histórias que o nosso cinema não contava, documentário de 2017 que busca uma releitura do período da ditadura a partir de trechos de filmes de “pornochanchada”, o gênero cinematográfico brasileiro mais popular da época.

No caso da websérie capixaba, o diretor se baseou, principalmente, em três raros filmes de longa-metragem produzidos no Espírito Santo naquele período: Obsessão, de Jece Valadão em Castelo (sul do Estado), em 1973; Paraíso no Inferno, dirigido por Joel Barcellos em 1977 – à época considerado “inexibível”, tendo em vista o seu retrato da contracultura em Vitória Cenas; e Quando as mulheres querem provas, comédia erótica filmada em Vitória em 1975 por Cláudio MacDowell, que teve grande sucesso de público. Cenas das obras foram costuradas com as outras imagens de outras obras.

Não foi fácil encontrar o material para a websérie. “Durante os quase dois anos da pesquisa que moldaram o projeto, eu e o produtor Izah Candido encontramos certa dificuldade na hora de definir sobre quais filmes falar, não por vontade nossa, mas porque muitas das obras que tínhamos em mente não estavam disponíveis. Às vezes porque quem detinha os direitos não liberava o uso da obra, outras porque os filmes simplesmente tinham desaparecido. Esse, inclusive, é um dos temas da série”, relata Gustavo Guilherme.

“Obsessão“, filmado em Castelo, é uma das obras utilizadas na websérie. Foto: Divulgação

Nesse sentido, as eventuais “ausências” no projeto acabam por “falar” indiretamente sobre a repressão daquele período. “Apesar de haver muita informação sobre os anos de ditadura, alguns dados permanecem contraditórios e confusos, mesmo depois do trabalho da Comissão Nacional da Verdade. Uma das questões que a websérie tenta levantar tem a ver com isso. É sabido que a censura e as ações diretas cometidas nos anos pós AI-5 contribuíram direta e indiretamente para o desaparecimento de parte do nosso patrimônio cinematográfico, assim como é sabido, também, que houve, no passar dos anos, uma constante desestruturação institucional da preservação dos nossos filmes, mas não existe nenhum dado exato sobre quantas obras foram afetadas naquele período”, comenta Gustavo.

No primeiro episódio da websérie, Gustavo – que fez o projeto em parceira com a revista Reimagem – tenta traçar paralelos entre a violência institucional contra as mulheres e o enredo de Obsessão, que acompanha um prefeito cuja noiva grávida é assassinada, desencadeando uma busca obsessiva pelo culpado. O segundo, Paraíso no Inferno, serve de guia para refletir sobre mecanismos de censura da ditadura. E o terceiro e último enfatiza expressões fascistas, do passado e do presente, a partir de Quando as mulheres querem provas, longa-metragem que explora visões preconceituosas sobre a homossexualidade.

Gustavo Guilherme já havia feito outra websérie em 2023 na qual juntava trechos de outros filmes, Cartografias Poéticas para um (Im)Possível Cinema Capixaba. Naquele caso, porém, a intenção era buscar uma reflexão sobre imagens do Espírito Santo encontradas em filmes produzidos no Estado. Dessa vez, optou por fazer um recorte relacionado ao período ditatorial.

Na opinião de Gustavo, o Espírito Santo vive um de seus momentos mais “interessantes” no que diz respeito ao cinema. Apesar de inserido há tempos dentro da lógica de produção nacional, como mostram os filmes que ele utilizou na websérie, o mercado audiovisual deu um grande salto no território capixaba a partir dos anos 2000.

“Me parece que, depois disso, se consolidou uma produção que é realmente nossa, que não só fala da gente, mas que parte de nós, dos nossos artistas e realizadores, não só falando de assuntos importantes para a nossa cultura, mas também fabulando, criando universos narrativos e experimentais muito vastos, múltiplos e únicos. E isso tem se intensificado muito nos últimos quinze anos. Nosso cinema tem alçado voos altos, marcando presença em janelas de exibição nacionais e internacionais”, conclui.

Serviço:

Websérie Cinema, Poema e Gangrena

Onde assistir: YouTube neste link (episódios 2 e 3 a partir 20 e 23 de abril, respectivamente)

Exibição especial
Local: Cineclube Metrópolis
Data: 24/4
Horário: 20h
Sessão seguida de debate com o realizador.

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