Cesan adiou conclusão definitiva do sistema para o segundo semestre, sem definir data

A história do reservatório do bairro São Benedito, em Vitória, começou nos anos 1970, porém ainda não chegou ao fim. Mais de meio século depois de aparecer nos primeiros projetos para ampliar o abastecimento de água do Território do Bem, a estrutura permanece sem operar plenamente. Questionada pela Defensoria Pública do Espírito Santo (DPES), a Companhia Espírito-Santense de Saneamento (Cesan) reconheceu novos atrasos e adiou a conclusão definitiva do sistema para o segundo semestre deste ano, sem apresentar uma data específica para a entrega.
A resposta da companhia foi encaminhada após cobranças da Defensoria motivadas por reclamações de moradores sobre a continuidade das falhas no abastecimento, especialmente em pontos críticos como a Rua Tenente Setúbal e o Beco Agenor Caetano. No documento, a Cesan afirma que o sistema que atenderá o Território do Bem envolve um conjunto de intervenções avaliadas em aproximadamente R$ 10 milhões, incluindo o reservatório de São Benedito, melhorias no reservatório do Jaburu, uma estação elevatória de água tratada em Gurigica e novas adutoras. A empresa alega que parte das estruturas se encontra em fase de testes e comissionamento, mas ainda faltam duas interligações consideradas essenciais para a entrada definitiva em operação do sistema.
A Cesan atribui os atrasos à demora na obtenção de licenças ambientais na Prefeitura de Vitória, liberadas apenas em agosto de 2024, e à necessidade de adequações no projeto executivo da adutora da Avenida Leitão da Silva após a identificação de interferências no subsolo. Para moradores e lideranças comunitárias, no entanto, a resposta apresentada pela Cesan repete justificativas já utilizadas anteriormente e segue sem oferecer garantias concretas para o fim do desabastecimento.
“É bem superficial, parece uma alegação de que estão tentando resolver uma questão que já era para ter sido resolvida. Como não conseguem, vão apresentando novas explicações. A resposta começa a parecer sempre a mesma”, avalia Gabrielly Almeida, integrante do Fórum de Moradores do Território do Bem.
Ela pondera que dificuldades podem surgir durante a execução de grandes obras, especialmente em uma região marcada por morros e ocupação urbana consolidada. Ainda assim, questiona se os estudos realizados antes do início das intervenções foram suficientes. “Problemas aparecem conforme a obra avança, mas, se foi necessário refazer estudos do solo e realizar novas análises, acho que faltou um pouco mais de profundidade no estudo inicial”, pontua.
Um dos pontos que mais incomodaram os moradores foi a ausência de um cronograma detalhado. No ofício encaminhado à Defensoria, a Cesan informa apenas que a conclusão integral das etapas remanescentes e a entrada plena em operação do sistema estão previstas para o segundo semestre deste ano. “Segundo semestre nós já estamos. Hoje é junho. Vai ser agosto? Setembro? Dezembro? O que a comunidade precisa é de uma resposta concreta, de uma data prevista para finalizar”, reforça a liderança comunitária.
Enquanto a conclusão das obras não acontece, a Cesan afirma que vem adotando medidas mitigatórias para reduzir os impactos do problema, como monitoramento contínuo do sistema, acompanhamento dos reservatórios, pesquisa de vazamentos, adequações operacionais e manobras para reforçar o abastecimento em determinados horários. Mas, na avaliação dos moradores, o resultado dessas ações ainda é limitado e a própria configuração das vias de São Benedito cria dificuldades adicionais. “Aqui temos um problema porque as ruas são estreitas. Muitas vezes o caminhão-pipa não consegue subir totalmente cheio e precisa fazer o abastecimento pela metade para evitar acidentes”, relata.
Além do desgaste causado pelas interrupções constantes, a situação também gera dificuldades para moradores idosos e pessoas que dependem de ajuda para registrar reclamações na Cesan. De acordo com Gabrielly, os efeitos da falta de água também atingem atividades econômicas da região, onde comerciantes acumulam prejuízos diante das interrupções recorrentes no abastecimento.
No último mês de maio, a Defensoria Pública realizou reuniões no território para ouvir moradores, comerciantes e lideranças comunitárias. A partir dos relatos, encaminhou novos questionamentos à Cesan, que resultaram no ofício agora respondido. Gabrielly afirma que, caso não haja avanços concretos nos próximos meses, a mobilização continuará. “Vamos cobrar novamente e recorrer à Defensoria, ao Ministério Público e a quem for necessário, até que essa demanda seja atendida”.
Ela lembra que a reivindicação pela regularização do abastecimento não é recente e atravessa gerações de moradores. “Quando você pesquisa a história da comunidade, vê que esse reservatório já aparecia em projetos lá na década de 1970. É uma luta de muitos anos, e não vamos deixar essa história cair no esquecimento”.
Formado por nove comunidades – São Benedito, Consolação, Itararé, Bonfim, Bairro da Penha, Gurigica, Jaburu, Floresta e Engenharia -, o Território do Bem reúne cerca de 31 mil habitantes. Embora o reservatório de São Benedito tenha sido finalmente construído após décadas de reivindicações, moradores afirmam que a conquista só será completa quando a água chegar de forma regular às residências.

