Evento vai reunir famílias de 36 comunidades nos dias 3 e 4 de julho em Vitória
Nos próximos dias 3 e 4 de julho, famílias de 36 comunidades ocuparão a Praça Costa Pereira, no Centro de Vitória, para a III Feira e Exposição das Mulheres Quilombolas do Espírito Santo. Mais do que um espaço para comercializar alimentos, artesanato e produtos da agricultura familiar, o evento foi concebido como uma estratégia de visibilidade e pressão política pela titulação dos territórios do antigo território do Sapê do Norte, que compreende os municípios de São Mateus e Conceição da Barra, e por reparação histórica e acesso a políticas públicas. “Se o poder público não chega aos quilombos, as mulheres quilombolas vão até ele”, destaca a liderança quilombola Flávia Santos, uma das organizadoras da feira.

Ela explica que a iniciativa surgiu da necessidade de levar a realidade das comunidades para um espaço de maior circulação e proximidade com os centros de decisão política. Com o tema “Memórias do Rio”, a programação integra as atividades do Junho das Pretas e vai reunir mulheres quilombolas de diferentes regiões do Estado para apresentar sua produção, promover debates sobre questões ambientais e reforçar reivindicações históricas relacionadas à permanência nos territórios tradicionais.
Para as organizadoras, ocupar o Centro da Capital é uma forma de tornar visíveis mulheres que frequentemente ficam à margem das políticas públicas voltadas para o campo e para a agricultura familiar. “Às vezes as políticas que chegam para as mulheres urbanas não chegam para as do campo. Então nos organizamos para mostrar ao poder público que nós também produzimos, também somos artesãs, somos agricultoras, e temos direito ao acesso a essas políticas”, enfatiza.
A feira chega à terceira edição enquanto persistem dificuldades para as comunidades quilombolas acessarem financiamentos, programas de incentivo à produção e outras políticas voltadas para o desenvolvimento rural. De acordo com Flávia, um dos principais obstáculos está relacionado à ausência da titulação dos territórios e às barreiras para obtenção do Cadastro Ambiental Rural (CAR). Sem esses instrumentos, muitas comunidades ficam impedidas de acessar linhas de crédito e programas governamentais voltados para agricultores familiares.
“Hoje não acessamos nenhuma política de financiamento, porque não temos titulação dos territórios e não temos o Cadastro Ambiental Rural. Então toda a nossa produção acontece por nossa conta”, relata Flávia. Ela aponta que existem alternativas já adotadas em outros estados que poderiam ampliar o acesso das comunidades quilombolas a essas políticas, como o caso de Minas Gerais, onde o CAR pode ser emitido com base nos relatórios técnicos de identificação dos territórios, mesmo antes da conclusão dos processos de titulação. Por isso, a feira não se limita à exposição de produtos, e também funciona como um espaço de denúncia e reivindicação. “Toda feira é um ato de cobrança por titulação, reparação e acesso às políticas públicas”, destaca a liderança quilombola.
No Sapê do Norte, o principal obstáculo à titulação dos territórios é a presença das empresas de monocultivo de cana de açúcar a de eucalipto, principalmente a Suzano (ex-Fibria, ex-Aracruz Celulose), detentora de centenas de milhares de hectares com monocultivos de eucalipto no Espírito Santo e histórica usurpadora de territórios tradicionais não só de quilombolas, mas também de indígenas e camponeses, tendo atuado junto com a ditadura militar na expulsão e tortura de pessoas nessas comunidades.
Outro foco deste ano sobre os impactos ambientais nos territórios quilombolas são os episódios recentes de contaminação registrados no Rio Angelim pela Usina Alcon. O conceito escolhido para esta edição, “Memórias do Rio”, busca destacar a relação histórica entre as comunidades quilombolas e os cursos d’água que ajudaram a moldar suas formas de vida, cultura e produção.
Também está prevista a exibição do documentário Cartografia Social do Rio Angelim, produzido por Flávia Santos. O filme reúne relatos de moradores mais velhos sobre a história do rio e as transformações provocadas por atividades econômicas que alteraram a paisagem da região. “A base da nossa comunidade é o Rio Angelim. Tudo o que existe nas margens dele faz parte da nossa cultura e da nossa ancestralidade”, exalta.
Segundo Flávia, a produção resgata lembranças de um período anterior à expansão de monoculturas como o eucalipto e a cana-de-açúcar, mostrando como essas atividades impactaram o território e os modos de vida locais. A discussão ambiental também aparece na valorização de elementos tradicionais da cultura quilombola. Um deles é o dendê, cuja presença foi reduzida em diversas áreas devido ao avanço das monoculturas. “O dendê fortalece a nossa ancestralidade dentro do território. Mesmo com todas as dificuldades, a gente continua reproduzindo os pés de dendê nos quintais e nas retomadas para produzir nossos óleos”, conta.
Os produtos levados para a feira expressam essa relação entre cultura, território e resistência. O público poderá encontrar artesanatos produzidos com fibras naturais, farinha, beijus de diversos sabores, tapioca, doces, hortaliças, temperos, óleo de coco, óleo de dendê e outros itens oriundos da agricultura familiar quilombola. Flávia ressalta que grande parte dessa produção é resultado das retomadas realizadas pelas comunidades em áreas reivindicadas como territórios tradicionais.
Para as organizadoras, comercializar esses produtos significa muito mais do que gerar renda. É uma forma de fortalecer a permanência das famílias nos territórios e garantir que conhecimentos tradicionais continuem sendo transmitidos entre gerações. “É uma luta para que a nossa cultura permaneça no território. Para que nosso povo, nossas mulheres e nossos jovens também permaneçam ali”, pontua.

