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Pedal Antipetroleiro denuncia avanço de portos e da indústria fóssil no Estado

Mobilização propõe debate para avaliar impactos ambientais e sociais

Instituto Social Capixaba

“As mudanças ambientais não são fenômenos da natureza por si só, mas resultado da intervenção de um pequeno grupo que lucra com essa tragédia. A mensagem que queremos levar é essa: cada vez mais vemos escassez de alimentos, de pescado e águas contaminadas”. Com esse alerta, o técnico ambiental e pescador artesanal Paulo Henrique Ling, representante do Instituto Social Capixaba e um dos organizadores do Pedal Antipetroleiro, resume o objetivo da mobilização que será realizada entre domingo (2) e quarta-feira (5), partindo de Cariacica, na Região Metropolitana, até Piúma, no sul do Estado.

A programação une pedalada, manifestações e atividades culturais para questionar a expansão da indústria do petróleo e de grandes empreendimentos portuários, como o Porto Central, em Presidente Kennedy, no sul do Estado, além de cobrar maior debate público sobre os impactos ambientais e sociais desse modelo de desenvolvimento. O formato da manifestação busca representar uma alternativa ao modelo energético defendido pela indústria petrolífera, explica Ling. “A gente consegue trazer uma nova linguagem de manifestação. Como o tema é contra a indústria petroleira, nada melhor do que o pedal para mostrar a questão da energia através da bicicleta, como uma forma de mobilidade urbana que não polui”, observa.

As atividades começam no domingo, em Cariacica, onde também será realizado o Sarau Antipetroleiro, que reúne poesia, música, teatro e outras manifestações culturais. No dia seguinte pela manhã, acontece um ato político e apresentação da peça teatral “Capitalismo da Destruição” na Praça Costa Pereira, em Vitória. O pedal segue para Piúma, onde acontecem atividades com pescadores e marisqueiras. Finalizando a programação, na terça e quarta-feira, em Presidente Kennedy, a campanha contra a expansão portuária e fóssil se alia à Festa de Nossa Senhora das Neves, com manifestações e apresentações culturais em espaço cedido pela Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, contra a construção do Porto Central na região que abriga restingas, manguezais, Mata Atlântica e territórios ecologicamente sensíveis.

O empreendimento está previsto para ser instalado no entorno da igreja de Nossa Senhora das Neves, datada de 1694, que “ficará ilhada em meio ao parque industrial”, de um lado por um estacionamento dos caminhões, e do outro, por estruturas para estocagem de tonéis de até 20 metros de altura. Além disso, a estrada do santuário vai desaparecer, para dar lugar ao canal de acesso do porto. Na festa do último ano no santuário da padroeira, o bispo Dom Luiz Fernando, da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, também contestou o empreendimento, diante do “lastro de destruição” que ameaça “a vida, a fé e a subsistência de centenas de famílias”.

Rosi Miliotti

“Vai ser um porto que vai atuar com várias empresas, desde a mineração até empresas de petróleo. Junto vêm termelétricas, dutos para transporte de gás e toda uma cadeia industrial”, afirma Ling. Embora o Porto Central continue sendo o principal alvo da mobilização, ele aponta que o empreendimento representa apenas uma parte de um processo mais amplo de expansão da cadeia do petróleo e da logística no Estado, que atraem uma série de atividades industriais ligadas ao petróleo, gás e mineração.

Assim como na edição anterior da campanha, os organizadores apontam impactos relacionados a empresas como Vale, ArcelorMittal, Suzano, Petrobras, Shell, BP (British Petroleum), Petrocity, Bunker One, Porto Central S.A., TIL – Terminal Industrial de Líquidos, Van Oord e Port of Rotterdam, que integram ou podem integrar a cadeia logística e industrial associada aos empreendimentos. Segundo o movimento, esse modelo amplia a pressão sobre comunidades tradicionais, áreas de preservação e atividades econômicas como a pesca artesanal.

Entre as principais preocupações apontadas pelos organizadores estão a supressão de vegetação nativa, alterações na dinâmica costeira, riscos para manguezais, restingas e ecossistemas marinhos, além da poluição do ar e da água decorrente da intensificação das atividades industriais e do transporte de cargas. Ling afirma que o Espírito Santo ainda não enfrentou acidentes de grandes proporções envolvendo exploração de petróleo, como os registrados na Baía de Guanabara e na Bacia de Campos, mas considera que o Estado está exposto aos mesmos riscos.

Além dos impactos ambientais, a campanha questiona a destinação dos investimentos públicos para a cadeia do petróleo em detrimento de políticas voltadas à mobilidade urbana. “O investimento vai para a indústria petroleira e não para a mobilidade urbana. Apesar de Vitória ter alguns trechos com ciclovias, nas periferias elas praticamente não existem e a gente disputa espaço com carros que poluem”, critica

Outro eixo da mobilização é o questionamento ao discurso de geração de empregos utilizado para justificar grandes empreendimentos. Apesar da narrativa que defende expansão da indústria fóssil, Ling observa que a maior parte das vagas de trabalho geradas ocorre apenas durante a implantação das obras e não permanece após a entrada em operação dos projetos. “Eles falam em riqueza e geração de empregos, mas isso não acontece como é divulgado. Os empregos permanentes são poucos e muitos trabalhadores vêm de fora”, reforçou.

Na avaliação do ambientalista, municípios que recebem grandes obras acabam enfrentando uma sobrecarga dos serviços públicos. “Chega uma empresa dessa em uma cidade pequena e mobiliza milhares de trabalhadores. Isso gera impacto na saúde, na educação, na violência urbana, principalmente contra as mulheres. É um desastre em cadeia”, enfatiza. Na edição do ano passado da campanha, representantes da mobilização já haviam alertado para possíveis impactos semelhantes aos registrados em outras regiões portuárias capixabas, como aumento da violência, pressão sobre os serviços públicos e redução da atividade pesqueira.

Em ano eleitoral, a campanha também pretende cobrar posicionamentos em relação à continuidade da política de expansão logística no Espírito Santo. Os organizadores analisam a promoção de grandes empreendimentos logísticos, a exemplo do anúncio do governador Ricardo Ferraço (MDB) da criação do ParkLog Sul Capixaba, enquanto temas como transição energética e mudanças climáticas permanecem em segundo plano. “A gente quer provocar esse debate no meio político e cobrar posicionamento dos candidatos. A transição energética e a mudança climática praticamente não entram na pauta política. Quando entram, aparecem de forma muito superficial”, avalia.

O ParkLog Sul foi anunciado em maio com a proposta de integrar a infraestrutura portuária, ferroviária, rodoviária, aeroportuária e energética, incluindo empreendimentos como o Porto Central, em Presidente Kennedy, e o Porto de Ubu, em Anchieta. À época, pesquisadores e movimentos sociais ouvidos pelo Século Diário classificaram o programa como mais um projeto voltado à expansão logística sem debate com as populações atingidas, questionando a viabilidade econômica, a necessidade de novos portos e os impactos ambientais e sociais associados.

Criado em 2008 para denunciar impactos da exploração de petróleo, gás natural e monoculturas de eucalipto no litoral capixaba, o Pedal Antipetroleiro já superou as expectativas de público e precisou encerrar as inscrições no primeiro dia de divulgação. “A gente abriu 50 vagas, mas o vídeo de divulgação passou de 9,6 mil visualizações e tivemos cerca de 140 inscrições. Tivemos que retirar o link porque não temos estrutura para receber tanta gente”, relata Ling.

Para os organizadores, a proposta é fortalecer o debate que trata dos impactos da indústria fóssil, incentivar a participação popular nas decisões sobre grandes empreendimentos e pressionar candidatos e gestores públicos a se posicionarem em relação aos impactos desses empreendimentos em ano eleitoral. “A mensagem é alertar a sociedade de que as mudanças ambientais não acontecem por acaso. Elas são resultado de um modelo que beneficia um pequeno grupo interessado apenas no lucro. A gente quer mobilizar cada vez mais pessoas para discutir essas escolhas e cobrar posicionamento dos responsáveis”, conclui Ling.

Documentário

Em 2025, o protesto ciclístico foi registrado em documentário dirigido e produzido por Brennon Lírio, que acompanhou o percurso de três dias, percorrendo o litoral do Espírito Santo de Cariacica a Presidente Kennedy. O trabalho mostra, por meio de depoimentos e imagens, os potenciais impactos sociais e ambientais do projeto do Porto Central, dando voz às comunidades locais e abordando riscos a patrimônios culturais e ecossistemas.

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