Usina Alcon é novamente apontada como responsável por contaminação do rio Angelim

Moradores da Comunidade Quilombola Angelim II, em Conceição da Barra, norte do Estado, denunciam um novo caso de contaminação do rio Angelim provocado pelo rompimento de uma abraçadeira em uma tubulação utilizada pela Usina Alcon para o transporte de vinhoto, resíduo resultante da destilação da cana-de-açúcar. Segundo os relatos, o vazamento alcançou o curso d’água e provocou a morte de peixes ao longo do rio, que é utilizado diariamente pelas famílias para banho, alimentação, lazer e atividades culturais.
Os primeiros sinais da contaminação foram percebidos por moradores que frequentam o rio. De acordo com a liderança quilombola Flávia dos Santos, mulheres da comunidade encontraram peixes mortos e começaram a seguir o percurso da água até localizarem a origem do problema. “Elas chegaram até as encanações e notaram que quebrou uma abraçadeira da encanação da Alcon. Esse vinhoto começou a cair e foi direto para o Rio Angelim”, explica.
Flávia afirma que o forte odor também chamou atenção dos moradores. O material vazado escorreu por áreas próximas ao rio e atingiu uma represa existente no território, espalhando a contaminação pela água. “É muito forte o cheiro. Caiu exatamente em um ponto que deságua no rio Angelim e matou vários tipos de peixe”. Ela ressalta que há preocupação de a contaminação ter avançado para outros cursos d’água da região, já que o rio Angelim deságua em outros rios do território.
A comunidade teme ainda impactos na saúde da população e no modo de vida tradicional. “O rio, para a gente, não é só um lugar de pesca. É onde as crianças brincam, as famílias tomam banho, a comunidade realiza atividades. É um patrimônio cultural da nossa comunidade”, destaca.
Episódios semelhantes já aconteceram em outros períodos de safra da cana-de-açúcar. Flávia afirma que o rio Angelim sofreu contaminações recorrentes durante anos e chegou a ficar praticamente sem vida aquática. Diante da ausência de providências, a própria comunidade organizou ações de recuperação ambiental ao longo das últimas décadas. “A gente faz mutirão, e introduziu peixes de outros rios para tentar recuperar a vida do Angelim. Todo trabalho de recuperação sempre foi feito pela comunidade, de forma voluntária”, pontua.

A comunidade acionou órgãos ambientais e instituições de controle, como o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema) e o Ministério Público Federal (MPF), para pedir investigação do caso, mas até o momento, nenhuma equipe técnica foi ao território orientar os moradores sobre medidas de segurança relacionadas ao consumo da água e dos peixes. “Ninguém chegou para orientar a comunidade sobre não entrar na água, não consumir os peixes ou explicar quais riscos estamos correndo”, reitera Flávia.
Os moradores cobram análises urgentes da água, identificação das responsabilidades e medidas de reparação ambiental. Flávia avalia que o caso também evidencia um histórico de racismo ambiental enfrentado pelas comunidades tradicionais do Sapê do Norte, região marcada pela presença de monocultivos de eucalipto da Suzano Papel e Celulose (ex-Aracruz Celulose e ex-Fibria) e cana-de-açúcar, que compreende além de Conceição da Barra, o município de São Mateus.
“A Alcon nunca sofreu um embargo, então a gente entende que existe uma estrutura de racismo ambiental. O impacto cai sempre sobre os territórios negros e tradicionais”, observa. A liderança quilombola relaciona a situação a um modelo econômico que historicamente impõe impactos ambientais sobre comunidades tradicionais negras sem garantir responsabilização efetiva das empresas envolvidas.
“As empresas, o capitalismo e o agronegócio estão aí para destruir o que é sustentável, principalmente quando envolve comunidades negras e tradicionais. A justiça não pode se isentar de fazer o seu papel, que é cobrar e fazer com que exista recuperação desses impactos ambientais, porque não é só um rio afetado, é o nosso modo de vida, a nossa sustentabilidade, a nossa alma e o nosso espírito”, enfatiza.
A liderança também relaciona os impactos à falta de titulação definitiva dos territórios quilombolas. “Se nosso território estivesse titulado, talvez esses empreendimentos estivessem mais afastados da comunidade. A gente teria mais rio recuperado, mais água e menos impacto ambiental”, projeta.

