Família de Emmanuel 7Linhas se mobiliza após assassinato e deputada cobra apuração

Em meio ao baque pela perda repentina, família e amigos do artista Luiz Emmanuel Pinto, mais conhecido como Emmanuel 7Linhas, uma das vítimas de um ataque a tiros ocorrido em Vila Velha na sexta-feira (8), se mobilizam para cobrir custos com velório e outras despesas por meio de uma vaquinha. Paralelamente, a deputada estadual Camila Valadão (Psol), presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, enviou um ofício nesta segunda-feira (11) ao delegado-geral da Polícia Civil do Estado (PCES), Jordano Bruno, reforçando pedido por providências sobre o caso.
No ofício, a deputada destacou ser imprescindível que a investigação considere todas as hipóteses para a motivação do duplo homicídio, “inclusive eventual crime de ódio, execução ou violência direcionada contra pessoas em situação de vulnerabilidade social e defensores populares, garantindo-se a devida apuração dos fatos sem estigmatização das vítimas”.
Além do pedido para que se empreendam todos os esforços para identificação e localização dos autores e eventuais mandantes do crime, a deputada também solicitou que sejam adotadas medidas de proteção e acolhimento às testemunhas e familiares das vítimas, diante do contexto de medo e silêncio relatado pela comunidade local; e que sejam encaminhadas informações oficiais à comissão acerca das providências adotadas pelas autoridades competentes.
Mayrianne Mattos, filha de Emmanuel 7Linhas, conta que teve contato com Camila Valadão durante o velório do artista, no sábado (9). “Como ativista, meu pai denunciou essa violência, e foi vítima dela. Desde que eu nasci, ele é envolvido com cursinhos populares para ajudar as pessoas a entrar nas universidades. A arte dele sempre foi de protesto. Ele tem inclusive uma poesia chamada Pátria Armada, que fala sobre essa violência do Estado”, relata.
O crime ocorreu na madrugada de sexta-feira, por volta de 1h, na rua Cruzeiro do Sul, no bairro Ibes. O artista tinha ido até a casa de um amigo e, na volta, passou por uma região onde ficam pessoas em situação de rua. No local, estava interagindo com uma mulher identificada como Kézia Kelly Aristides Miranda, uma catadora de materiais recicláveis a quem tentava ajudar. O artista costumava fazer ações junto à população de rua.
Foi então que, segundo relatos de uma testemunha à polícia, dois homens passaram pela rua em uma moto. Na segunda passagem, realizaram diversos disparos de arma de fogo. Os tiros acertaram Emmanuel e Kézia, que faleceram, e um outro homem em situação de rua, que foi atendido pela equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), sendo encaminhado ao Hospital Antônio Bezerra de Faria.
A família de Emmanuel 7Linhas soube do ocorrido apenas na tarde de sexta-feira, por meio de um conhecido que foi até a residência deles. Estudante de Medicina na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Mayrianne tinha passado a noite na casa do namorado, em Vitória, e depois foi para as atividades do curso.
A filha do artista resolveu divulgar a vaquinha para ajudar com os custos do velório, no valor de R$ 4,4 mil. O montante já foi alcançado, mas a arrecadação continua em aberto. O dinheiro arrecadado servirá para auxílio jurídico na luta por justiça e também para contribuir com apoio à filha mais nova de Emmanuel 7Linhas, de apenas 11 anos, que fez aniversário na semana do assassinato. Houve uma pequena festa nesse domingo (10), que já estava planejada, e a menina vestiu uma camisa do pai.
“Eu fiquei preocupada com a minha avó, de ela ter essa dívida, porque é uma pessoa de idade e tem as despesas dela com saúde. Meu curso de Medicina é em tempo integral, e eu só recebo um auxílio com valor muito baixo. Desde que meu pai morreu, a gente tem recebido muitas mensagens, muita gente disposta a ajudar. Meu pai, apesar de não ter tanto dinheiro, sempre foi uma pessoa que se mobilizava para ajudar os outros”, explica Mayrianne.
Emmanuel 7Linhas faria 46 anos no mês que vêm. No dia da sua morte, ele tinha uma entrevista de emprego. Apesar do sonho de viver da sua arte, sabia das dificuldades e buscava mais recursos para ajudar a sustentar a família.
Um dia antes do ataque a tiros no Ibes, ele fez um comentário em uma postagem do cartunista Mindu Zinek sobre o assassinato de Vanilson Ferreira, um homem em situação de rua da Serra. Emmanuel comentava que a violência contra essa população havia aumentado.
“Guardas municipais nazifascistas, piores que os policiais militares, agredindo a população de rua como se fossem nada; os cidadãos de bem também, que podem passar atirando nos mocós dos irmãos, fora a guerra entre traficantes. Perdi uma irmã querida no início desse ano, infelizmente. Não conseguimos tirar ela das ruas, ela já tinha alugado um quarto mas a máquina de moer gente não perdoa. Amada Silvia, era uma pessoa boa e deixou seu menino órfão”, afiirmou.
O assassino de Vanilson Ferreira foi um homem classificado pela polícia como exterminador de ‘moradores’ em situação de rua”. No último 29, dois vigilantes de uma empresa particular de segurança pública foram presos acusados de sequestrar, torturar e matar uma pessoa em situação de rua que estava na Praia do Suá, em Vitória. Outros seis funcionários estariam envolvidos no crime. Além desses crimes, no último dia 22, a polícia prendeu em flagrante um indivíduo de 30 anos, suspeito de atear fogo no corpo de um homem em situação de rua, de 33 anos, em Nova Almeida, na Serra.
Enquanto isso, em Marataízes, no litoral sul do Estado, o policial militar Vinicius Vidal, mais conhecido como Cabo Vidal, tem se notabilizado nas redes sociais por fazer vídeos com abordagens agressivas a pessoas em situação de rua. O policial é pré-candidato a deputado estadual pelo MDB.

Produção artística
Emmanuel 7Linhas era multiartista: cantor, compositor, escritor, ator, bailarino, dentre produções em outras linguagens. Conhecido por participar de saraus e apresentações de rap, a notícia de sua morte causou grande comoção nas redes sociais.
A jornalista Elaine Dal Gobbo conheceu Emmanuel no início dos anos 2000, quando ambos eram estudantes na Ufes – ela de Comunicação Social e ele de Filosofia (curso que 7Linhas não concluiu). Voltaram a se falar durante a pandemia de Covid-19.
“Uma lembrança linda que tenho dele foi quando me convidou para participar de uma ação solidária em Itararé. Lá estava funcionando uma cozinha solidária. Ele teve a ideia de coletar livros para distribuir para as pessoas que iam pegar a marmita. Ele pediu doações para vários escritores capixabas, para sebos e editoras. Fomos para Itararé. Fiquei maravilhada com o carinho, a sensibilidade e o respeito com que ele tratava as pessoas”, relembra.
O artista também estava próximo de lançar um livro de poesias, intitulado Ego Distônico. Saulo Ribeiro, amigo do autor e responsável pela editora Cousa, conta que está tudo pronto, restando apenas a impressão. Emmanuel quis aguardar o resultado de um edital público, no qual foi aprovado, mas teve problemas burocráticos e não conseguiu acessar os recursos. Mesmo assim, Saulo estava disposto a lançar a obra, o que agora deverá fazê-lo em breve, em um evento em homenagem ao artista.
“Nosso primeiro gesto, diante do que a mídia vinha divulgando sobre a morte de uma pessoa em situação rua, foi de mostrar quem era o Emmanuel, um poeta importante que nós perdemos. Agora, vamos começar a cobrar as autoridades a resolução desse caso”, afirma Saulo.

