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Policial divulga abordagens agressivas a pessoas em situação de rua

Pré-candidato, Cabo Vidal, de Marataízes, tem perfil movimentado nas redes sociais

Redes sociais

“Chega uma determinada hora da vida que você tem que decidir: ou você se acovarda e fica assistindo de camarote, ou você entra na guerra. E eu decidi entrar nessa guerra. A população já não aguenta mais”.

A fala é do policial militar Vinicius Vidal, mais conhecido como Cabo Vidal, registrada em um dos diversos vídeos de seu perfil no Instagram nos quais divulga abordagens agressivas a pessoas em situação de rua em Marataízes, no litoral sul do Estado. O PM costuma aparecer à paisana, desacompanhado, utilizando uma camisa preta em que se lê: “choque de ordem”.

Além de policial, Vidal mantém um curso preparatório para quem deseja tentar carreira na Polícia Militar. Ele também foi candidato a vereador pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB) em 2024 e se coloca como pré-candidato a deputado estadual este ano, tendo inclusive participado de evento com a presença do governador Ricardo Ferraço.

No vídeo em que declarou sua decisão de “entrar na guerra”, postado no último dia 15, Cabo Vidal aparece abordando uma pessoa em situação que estava em uma cabana montada em frente a um estabelecimento comercial. Ele diz que foi ali avisado pelo “dono”, pede que o homem se levante e entregue a ele uma faca.

Em seguida, começa a pegar os pertences da pessoa e a jogar no lixo. Em determinado momento, se dirige ao homem dizendo que sabe que ele tem “dependência química” e precisa ser atendido por um “projeto”, mas que a população “não pode pagar por isso”. Há outros vídeos semelhantes, no qual aparece limpando locais utilizados por pessoas em situação de rua em Marataízes.

“Certamente é uma pessoa sem respeito à vida dos outros e que não tem conhecimento nenhum de políticas públicas. A atitude dele é lamentável, agride as pessoas e retira seus pertences do local em que estão. Essas pessoas não estão na rua porque escolheram, cada uma delas tem uma história e carrega consigo muita coisa”, critica Siqueli Pimentel da Silva, coordenadora da Pastoral do Povo de Rua da Arquidiocese de Vitória.

Além disso, continua Siqueli, “qualquer cidadão tem direito de permanecer nas calçadas públicas. Criar uma conversa, escutar, cobrar da prefeitura políticas públicas para ajudar a população, isso sim são atitudes dignas para auxiliar qualquer ser humano. Gritar e usar de violência não resolve nenhuma situação”. A coordenadora da Pastoral ressalta, ainda, que abordagens violentas à população de rua devem ser coibidas pelos órgãos competentes, tendo em vista que configuram crime.

A Prefeitura de Marataízes também se posiciona contra as abordagens agressivas. “Nossa Guarda Municipal age rapidamente, sempre em apoio à Polícia Militar, quando há ocorrência de delitos cometidos por moradores em situação de rua, mas não podemos simplesmente destruir os abrigos, seus pertences e, principalmente, agredi-los só por estarem na rua. Além de desumano, é absolutamente ilegal”, comenta o secretário de Defesa Social e Segurança Patrimonial de Marataízes, Áureo Falcão.

O secretário municipal de Assistência Social, Habitação e Trabalho, Cleverson Maia, relata que houve um aumento do número de pessoas em situação de rua no município desde novembro de 2024, após a inauguração de um Centro de Referência Especializado à População em Situação de Rua (Centro Pop).

“Infelizmente, é comum abordarmos moradores em situação de rua que relatam que estavam em outros municípios, mas que foram enviados para Marataízes, às vezes pelas próprias prefeituras, sob a alegação de que aqui tem Centro Pop, então estariam fazendo um favor para eles. Mas o nosso Centro Pop fica sobrecarregado. Além do mais, só atendermos aqueles que, voluntariamente, buscam atendimento, o que é um número pequeno diante do todo”, afirma Cleverson.

De acordo com relatórios da prefeitura, o Centro Pop de Marataízes fez 232 atendimentos durante o último mês de março. Entretanto, Siqueli Pimentel da Silva descarta que a inauguração de um equipamento de referência seja colocado como causador do aumento do número de pessoas nessa situação.

“Isso não condiz. Toda cidade onde existem pessoas em situação de rua em grande número tem o Centro Pop para atender essa população, que cresceu muito após a pandemia, principalmente. Certamente, quando não havia o atendimento, essas pessoas ficavam mais espalhadas. Mas a construção desses equipamentos serve justamente para ajudá-las”, avalia.

Uma pesquisa feita pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), aponta que o Espírito Santo terminou o ano de 2025 com 4,5 mil pessoas em situação de rua, o maior índice dos últimos cinco anos.

Agressões

Século Diário teve acesso a um vídeo que teria sido registrado em Marataízes no dia 25 de maio de 2024, que mostra um homem dando um soco em uma pessoa em situação de rua. A identidade do autor da agressão tem sido atribuída a Cabo Vidal, mas não é possível assegurar essa informação pelas imagens.

Procurado por Século Diário, Cabo Vidal afirmou que foi absolvido em uma sindicância relacionada ao caso de 2024 por “falta de provas”, mas não se manifestou sobre o vídeo. Ele também fez acusações contra a vítima da agressão. “Esse cara que dizem que eu agredi já tentou estuprar várias mulheres, eu tenho as mulheres aqui como testemunhas”, comentou. Vidal também elencou diversos outros crimes que supostamente teriam sido cometidos por pessoas em situação de rua no município, afirmando que ele é que tem sido alvo de agressões e ameaças.

O policial militar disse ainda que é vítima de “fake news” e “perseguições”, e que não pretende parar com a sua controversa atuação nas ruas. “Vou te adiantando que vai ter mais vídeos [nas redes sociais]”, assegurou.

Paralelamente à divulgação de conteúdos como os do Cabo Vidal, surgem casos de agressão a pessoas em situação de rua. Nessa quarta-feira (22), passou a circular nas redes sociais um vídeo de um homem amarrado a um poste no bairro Santa Tereza, em Marataízes. Ele teria sido espancado após acusação de praticar um furto. Um outro homem em situação de rua foi assassinado no município em fevereiro, e o homicídio teria sido motivado por dívidas de drogas.

Século Diário solicitou à Polícia Militar e à Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp) informações sobre a sindicância envolvendo Cabo Vidal e a respeito de apurações sobre casos de agressão a pessoas em situação de rua em Marataízes, bem como um posicionamento a respeito da atuação do agente público nas redes sociais. Não houve retorno até o fechamento desta matéria.

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