Políticos capixabas repetem justificativa sobre financiamento de banqueiro a filme

Políticos de extrema direita do Espírito Santo reagiram prontamente às revelações de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato a presidente, negociou com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, R$ 134 milhões para financiar o filme Dark Horse (“azarão”, em tradução literal), sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A maioria se satisfez com a justificativa do próprio Flávio, segundo a qual ele estava apenas “correndo atrás de recursos privados para a obra, sem contrapartidas”, para tentar minimizar os danos políticos do fato.
O senador Magno Malta, presidente do Partido Liberal no Espírito Santo, publicou um vídeo nessa quarta-feira (12), logo após as revelações, dizendo que Daniel Vorcaro “é a própria lama”, mas que continuava “dando voto de confiança” para Flávio. Ele defendeu, também, a abertura da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Banco Master, porque o banco “precisa ser passado a limpo”.
Colega de Magno no Senado Federal, Marcos do Val (Avante) também defendeu a tese de que a interação se tratou exclusivamente de pedido de financiamento para o filme. Do Val quis demonstrar “conhecimento de causa” ao falar que ele mesmo participou da produção da obra Tropa de Elite como instrutor e sua empresa aparece nos créditos finais. Ele também criticou o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), por ter mirado em Flávio após a denúncias, citando manchete de jornal que diz que o pai de Daniel Vorcaro, preso nesta quinta-feira (14), doou R$ 1 milhão para o diretório do partido Novo em Minas Gerais.
O deputado federal Gilvan da Federal (PL) seguiu na mesma toada em postagem nas redes sociais. “Flávio Bolsonaro realizou um financiamento privado do filme sobre a trajetória de seu pai, assim como já ocorreu com produções sobre Lula e Temer. Um acordo firmado com um patrocinador, da mesma forma que foi estabelecido com outros apoiadores. Algo bem distinto de verbas repassadas a escritório de advocacia para exercer tráfico de influência com ministro e de transações ligadas à suposta fraude na venda do banco ao BRB. A maior demonstração de idoneidade é permanecer firme na defesa da CPMI do Banco Master”, comentou.
Messias Donato (União), que está na Câmara dos Deputados junto com Gilvan, também respostou o vídeo de Flávio se explicando. No final da sessão dessa quarta-feira na Câmara, Donato teve um entrevero com André Janones (Rede-MG), que discursou com críticas à extrema direita. Após o deputado capixaba provocá-lo relembrando acusações de rachadinha no gabinete de Janones, os dois chegaram a se encarar no Plenário.
Entre representantes da Assembleia Legislativa, os deputados Lucas Polese e Capitão Assumção, do PL, e Alcântaro Filho (Republicanos) também fizeram publicações em defesa de Flávio Bolsonaro e pedindo abertura de CPMI do Banco Master. Assumção reforçou, ainda, as críticas a Romeu Zema.
O deputado Callegari (DC), por sua vez, defendeu Flávio, mas demonstrou mais cautela. Em vídeo publicado nas redes sociais nesta quinta-feira (14), ele disse que “demorou um tempo” para se pronunciar porque estava “estudando o assunto”. Na visão dele, “até o presente momento”, não é possível falar de “crime” nos áudios do senador com Daniel Vorcaro. Apesar disso, ressaltou que “não passa pano pra ninguém” e que pode mudar de opinião se houver novas revelações. Além disso, defendeu a possibilidade de uso da Lei Rouanet, tão atacada pela extrema direita, em produções como a do filme sobre Jair Bolsonaro, e também criticou Zema pelo posicionamento no caso.
Até o fechamento desta matéria, Século Diário não identificou manifestação do deputado federal Evair de Melo (Republicanos) sobre o caso, o que é uma ausência notável, tendo em vista a relação próxima do parlamentar capixaba com a família Bolsonaro.
O áudio e as investigações
O site The Intercept Brasil revelou a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro em reportagem publicada nessa quarta-feira (13). Um áudio de Flávio divulgado pelo jornal mostra o senador cobrando parcelas de um acordo com o banqueiro para cobrir gastos com o filme Dark Horse, apesar de ele se mostrar constrangido e reconhecer supostas dificuldades de Vorcaro. “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, disse.
A troca de mensagens – alvo das investigações da Polícia Federal sobre a fraude do Banco Master – teria ocorrido no dia 16 de novembro de 2025, um dia antes da prisão de Daniel Vorcaro. O The Intercept Brasil afirma, citando documentos e trocas de mensagens, que Vorcaro se comprometeu a repassar 24 milhões de dólares (na época, cerca de R$ 134 milhões) para financiar o filme. Desse montante, cerca de R$ 61 milhões teriam sido efetivamente pagos a Flávio.
Questionado sobre o assunto na manhã de quarta, antes da publicação da matéria, durante uma coletiva de imprensa realizada próxima ao Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília, Flávio deu uma gargalhada e classificou a informação como “mentira”. Após a publicação, divulgou um vídeo confirmando a interação com Vorcaro, mas dizendo que estava apenas correndo atrás de financiamento privado para o filme, “sem Lei Rouanet”, e que não tinha conhecimento das irregularidades envolvendo o banqueiro na ocasião. Ele disse ainda que conheceu Vorcaro apenas em 2024, quando Jair Bolsonaro estava fora da Presidência, e defendeu também a CPMI do Banco Master.
Entretanto, ainda existem questões que ainda carecem de maior aprofundamento. Tanto a produtora do filme, a Group Entertaiment, quando o deputado federal Mário Frias (PL), produtor-executivo da obra, negaram o recebimento de investimentos de Daniel Vorcaro. Segundo reportagens da imprensa nacional, a Polícia Federal (PF) desconfia que pelo menos uma parte do dinheiro possa ter sido usada para cobrir despesas de Eduardo Bolsonaro, deputado federal cassado e irmão de Flávio, que está nos Estados Unidos.
Além disso, de acordo com o jornal O Globo, o financiamento de Vorcaro corresponde a um montante muito acima do praticado no mercado nacional, superando até mesmo orçamentos de grandes produções internacionais que ganharam o Oscar.

