Os períodos eleitorais sempre impulsionam algumas análises ou, no mínimo, levantam debates sobre as características e movimentações do eleitorado. Neste ano, no Espírito Santo, há alguns casos importantes em que certos políticos souberam utilizar cenários teoricamente desfavoráveis para manter o poder, assim como também existem municípios que, na contramão do óbvio, acabaram com longas sequências quase dinásticas de mandatários de um mesmo grupo político ou até de famílias que já permaneciam há décadas no controle.
Sobre esta questão, os principais exemplos são os de Linhares e Viana. A primeira cidade, ao eleger Nozinho Correa (PDT) para a prefeitura, interrompeu o revezamento de praxe entre Guerino Zanon (PMDB) e Zé Carlos Elias (PTB) no município. O caso de Viana, apesar de ligeiramente diferente, talvez seja ainda mais emblemático. A eleição do vereador Gilson Daniel (PV) para a próxima gestão do Executivo municipal, terminou com uma hegemonia de quase duas décadas da família Lube e de seu grupo político na cidade. Com mais de 63% dos votos válidos, o PV impôs uma derrota significativa à deputada estadual e ex-prefeita Solange Lube (PMDB).
Aumentando a aparente força do discurso da novidade – que o resultado de alguns municípios como Vitória e Cariacica parece consolidar –, estas eleições também mostraram que há indícios de uma grande resistência à influência eleitoral dos “medalhões” da política. Foi o caso de Itapemirim e Cachoeiro de Itapemirim, no sul do Estado. Essas cidades, para o espanto de quem acreditava que não há mais espaço em cenários de domínio dos grandes Golias da política, quebraram o favoritismo dos candidatos do deputado estadual Theodorico Ferraço (DEM), elegendo os seus opositores.
Acostumado a influenciar nos processos políticos do Estado – principalmente na região sul –, o presidente da Assembleia Legislativa não conseguiu fazer com que o seu capital político definisse as eleições das duas cidades. Em Cachoeiro, Theodorico preferiu entrar de cabeça na campanha de seu companheiro de legislativo Glauber Coelho (PR) ao invés de se candidatar ao Executivo do município, mas sofreu dura derrota para Casteglione (PT) no disputadíssimo pleito. Já em Itapemirim, Estevão (PMDB) – candidato à sucessão da mulher de Ferraço, Norma Ayub (DEM) – perdeu para Dr. Luciano (PSB).
Esses exemplos podem aparecer para os analistas como um movimento de parte significativa da população de não tolerar que as prefeituras sejam tratadas como heranças familiares – ou mesmo que tenham suas eleições definidas pelos políticos antes mesmo da votação. Para estas cidades, o julgamento pode até ser certo. Mas, pelo resultado das eleições deste ano, o quadro não parece ser geral.
O município com votação que traz mais elementos para a contramão da tese anti-dinastias parece ser Presidente Kennedy (litoral sul do Estado). O caso é central principalmente porque, no período pré-eleitoral, a cidade explodiu com diversas denúncias de irregularidades em contratos da gestão do prefeito Reginaldo Quinta (PTB), que supostamente comandou as fraudes. A investigação, conhecida como Operação Lee Oswald, resultou na prisão do prefeito, juntamente com diversos servidores e empresários.
Quinta, que era candidato à reeleição – mesmo com as acusações estalando em sua cabeça –, ao perceber que seu mandato poderia ser cassado, colocou em seu lugar na disputa a sua sobrinha, Amanda Quinta. Longe de tentar desqualificar a capacidade de análise política do eleitorado da cidade, era de se esperar que a população tivesse alguma resistência à nova candidata, já que – apesar do sobrenome – ela não tem histórico político. Além disso, o município está sob intervenção da Justiça, o que teoricamente aumentaria ainda mais a desconfiança. Mas não. Mesmo em tempos de ficha limpa, em que o discurso da ética na política pesa até mais que as propostas ou a filiação partidária dos candidatos, Amanda venceu e convenceu com maiúsculos 57,65% dos votos válidos. Reginaldo Quinta realmente parece ter o controle do município em suas mãos.
Um caso parecido é o de Montanha, no extremo norte do Estado. Lá, o ex-prefeito e novamente candidato, Hércules Favarato (PMDB) – também com problemas na Justiça –, elegeu o seu filho Ricardo Favarato (PMN) com 64, 33% dos votos válidos.
Alto Rio Novo também foi um exemplo de eleição “por tabela”, mas no pequeno município não foi tão fácil como em Montanha e Presidente Kennedy. Era de se esperar que Maria Emanuela (PDT), que era candidata a vice de Aldo Oliveira, o Didi (PSDB), e que entrou na disputa após a renúncia do peemedebista, fosse eleita, mas para ela o processo foi mais complicado. A pedetista entrou na disputa a menos de duas semanas para a eleição e atingiu 36,47%, apenas dois pontos percentuais acima de Edinho Benfica (PSD). No caso de Emanuela, o fator exposição pública parece ter pesado, pelo pouco tempo de campanha. Além disso, se fez valer para ela o que não apareceu para Amanda Quinta em Kennedy: o desconhecimento de seu nome pela população.
Esses casos vêm e vão, mas as dúvidas persistem. Afinal, numa disputa entre medalhões e desconhecidos, quem decide são os eleitores?

