Mexe, remexe, procuro, mas não vejo. O prefeito Neucimar Fraga (PR) está desse jeito na busca de explicações para sua iminente derrota eleitoral para o neófito Rodney Miranda (DEM) em Vila Velha.
Mas, por que está se vendo frustrado o projeto de poder do ex-sacoleiro, que um dia, como tantos irmãos nossos nordestinos, saiu da Bahia com a família em direção ao Rio e ficou por aqui mesmo para melhorar de vida, empurrado pela extrema carência material e de perspectivas num Estado que era dominado pelo coronelismo político de Antonio Carlos Magalhães, até que a morte separou o povo dele?
Por que, de repente, alguém sem nenhuma tradição política, com um histórico controverso que remete ao passado autoritário recente do País, em que ninguém estava livre dos olhos e ouvidos do Estado repressor, chega, se estabelece e se cria, politicamente, no município que é o berço da colonização do Espírito Santo e que já gestou interessantes personagens políticos de raiz?
Até hoje as pessoas mais lúcidas tentam encontrar uma explicação para a extraordinária votação que teve para deputado estadual, em 2010, em Vila Velha, o hoje candidato a prefeito Rodney Miranda, que tem dificuldades para sorrir, fala sem emoção e tem uma imagem pública antítese do político tradicional, populista, falastrão e superficial que nos acostumamos a ver estourar as urnas de tantos votos no nosso Brasil brasileiro.
O sistema eleitoral eletrônico deixa margem a dúvidas? Sim, deixa, não sei se legítimas, mas elas aumentam quando vêm à tona fatos como o de Nova Venécia, onde uma mulher, que morreu há 11 anos sem título de eleitor “votou” normalmente nas eleições municipais do último dia 7 de outubro.
Mas, se havia dúvidas sobre a extraordinária votação de Rodney, que derrotou Max Filho há dois anos em seu próprio reduto, inusitadamente, hoje parece que essa nuvem se dissipa com explicações mais racionais.
Tenho um amigo cujo filho é presidente de Sessão Eleitoral. Quando acaba a votação, ele fecham a urna e sai um relatório impresso com a votação. O menino preside uma sessão no Centro de Vila Velha, que tem um eleitorado de classe média, independente e conservador. Chegou e disse: “Pai, o Rodney vai para o segundo turno, se não ganhar no primeiro”.
Arrepios! Que fenômeno era esse? Talvez o mesmo que varreu Serra, Vitória e Cariacica, embora o perfil do nosso Rambo seja diferente de Audifax, Juninho e Luciano Rezende. Fato é que já não se pode duvidar que a classe média da orla e proximidades escolheu o xerife, talvez num comportamento social patológico idêntico ao do apoio aos militares em 1964.
O sorriso de Quico de Neucimar já não convence ninguém. Convenhamos, ele nem foi tão mal assim, do ponto de vista de realizações, porque contou com um governador que não persegue, que é Renato Casagrande. Mas é dissimulado e isso irrita e afasta o eleitor mais consciente. Neucimar fez um governo auto-suficiente, do mesmo jeito que conduziu sua campanha passada e a atual. Não é chegado a práticas políticas saudáveis. Vila Velha ganhou obras, sim, mas as principais são do Governo do Estado e ele tentou vender a ideia de que eram dele.
Neucimar está perdendo porque não falou com a população. Achou que a periferia seria suficiente para elegê-lo, com sua história de migrante baiano que subiu na vida, mas isso não está sendo suficiente. Pecou nos detalhes, na rua abandonada, na distância do eleitor consciente, na falta de diálogo com a população, haja vista a forma como implantou o estacionamento rotativo no município, necessário, mas sem participação do contribuinte.
Dizem que “o diabo mora nos detalhes”. Prefiro Deus, mas para Neucimar está sendo o inferno não ter percebido os detalhes. E deixou brecha para a tomada do poder em Vila Velha, porque as coisas mais simples não foram solucionadas. Apesar dos discursos dele, ainda refletem as consequências da chuvarada de janeiro passado. E tantas inundações passadas. E este é apenas um de seus problemas sobre os quais tanto discursou e pouco fez, mesmo que diga o contrário. Demorou a agir sobre situações, relativamente, simples.
Eu gostaria de ter respostas mais objetivas, mas há coisas sem explicações claras. Elas somente virão nas urnas no próximo domingo. E, dificilmente, serão diferentes do que se anuncia. Em 2012, diferentemente de 2010, creio que as coisas estão muito mais evidentes. Se para o bem ou para o mal, somente o futuro dirá. Mas o Capitão Nascimento vem aí.
José Caldas da Costa é jornalista, licenciado em Geografia, escreve neste espaço nos finais de semana. Contatos: [email protected]

