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‘Rodney está vivendo há 12 anos do crime do juiz Alexandre’

Rogério Medeiros, José Rabelo e Renata Oliveira

Foto: Leonardo Sá/Porã

O prefeito Rodney Miranda (DEM) se reuniu com vereadores e lideranças da Câmara de Vila Velha na semana passada. No encontro, o prefeito comentou o júri do juiz Alexandre Martins de Castro Júnior e aproveitou para associar o ex-prefeito Neucimar Fraga (PSD) ao crime organizado. Com a intenção de criminalizar o adversário político, Rodney colocou o ex-prefeito como aliado do coronel Ferreira, condenado como mandante do crime.

Para Fraga, o recurso do prefeito de usar a morte do juiz para criminalizá-lo é um subterfúgio para fugir do debate eleitoral sobre sua gestão. Em entrevista a Século Diário, ele esclarece sua participação no júri de coronel Ferreira e do ex-policial civil Calú, em que atuou como testemunha. E fala também sobre a utilização deste episódio pelo atual prefeito e provável adversário na disputa municipal de 2016.

Século Diário – Na reportagem que publicamos sobre as declarações do prefeito Rodney Miranda (DEM ) em uma reunião  na Câmara de Vila Velha, na semana passada, ficou claro que ele tentou criminalizar o senhor, dizendo que pelo fato de ter sido testemunha no júri do coronel Ferreira e Carlos Eduardo Baptista, o Calú. Como o senhor avaliou os esse episódio?

Neucimar Fraga – O Rodney é um estranho no Espírito Santo e há mais de 12 anos está vivendo desse crime. Através desse crime ele se elegeu deputado estadual, prefeito de Vila Velha. Quando mais ele conseguir alimentar esse caso na mídia, para ele será bom, porque ele está sobrevivendo politicamente desse crime, que levou a óbito uma personalidade importante e respeitada no Estado, que era o juiz Alexandre Martins, um homem combativo ao crime organizado no Espírito Santo e que merece todo o meu respeito pela sua memória.

– Além do senhor, outras testemunhas importantes também depuseram no júri. Caso do coronel reformado da PM Luiz Sérgio Aurich, que também estava interessado em esclarecer o fato em si. No encontro com os vereadores, Rodney associa essas testemunhas da defesa, caso do senhor, ao crime organizado.

– É preciso deixar claro. que fui convocado pelo juiz do júri para comparecer como testemunha. Eu não recebi convite de Ferreira para ser testemunha. Se tivesse recebido convite de Ferreira, certamente teria recusado pelo seu histórico, pelo que a gente lê e ouve sobre a ficha do coronel Ferreira. Se é verdade  ou não, a Justiça é que vai decidir, mas eu fui convocado pelo juiz, eu não fui convidado pelo Ferreira. E me estranha muito uma pessoa que foi delegado federal, acostumado a fazer inquéritos, deveria saber que a testemunha convocada por um juiz não tem a opção de não ir. Quando ela é convocada é obrigada a comparecer ao júri, sob pena de o advogado da defesa, que o arrolou como testemunha, mandar parar o júri para que a testemunha seja encaminhada até a sala de julgamento, a não ser que a testemunha tenha foro privilegiado, que pode marcar o dia de depor ou depor por carta precatória, mas as pessoas que não têm foro privilegiado, meu caso, são obrigadas a comparecer.

Então, o senhor acha que houve má-fé do prefeito Rodney?

– Acho que houve uma tentativa de manipulação dos fatos, como ele tem feito nos últimos 12 anos para permanecer na mídia.

 

Nessa mesma reunião com os vereadores, o prefeito diz que haverá um acordo com o PSDB para que o DEM apoie o tucano Luiz Paulo Vellozo Lucas em Vitória, o que tiraria o deputado federal Max Filho (PSDB) da disputa de Vila Velha. Quanto ao deputado estadual Hercules Silveira, como é do PMDB, e Rodney é o candidato do governador Paulo Hartung, também haveria um acordo para a retirada da candidatura do peemedebista. Ele não tem como fazer esse acordo com o senhor e por isso, estaria usando essa estratégia de criminalizá-lo. Ele quer limpar o campo para não ter adversários?

 

– Em vez de perder tempo discutindo assuntos que ele não deu conta quando foi secretário de Segurança do Estado… porque ele quer tocar o mandato dele como se fosse o melhor nome do Espírito Santo na Segurança Pública. Ele foi secretário por oito anos e os resultados deles foram os piores da história do Estado. O Espírito Santo foi tricampeão de forma negativa nessa área de 2003 a 2010. Foi campeão brasileiro de assassinato de jovens, campeão brasileiro de assassinato de negros e campeão brasileiro assassinato de mulheres. E ainda vice-campeão brasileiro em números de homicídios no país. Um secretário que não construiu um único batalhão de polícia em sua gestão, não modernizou as delegacias, não aumentou o efetivo das polícias, não investiu em tecnologia. Colocou o Espírito Santo no ranking brasileiro como o segundo estado mais violento do país. O desempenho dele é muito ruim. Ele não tem comprovada sua capacidade de gerenciamento e isso está claro na cidade. Vila Velha está retrocedendo em muitos aspectos. Ele está querendo voltar em um assunto que o levou a se eleger deputado estadual e prefeito, que é o caso do assassinato do juiz Alexandre, que ele coloca sobre seus ombros e usa isso como um prêmio que vai fazer com que ele seja aplaudido onde quer que ele chegue.

 Usar esse discurso do crime do juiz Alexandre sem ter um desempenho à frente da prefeitura para apresentar à população é uma boa estratégia?

 

– O Rodney sabe que Hercules Silveira [PMDB] tem um serviço prestado à população de Vila Velha. E a votação que ele tem não é porque o pessoal acha ele bonitinho, embora ele seja um senhor muito simpático, e ainda é vascaíno. Ele sabe que Max Filho [PSDB] tem uma história na cidade. Uma história familiar e tem uma história de realização, porque foi prefeito por dois mandatos na cidade. Ele sabe que a minha gestão provocou uma mudança no conceito da cidade, ficou mais moderna, com poder de consumo alto. Aumentamos a capacidade de investimento, que nossa gestão foi de resultados. O único que não tem resultado para mostrar é Rodney. Ele está criando fatos. Aparecendo de colete para derrubar outdoor, para tirar carrinho de pipoca da rua. Ele vai ter de limpar o caminho se ele quiser ser candidato. Ele quer tirar quem tem bons serviços prestados à cidade para mostrar. Hercules tem serviços prestados, Max Filho tem serviços prestados à cidade e nosso governo também foi um governo de resultado. Ele quer ganhar por W.O. Mas ele tem de saber que houve uma época em Vila Velha que um candidato entrou na disputa para disputar por W. O. e perdeu para o mosquito.

 

 O discurso de Rodney ficou fragilizado depois do júri, porque ele sempre defendeu o crime de mando e o que se viu naqueles sete dias de julgamento foi a criação de uma séria dúvida sobre essa tese.

 

– Esse júri é muito complexo porque ele ficou em segredo de justiça por mais de 12 anos, não foi lida a peça do inquérito, ou seja, existem muitos outros elementos dentro do inquérito que se fossem lidos a opinião pública poderia formar sua opinião. O julgamento foi formado pelo depoimento das testemunhas de defesa e de acusação. Nós tivemos nove testemunhas arroladas pela defesa e apenas uma testemunha pela acusação [delegado Danilo Bahiense]. O outro [juiz Carlos Eduardo Lemos] não foi depor como testemunha, mas como informante. A população tem de entender a diferença entre testemunha e informante. A testemunha é obrigada a falar a verdade diante do júri, o informante não precisa falar a verdade. Em um caso tão complexo como esse, como pode haver apenas uma testemunha de acusação?

Outro fato importante foi que houve o depoimento de dois delegados que atuaram nas investigações [Danilo Bahiense, do lado da acusação; e André Cunha]. Dois delegados que trabalham juntos há mais de 10 anos. O delegado André Cunha confirmou em depoimento que as informações que ele colheu durante a investigação apontavam para a tese de latrocínio, e que entrou em férias e precisou abandonar o caso. Esse um fato estranho. Como um delegado que está apurando um caso tão importante entra em férias num momento como aquele. Mas alegar que teve que sair de férias foi a maneira encontrada para sair do caso sem desagradar o chefe.

 

A situação colocada pelo prefeito para o cenário político de Vila Velha é que ele é o defensor do crime de mando e o senhor o do latrocínio. Como o senhor vai entrar no debate eleitoral levando a discussão para os interesses da cidade, que não passam pela questão da morte do juiz Alexandre, enfrentando esse discurso construído pelo prefeito?

 

– Em primeiro lugar, quero esclarecer que em momento algum durante meu depoimento eu opinei sobre a tese de crime de mando ou latrocínio. Eu simplesmente relatei os fatos que ocorreram na época. Por que eu fui arrolado? Porque na época eu era vice-presidente da Comissão de Segurança da Câmara dos Deputados. Naquela semana do crime, eu comandei uma comissão que esteve no Espírito Santo acompanhando as investigações iniciais. A partir da minha participação nessa investigação como vice-presidente da comissão, muitas informações chegaram até mim. A justiça capixaba entendeu que as informações que eu detinha seriam importantes para ajudar a esclarecer o caso. Esses fatos estão sendo explorados hoje pelo prefeito. Ele tenta fazer uma exposição na mídia desse fato. Quem tem que pagar pelo crime já está pagando, os executores já foram julgados e já estão cumprindo pena, alguns já estão até soltos, alguns intermediários, segundo o inquérito, também. Se tiver mais algum culpado que pague. O que eu levei para o júri foram as informações que eu tinha, que a defesa entendeu que seria importante para o júri, para o Ministério Público e para a opinião pública. Eu só falei o que me foi perguntado.

 

– Agora, eu acho um absurdo que o prefeito fica discutindo essa questão na situação em que Vila Velha se encontra. Os professores estão há mais de 45 dias em greve, na saúde, faltam remédios, médicos. Um prefeito que nunca assinou um convênio com o governo federal, com o governo do Estado, que além de não dar a valorização dos profissionais, ainda está retirando algumas conquistas que a cidade teve no passado. A população está sofrendo.

 

Mas ele afirma, no jornal A Gazeta dessa sexta-feira (11), que a gestão dele derrubou a violência em Vila Velha em 48%. Acredita nesse dado?

 

– Claro que não. Quando foi secretário de segurança a violência só cresceu no Espírito Santo. O trabalho que começa hoje a dar resultado foi desenvolvido por uma equipe que entrou depois dele, que trabalhou muito bem durante o governo de Renato Casagrande e que está gerando resultado porque tem uma continuidade desse trabalho no governo Paulo Hartung. A violência está caindo no Espírito Santo e Vila Velha é Espírito Santo.

 

 

 Rodney pediu e a presidência da Câmara decidiu proibir o senhor de se reunir às segundas na Câmara? Vai se reunir onde agora?

 

– Isso é abuso de poder político, forçar uma situação dessas, articulando para não ter reunião na Câmara, interferindo em outro poder. Mas isso faz parte da história do Rodney, a interferência de poderes, um homem que trabalha o tempo todo extrapolando e abusando da função que exerce. Mas o que o povo de Vila Velha mostre os resultados para cidade. Ele não construiu nada para entregar a cidade, não cumpriu o que deixamos licitados, hoje o município é totalmente dependente dos recursos do governo do Estado. Até a miniestação que ele construiu em Guaranhuns foi feito com recursos do Fundo-Cidades, que foi criado por Casagrande, senão não teria feito.

 

Na eleição de 2012, Rodney teve uma posição muito confortável na disputa. Houve uma polarização entre o seu palanque e o do deputado Max Filho (PSDB) e ele se apresentou como uma novidade. Desta vez, ele não é mais uma incógnita…

 

– O povo deu a ele uma oportunidade. Vivíamos um clima de mudança, que começou com a Primavera Árabe e invadiu a América Latina, chegou no Espírito Santo através da eleição de Luciano Rezende (PPS), em Vitória; levou o povo a derrotar Sérgio Vidigal (PDT) na Serra; Helder Salomão (PT) a não levar um candidato dele para o segundo turno em Cariacica; João Coser (PT) a não ter um candidato no segundo turno em Vitória; Guerino Zanon (PMDB) a perder para Nozinho Correa, em Linhares. Levou Paulo Hartung para Vila Velha. Eu não perdi a eleição para Rodney, perdi para Paulo Hartung, todo mundo sabe disso. Mas agora ele vai ter de mostrar que tem feito para a população canela-verde. Essa coisa de dizer que é honesto, que é honesto, o povo está percebendo não basta só dizer que é honesto. A honestidade está em mostrar resultado de seu governo para a população. A prefeitura arrecada mais do que arrecadava em 2012, o prefeito não faz obra, está devendo mais de R$ 100 milhões a fornecedores, não deu reajuste aos servidores, está retirando garantias, aumentou mais de 100 % o IPTU da cidade, criou taxa para tudo na cidade, e a cidade não tem dinheiro. Para onde está indo o dinheiro? É uma pergunta que a população de Vila Velha tem de fazer.

O senhor teve Paulo Hartung no palanque contrário. Está preparado para ver o governador em outro palanque outra vez?

 

– Eu vou trabalhar sempre para construir o melhor projeto para Vila Velha. Vou trabalhar com as forças políticas da cidade para construir um nível estadual um projeto com o partido. O partido hoje tem um bom nível de relação com o ministro da cidade, Gilberto Kassab. Tem uma boa relação com o governo do Estado. Eu não vou ser adversário voluntário de Paulo Hartung e nem quero levar para a disputa de Vila Velha a disputa de Paulo Hartung e Renato Casagrande. Vou levar um projeto bom para a cidade, construído com as lideranças sociais da cidade. E quem quiser nos apoiar será bem vindo. Se não puder nos apoiar, em caso de vitória, vamos estar na porta do Palácio Anchieta no dia 2 para buscar parcerias para a cidade.  Eu não quero ser adversário do governador como prefeito eleito. Eu disputei a eleição em 2008, que estavam Casagrande e Hartung contra mim e venci a eleição. Em 2012, Hartung estava no outro palanque e Casagrande em cima do muro e nós perdemos a eleição. Então, eu não tenho medo de disputar eleição.  

 

 

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