sexta-feira, junho 26, 2026
21.6 C
Vitória
sexta-feira, junho 26, 2026
sexta-feira, junho 26, 2026

Leia Também:

PF faz operação contra indígenas Tupinikim após conflito na visita de Lula

Coletivo denunciou apagamento e violência da segurança presidencial durante Teia Nacional

A Polícia Federal (PF) deflagrou, na manhã desta sexta-feira (26), a “Operação Vanguarda”, para cumprir mandados de busca e apreensão contra participantes do cortejo indígena realizado durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura, em Aracruz, em maio passado. Para a juventude Tupinikim, a ação representa “mais uma vez, descaso com os povos indígenas”, e reforça a criminalização das comunidades após o conflito com a segurança presidencial, que resultou em empurrões e pessoas feridas.

A operação contou com a participação de mais de 70 policiais federais, com apoio das polícias Civil e Militar, para cumprir mandados expedidos pela Justiça Federal e Vara da Infância e Juventude, que tiveram como alvo participantes do cortejo e resultaram na apreensão de aparelhos celulares. Segundo relatos de indígenas, havia um adolescente entre os investigados, que ainda não havia sido chamado para prestar depoimento.

A PF diz, em nota, que a medida teve como objetivo “aprofundar as investigações relacionadas a crimes praticados contra policiais federais durante o exercício de suas funções” e que os fatos investigados podem caracterizar crimes referentes à “tentativa de homicídio qualificado contra agente integrante do sistema de segurança pública, bem como à resistência mediante violência”.

Segundo um representante do coletivo da juventude indígena Tupinikim ouvido por Século Diário, que pediu para ser identificado por temer represálias, a ação ignora as denúncias feitas pelos povos originários sobre apagamento e discriminação durante a realização da Teia Nacional, e reforça uma narrativa que associa os indígenas à violência.

Reprodução/Redes Sociais

“Eu avalio essa operação como uma grande falta de respeito com o território. Quando surge uma situação dessa, a mídia e o público acabam tomando um lado totalmente ao contrário e interpreta como se fosse um atentado contra o presidente. O que aconteceu não foi um ato de manifestação, apesar das comunidades terem motivo. Nós fomos fazer nosso cortejo cultural”, afirmou. O cortejo que terminou em confronto com a segurança presidencial ocorreu após mudanças na programação da Teia que reduziram a participação dos povos originários, explica.

De acordo com o representante da juventude indígena, os mandados expedidos pela Justiça Federal e Vara da Infância e Juventude tiveram como alvo participantes do cortejo e resultaram na apreensão dos aparelhos celulares. Segundo o relato, havia um adolescente entre os investigados, que ainda não havia sido chamado para prestar depoimento antes da operação desta sexta-feira.

A comunidade informou que os envolvidos já contam com acompanhamento jurídico da Defensoria Pública da União (DPU). A juventude Tupinikim contesta a narrativa de que o grupo Guerreiros Tupinikim tentou invadir a área destinada às autoridades ou atacar o presidente da República. O objetivo, aponta, era apenas realizar um cortejo cultural com cantos tradicionais e apresentação de congo indígena para recepcionar Lula, prática que fazia parte das atividades planejadas para o evento.

Em vídeo divulgado nas redes sociais, coletivos indígenas relataram que o grupo foi empurrado para trás pelos seguranças, que fecharam a passagem. “Os seguranças vieram para cima de nós com força excessiva e a gente se defendeu. A juventude está aqui, resistindo. Um dos nossos jovens está sendo acusado”, disse o porta-voz do coletivo.

Para a juventude Tupinikim, a operação amplia um processo histórico de criminalização dos povos indígenas. “Mais uma vez, acontece um descaso com os povos indígenas, uma criminalização. Sempre que ocorre alguma coisa, os povos indígenas são criminalizados, deixados de lado”, reitera. O representante afirma que esse sentimento também decorre da forma como o episódio é retratado agoram, após a visita presidencial.

A operação ocorre pouco mais de um mês após indígenas Tupinikim e Guarani denunciarem ao Século Diário que a organização da Teia Nacional utilizou a imagem dos povos originários para divulgar o evento, mas não garantiu a participação prometida às comunidades na programação central. Na época, lideranças afirmaram que a proposta inicial previa atividades espalhadas pelas aldeias, cortejos culturais e maior protagonismo indígena, mas grande parte da programação acabou concentrada no Sesc Praia Formosa. Também foram denunciados episódios de discriminação, incluindo um caso de racismo contra uma indígena idosa durante a hospedagem dos participantes.

Para o representante da juventude, essas denúncias continuam sem resposta. Ele afirma que o conflito ocorrido durante a visita presidencial está diretamente relacionado ao sentimento de exclusão das comunidades. Questionado se a operação altera a relação das comunidades com o governo federal, a liderança observa que as dificuldades no diálogo são anteriores ao episódio. “A gente sempre vem lutando pelos nossos direitos, pelos nossos espaços, e vamos continuar. A gente vai sempre querer ocupar nossos espaços e mostrar quem a gente é”, reforça. O coletivo prepara uma nota pública sobre a operação e continua acompanhando o caso por meio da assessoria jurídica.

O tema central da Teia Nacional deste ano foi justiça climática. Para os coletivos indígenas, não é possível, porém, discutir clima e cultura sem enfrentar os conflitos ambientais históricos vividos pelas comunidades de Aracruz, impactada por diversos empreendimentos e pela Suzano Papel e Celulose (ex-Aracruz Celulose e ex-Fibria). As aldeias também sofrem os danos do crime da Samarco/Vale-BHP. Para as lideranças, a realização do evento em Aracruz tinha potencial de se tornar um marco histórico, mas a oportunidade foi perdida.

Mais Lidas