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Indígenas reiteram críticas à Teia Nacional após conflito com segurança de Lula

Lideranças Tupinikim e Guarani apontam apagamento e contradições no evento em Aracruz

Os indígenas Tupinikim e Guarani intensificam as críticas à realização da Teia Nacional dos Pontos de Cultura em Aracruz, no norte do Estado, após um episódio de tensão envolvendo integrantes das comunidades e a equipe de segurança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nessa quinta-feira (21). Lideranças acusam a organização de utilizar a imagem e o território dos povos originários como símbolo da Teia, sem garantir, porém, participação efetiva das comunidades na programação central do encontro promovido pelo Ministério da Cultura em parceria com a Secretaria da Cultura do Espírito Santo (Secult-ES).

As críticas ganharam força após relatos de empurrões durante uma tentativa de cortejo cultural para recepcionar o presidente e também de denúncias de discriminação contra participantes indígenas dentro do espaço do evento.

Segundo Bianca Am̃aberaba, do coletivo Juventude Tupinikim, a proposta era fazer um cortejo cultural com cantos tradicionais e apresentação de congo indígena para recepcionar o presidente durante sua chegada ao auditório, mas houve bloqueio por parte da segurança presidencial. Em vídeo divulgado nas redes sociais, coletivos indígenas relataram que o grupo foi empurrado para trás pelos seguranças, que fecharam a passagem, gerando tensões e empurrões.

“A única manifestação que a gente queria fazer era cultural. Entrar cantando, tocando nosso congo, porque isso, para nós, é um momento de proteção e celebração”, relata Bianca. Ela afirma que o grupo estava credenciado e acompanhava normalmente a programação desde o início da Teia. “Não houve invasão. A gente entrou normalmente no auditório e queria apenas fazer essa recepção cultural”, reitera.

A Associação Indígena Tupinikim e Guarani também se manifestou em nota. “Motivos nós temos para manifestação, e ela é legítima. Mas naquele momento, estávamos apenas celebrando”, completa. O documento também afirma que indígenas foram agredidos durante a confusão e que o episódio ocorreu em meio a falhas de organização do evento. “Houve um incidente que levou uma pessoa a ficar ferida. Não compactuamos com nenhum tipo de violência”, pontua.

No vídeo divulgados pelos indígenas, é denunciado o apagamento e a exclusão dos povos originários no evento. “Está acontecendo dentro do nosso próprio território, mas só utilizaram a nossa imagem e não nos colocaram como protagonistas. Tupinikim foi chamado para divulgar, fortalecer e dar rosto a esse movimento, mas quando chegou a hora da nossa participação real, fomos retirados da programação”, afirma uma das indígenas do grupo Guerreiros Tupinikim. As falas também relacionam o caso a um histórico de silenciamento. “O que aconteceu hoje mostra exatamente o que enfrentamos dentro dos nossos próprios espaços: apagamento, silenciamento e tentativa de exclusão”, acrescenta outro pronunciamento.

A Teia Nacional começou nessa terça-feira (19) e prossegue até domingo (24), sob o tema “Pontos de Cultura pela Justiça Climática”. Esta é a primeira vez que o encontro é realizado fora de uma capital brasileira. A proposta anunciada pelo governo federal era justamente aproximar a política Cultura Viva dos territórios indígenas Tupinikim e Guarani em Aracruz.

Bianca Am̃aberaba aponta sucessivas promessas de participação direta das comunidades na organização e na programação do evento, incluindo atividades espalhadas pelas aldeias, cortejos, feiras culturais e protagonismo indígena nos espaços centrais da Teia, mas isso não se concretizou. Segundo ela, a abertura realizada em Caeiras Velha criou a expectativa de que o restante da programação também teria forte presença territorial nas aldeias. “O que era antes uma proposta de ter vários palcos ao decorrer de Aracruz inteira, principalmente fortalecendo a questão do território indígena, não foi cumprido”, reforça.

Grande parte da programação acabou concentrada no Sesc Praia Formosa, espaço que, embora localizado em área historicamente indígena, não fica dentro das aldeias nem em território demarcado. Para as lideranças, isso esvaziou a proposta de uma Teia construída a partir das comunidades originárias. “A propaganda foi feita usando o nome do território Tupinikim e Guarani, mas na prática, o evento ficou centralizado em um espaço distante das aldeias”, diz Bianca Am̃aberaba.

As críticas já vinham sendo levantadas antes mesmo da abertura oficial do encontro. A delegada da Teia Bárbara Tupinikim afirmou anteriormente ao Século Diário que havia incômodo com a escolha do espaço principal do evento. “Temos uma crítica sobre as atividades se concentrarem no Sesc de Aracruz, que tem proximidade com o setor industrial responsável por impactar os territórios tradicionais”, destacou na ocasião.

Discriminação

Os indígenas também denunciam episódios de discriminação ocorridos durante a Teia. Um dos relatos envolve uma indígena idosa, com mais de 60 anos, que teria sido alvo de ofensas racistas dentro do espaço de hospedagem do evento. Segundo testemunhas, após chegar ao quarto indicado pela organização, a participante teria sido hostilizada por outra ocupante do local, identificada como não indígena.

De acordo com o relato, a mulher teria afirmado que “não queria indígena fedorento” no quarto e utilizado expressões ofensivas contra os povos indígenas. A denúncia também afirma que a bolsa da indígena foi chutada durante a discussão, causando danos ao seu celular. Lideranças indígenas criticam a forma como a situação teria sido conduzida pela organização e afirmam que a indígena acabou retirada do quarto, enquanto a outra participante permaneceu no local. Os relatos ainda não tiveram posicionamento público oficial da organização do evento ou do Sesc.

Contradições

As lideranças indígenas afirmam que os episódios expõem contradições envolvendo o tema central da Teia: justiça climática. Para os coletivos indígenas, não é possível discutir clima e cultura sem enfrentar os conflitos ambientais históricos vividos pelas comunidades de Aracruz, impactada por diversos empreendimentos e pela Suzano Papel e Celulose (ex-Aracruz Celulose e ex-Fibria). As aldeias também sofrem os danos do crime da Samarco/Vale-BHP.

A nota da associação indígena também cita diretamente os impactos ambientais sofridos pelas comunidades tradicionais. “A 6ª Teia Nacional, que propõe como tema Pontos de Cultura pela Justiça Climática, é um local mais que propício para ecoarmos o quanto nossa cultura foi afetada nos últimos 10 anos com o rompimento da barragem de Mariana”, afirma o texto.

Para as lideranças indígenas, a realização da Teia em Aracruz tinha potencial de se tornar um marco histórico para os povos originários no Espírito Santo. A percepção atual, porém, é de que a oportunidade foi parcialmente perdida. “Talvez demore muitos anos para uma Teia voltar ao Espírito Santo ou ao nosso território”, prevê Bianca Am̃aberaba.

Apesar disso, ela também destaca que o episódio gerou articulação e solidariedade entre indígenas de diferentes estados presentes no encontro. “Houve união dos parentes que vieram de outros lugares. Muitas instituições e lideranças acompanharam o que aconteceu e se colocaram ao nosso lado”, relata.

“Não aceitamos falas preconceituosas contra nosso povo. Seguiremos firmes para que nossa cultura permaneça viva e seja respeitada como merece”, conclui a nota da Associação Indígena Tupinikim e Guarani.

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