Prefeito foi chamado de “mentiroso” ao lado de aliados, em evento marcado por protestos
Com o contrato rescindido após denunciar a falta de profissionais para atender estudantes da Educação Especial em uma escola municipal de Vila Velha, a pedagoga Carine Souza confrontou o prefeito Arnaldinho Borgo (PSDB) durante o evento Ação pela Cidadania, realizado neste sábado (20), na Grande Terra Vermelha. A discussão aconteceu diante do governador Ricardo Ferraço (MDB) e do ex-governador Renato Casagrande (PSB), pré-candidato ao Senado, em meio a uma manifestação organizada pelo movimento SOS Autismo ES e pela Associação dos Profissionais da Educação de Vila Velha (APEVV).
Carine tentou relatar a situação que motivou a denúncia ao prefeito e ao ex-governador Renato Casagrande (PSB), quando foi interrompida por Arnaldinho, afirmando que o desligamento teria sido decorrente da “falta de ética profissional”, por divulgar informações que, segundo ele, não correspondiam à realidade da escola. “Se tem alguma coisa errada, a gente vai consertar. A equipe constatou que o que ela falou não era verdadeiro”, justificou o prefeito para Casagrande. A fala foi rebatida pela pedagoga. “Governador, isso é uma mentira deslavada que o prefeito está falando”, respondeu. “Eu nunca iria falar com o senhor se eu não tivesse prova do que estou falando”, enfatizou.

Carine afirmou ao Século Diário que possui documentos, escalas de trabalho e registros que comprovariam a insuficiência de profissionais para atendimento dos estudantes público-alvo da Educação Especial. Segundo a pedagoga, antes de tornar o caso público, ela tentou resolver a situação por vias administrativas, com comunicados sucessivos à direção da escola e abordagens em reuniões pedagógicas, além de ter procurado o Núcleo de Educação Especial do município. “Eu já tinha falado que nós estávamos com um número crescente de alunos da Educação Especial e precisávamos de assistentes”, reforçou.
Ela descreve que famílias procuravam a escola para relatar que os estudantes da Educação Especial estavam chegando em casa sujos ou fazendo suas necessidades fisiológicas na roupa. “Aquilo foi me indignando”, disse Carine, que decidiu levar a situação para o Núcleo de Educação Especial em um momento de desespero. “Eu liguei chorando. Falei: ‘Pelo amor de Deus, a gente precisa fazer alguma coisa’”, contou.
De acordo com ela, a unidade escolar reunia oito assistentes para mais de 50 estudantes da Educação Especial. Cinco desses profissionais precisavam acompanhar integralmente alunos com maior nível de comprometimento, restando apenas três para os demais estudantes. Sem mudanças na situação, a pedagoga gravou um vídeo denunciando o problema nas redes sociais, afirmando que a comunidade escolar vinha alertando a gestão municipal e pedindo apoio da população. “Vamos parar de maquiar a educação, porque não está legal”, cobrou.
Carine sustenta que sua intenção era denunciar a insuficiência de profissionais e garantir o direito dos estudantes. “Os profissionais estavam se desdobrando, mas a gente estava enxugando gelo, porque não tinha assistente”. Ela diz que o contrato foi rescindido no dia seguinte à publicação do vídeo. “Eu postei o vídeo na terça-feira. Na quarta-feira, fui trabalhar normalmente e chamada para uma reunião com a diretoria. Durante essa reunião, após uma ligação, fui informada que meu contrato tinha sido rescindido”, contou.
Durante o encontro no sábado, Arnaldinho afirmou que a gestão buscou apurar a situação relatada pela profissional e que a Secretaria de Educação teria verificado o caso. “A gente se surpreendeu com o vídeo dela dentro da escola. Chamei a equipe para ver o que estava acontecendo. Se tem alguma coisa errada, a gente vai consertar”, disse o prefeito. Carine, no entanto, contestou a versão. Ela afirma que não houve qualquer conversa prévia antes da rescisão contratual. “Como que a secretaria tinha conversado comigo? Eu tenho um áudio da diretora já informando sobre a minha rescisão. Não houve essas falas antes”, contestou.
Outros manifestantes também cobraram o prefeito ao longo do evento. Em outro registro que circula nas redes sociais, Arnaldinho foi chamado de “mentiroso” pelo professor Vinícius Machado, dirigente da Associação dos Profissionais da Educação de Vila Velha (APEVV).
Em julho passado, a situação da Educação Especial na rede municipal também provocou protesto de um grupo de mães, pais e profissionais da educação, que realizaram um “cortejo fúnebre”, com caixão e roupas pretas, que percorreu o caminho do Fórum à Prefeitura de Vila Velha, para denunciar o que chamaram de “morte da educação pública inclusiva” no município. Na época, os manifestantes questionavam, com dados informados pela Secretaria de Educação, a proporção entre o número de crianças atendidas pela educação especial em Vila Velha, que girava em torno de 4,9 mil estudantes, e o professores contratados para esse público, cerca de 980 profissionais, considerado insuficiente para atender a demanda.
Carine afirma que a situação não foi corrigida até então, e que já tomou medidas judiciais e pretende acionar o Ministério Público Estadual (MPES) para apurar a situação. “Tudo está sendo preparado para quem é de direito”, finalizou.

