Ifes-Serra lança documentário virtual sobre Igreja dos Reis Magos

Nos últimos anos, a realidade virtual (RV) deixou de ser apenas uma promessa futurista e passou a integrar práticas pedagógicas em diversas escolas brasileiras. A tecnologia, que permite criar ambientes imersivos e interativos, vem sendo utilizada para ensinar ciências, artes, geografia e história, oferecendo experiências que antes eram impossíveis em sala de aula.
Um exemplo concreto da aplicação da RV na educação capixaba poderá ser visto nesta quinta-feira (13), quando o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) – Campus Serra lança um documentário em Realidade Virtual que trata da Igreja dos Reis Magos, patrimônio histórico e cultural do Estado. O evento será das 10h30 às 12 horas, no auditório do campus, como parte da Semana do Estudante. O documentário tem oito minutos de duração e foi produzido por oito estudantes do curso de Sistemas de Informação, que participaram de todas as etapas de produção, captação e edição das imagens.
A estudante Jhessye Lorrayne Fraga da Silva, de 20 anos, avaliou a experiência como bastante positiva. “Descobrimos muito sobre os diferentes tipos de câmeras e enquadramentos no mundo do VR, o que foi uma revelação para mim. É muito legal poder aprender sobre isso e se aprofundar mais nesse universo.” Já o coordenador-geral de Extensão, Célio Maioli, destacou a importância da iniciativa. “Nesse caso, por exemplo, a gente está falando da produção de audiovisual, mas também de muita técnica, de muita computação gráfica, de muito equipamento necessário. Isso certamente vai ser uma experiência para o nosso estudante, que pode se engajar, gostar e procurar uma formação adicional no assunto. E, mesmo que não seja uma formação para o aluno trabalhar com isso, pode ser, no futuro, um hobby. Por que não?”, observou.
Mas, como toda inovação, a RV trouxe tanto avanços significativos quanto problemas estruturais. Pesquisas como a TIC Educação 2025, divulgada pelo Cetic.br/NIC.br, mostram que o impacto é duplo: ao mesmo tempo em que aumenta o engajamento dos estudantes, também escancara desigualdades e limitações do sistema educacional.
Estudos apontam que o uso da realidade virtual aumenta em até 40% a retenção de conhecimento em disciplinas que exigem compreensão espacial, como geografia e ciências. Plataformas nacionais, como a Infinity Academy 3D, apoiada pela Fapesp, permitem que alunos tenham acesso a laboratórios virtuais de química, física e biologia.
Em escolas públicas sem infraestrutura adequada, a RV surge como alternativa para democratizar experiências práticas. Segundo a TIC Educação, 65% das escolas brasileiras já desenvolvem iniciativas digitais, muitas delas integrando recursos imersivos ao currículo.
Outro avanço é a personalização do ensino. Com ambientes virtuais, professores conseguem adaptar conteúdos ao ritmo de cada aluno, tornando o aprendizado mais significativo. A RV também se mostra eficaz em projetos de ensino híbrido, combinando aulas presenciais com experiências digitais.
Desigualdade e riscos
Apesar dos ganhos, os desafios são grandes. Apenas 20,3% das escolas públicas de ensino fundamental possuem laboratórios de ciências, e os óculos de RV ainda têm custo elevado. Isso significa que a tecnologia pode ampliar desigualdades, beneficiando escolas privadas e deixando a rede pública para trás.
No Espírito Santo, foi criado em 2023 o Programa Escola do Futuro, pela Secretaria de Estado da Educação (Sedu), com o objetivo de integrar recursos digitais, inovação pedagógica e novas metodologias às escolas estaduais. Segundo a Sedu, os investimentos ultrapassaram a casa dos R$ 54 milhões em dois anos, com a compra, por exemplo, de óculos de realidade virtual, impressoras 3D, laboratórios maker e plataformas digitais apropriadas. Em junho, a secretaria iniciou a implantação dos Terminais Inteligentes Escola + Segura e Conectada (TIIESC), um projeto que prevê mais de 2,2 mil kits completos de hardware e software, com investimento de cerca de R$ 291 milhões. Foram entregues até agora 301 kits com recursos de conectividade, segurança e acesso a plataformas digitais, incluindo simulações em 3D e realidade virtual.
Porém, existe outro problema imediato: a formação docente insuficiente. Pesquisas mostram que 30% dos professores relatam dúvidas sobre como aplicar recursos digitais de forma pedagógica, e apenas 54% participaram de formação continuada. Sem preparo, a RV corre o risco de ser usada apenas como entretenimento, sem impacto real na aprendizagem. O próprio Ifes oferece cursos e oficinas específicas sobre RV aplicada ao ensino, enquanto a Sedu estruturou novas diretrizes de formação continuada este ano, incluindo trilhas formativas e cursos online voltados para tecnologias digitais.
Além disso, muitos professores resistem à adoção da tecnologia. Um estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) mostrou que a baixa precisão de dispositivos móveis e a falta de infraestrutura geram frustração e desmotivação.
Há também riscos cognitivos. Estudos internacionais alertam que o uso prolongado de óculos de RV em crianças abaixo dos 13 anos pode afetar o desenvolvimento cognitivo. A recomendação é limitar o tempo de exposição a 15 minutos contínuos no máximo.
O lançamento do documentário em realidade virtual sobre a Igreja dos Reis Magos mostra como a tecnologia pode ser usada para aproximar estudantes da história e da cultura local, ao mesmo tempo em que desenvolve habilidades técnicas e criativas. Deixa evidente também que para que a RV seja uma aliada – e não um problema -, será preciso investir em políticas públicas de inclusão tecnológica, garantir formação continuada de professores e ampliar o acesso em escolas públicas. Sem esses investimentos, iniciativas como a do Ifes-Serra correm o risco de permanecer como experiências isoladas, em vez de se tornarem parte de uma transformação estrutural da educação.
O Ifes-Serra lembra também, para aqueles que forem ao evento de quinta-feira (13), que para a experiência ser completa, vão disponibilizar os óculos de realidade virtual, mas será necessário que o público leve um aparelho celular.

