O escândalo financeiro da Apex Partners; as relações da empresa com Governo do Estado; as reações da classe política; e mais

Nos últimos dias, o nome Apex Partners surgiu com força nos meios políticos do Espírito Santo. Essa “plataforma de investimentos”, da qual a esmagadora maioria dos capixabas nunca tinha ouvido falar, anunciou o afastamento do presidente e cofundador, Fernando Antonio Kulnig Cinelli, e do diretor financeiro, Eduardo Siqueira, após uma auditoria interna ter encontrado um passivo de R$ 975 milhões nas finanças. Ato contínuo, a empresa conseguiu uma liminar judicial na sexta-feira (7) para preservar o patrimônio, antes que houvesse uma corrida de credores pelo resgate dos investimentos. E por que isso importa? Em primeiro lugar, por se tratar de um escândalo que afeta diversas movimentações financeiras no Estado. Em segundo lugar, pela relação direta da Apex com a elite política e empresarial capixaba. Pedro Chieppe Ferraço, filho do governador e candidato à reeleição Ricardo Ferraço (MDB), é vice-presidente e acionista da empresa, e Victor Casagrande, filho do ex-governador e candidato a senador Renato Casagrande (PSB), é diretor institucional. Além disso, o economista-chefe da plataforma é Arilton Teixeira, irmão de Aridelmo Teixeira (PSD), ex-secretário de Fazenda e de Governo do ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini (Republicanos), também candidato a governador. E não para por aí – apesar de não haver provas de maus feitos desses atores citados, pelo menos por enquanto. Com o processo eleitoral a todo vapor, o escândalo vira um prato cheio a ser explorado por adversários, e tem sido chamado de “Banco Master Capixaba”.
Negócios
Como plataforma de investimentos, a Apex Partners atua, grosso modo, na intermediação entre quem quer investir e quem precisa de capital para alavancar negócios. Segundo uma reportagem de março da Bloomberg Línea, que entrevistou o próprio Fernando Cinelli, a empresa chegou a R$ 17,5 bilhões em ativos financeiros, com investimentos no Espírito Santo, São Paulo, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e até em Portugal. Entre as empresas associadas à Apex estão a Carbyne Investimentos, gestora do patrimônio; o Futura Inteligência, que realiza pesquisas eleitorais e de mercado; o Folha Bussiness, plataforma de conteúdo empresarial ligada à Rede Vitória; e o banco BTG Pactual, que decidiu rescindir contrato de distribuição de produtos e serviços financeiros em meio às notícias negativas. Mas a Apex administra diversos ativos em ramos importantes, como o imobiliário. No ano passado, adquiriu de Aridelmo Teixeira suas ações na Fucape Bussiness School – ele é um dos fundadores da instituição de ensino superior.
Dinheiro público?
Em meio ao burburinho, o Governo do Estado se apressou a dizer que não há recursos públicos investidos na Apex Partners. O alerta se acendeu pelos vínculos da plataforma com os filhos do governador e ex-governador, mas também por conta do Fundo Soberano do Estado do Espírito Santo (Funses). Criado em 2019 na gestão de Renato Casagrande, o Funses é uma grande poupança do Tesouro Estadual, abastecida principalmente com royalties de petróleo e gás natural, e parte do dinheiro é utilizado para fazer investimentos. Em 2026, foi lançado oficialmente o Fundo de Descarbonização do Espírito Santo, visando financiar projetos de transição energética e descarbonização com recursos provenientes do Fundo Soberano e de cotistas interessados, como empresas, bancos ou organizações multilaterais. Quem faz a gestão do Fundo de Descarbonização é o BTG Pactual – até onde se sabe, não há vínculo com a Apex.
Mais relações
Em maio de 2025, Renato Casagrande, esteve em missão oficial em Nova York, nos Estados Unidos, para participar da Semana do Brasil 2025. Em um dos compromissos, apresentou o Fundo Soberano no evento “Mercados Regionais Brasileiros: Um movimento para desenvolver mercados regionais”, organizado pela Apex Partners. Casagrande e Ferraço também já marcaram presença em outros eventos da empresa. Na verdade, a Apex tem relação direta com a “turma” da entidade empresarial ES em Ação, na qual figura como uma das mantenedoras. Desde 2003, no primeiro mandato de Paulo Hartung (atualmente no PSD), a organização tem estabelecido presença marcante na gestão pública estadual.
Aridelmo: comigo, não!
Ao ver seu nome vinculado ao escândalo, Aridelmo Teixeira partiu para o contra-ataque nas redes sociais. Em vídeo publicado no fim de semana, argumentou que não colocou seus filhos na Apex como “lobistas”, não fez reunião em Nova York sobre o Fundo Soberano com o “pessoal da Apex”, não “comprou instituto de pesquisa para influenciar na opinião pública” e não fez investimentos imobiliários a partir de informações privilegiadas – quem fez isso, segundo ele, foram Ricardo Ferraço e Renato Casagrande. O ex-secretário de Vitória ainda disse que a “milícia digital do governo” tentou vinculá-lo à plataforma de investimentos simplesmente porque vendeu suas ações da Fucape e por conta da relação do seu irmão, um mero “prestador de serviços” da Apex. “Caramba, então agora eu tenho que ter bola de cristal para saber que uma empresa no futuro pode dar um golpe, e a responsabilidade é minha porque vendi alguma coisa para essa empresa. É sério que vocês estão tentando emplacar essa narrativa?”, comentou, dizendo ainda que vai continuar fazendo denúncias sobre o Governo “FerraGrande”. Na verdade, o próprio irmão de Aridelmo se apresenta por aí como “economista-chefe” da Apex Partners, e não apenas um “prestador de serviços” ocasional, mas tudo bem.
Bolsonaristas esfregam as mãos
Com o escândalo batendo às portas do grupo governista, os bolsonaristas “caíram matando”. O deputado estadual Lucas Polese (PL) anunciou que protocolou um pedido de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar se há dinheiro público envolvido na questão. “Masterzinho?”, ironizou o senador Magno Malta (PL) na publicação de Polese nas redes sociais. Sua filha, a candidata a senadora Maguinha Malta (PL), declarou apoio à instalação da CPI. “O Espírito Santo virou um condomínio, e você só descobre quem mora lá dentro quando o telhado cai”, comentou. Na mesma postagem de Polese, um seguidor questionou o deputado sobre a relação de Aridelmo na questão. Polese respondeu: “Tem algum indício da prefeitura aportando recurso público no BTG/Apex? O problema seria esse, e não meramente ter um parente lá. Se tiver, aí sim faz sentido, a questão com o governo estadual é essa. Abraço e fica com Deus!”.
E a esquerda?
Por enquanto, o caso ainda permanece bastante nebuloso, sendo difícil mensurar seu impacto no processo eleitoral. Aliás, Século Diário não identificou, até o fechamento desta coluna, manifestações públicas a respeito do assunto vindas dos principais políticos do campo progressista capixaba, como o deputado federal e candidato a governador Helder Salomão (PT).
Bancada da Esquerda Radical
Dois candidatos a deputado federal do Espírito Santo foram incluídos na “Bancada da Esquerda Radical”: Tuanne Almeida e Vinicius Machado, ambos do Partido Socialismo e Liberdade (Psol). O grupo reúne candidaturas de diversos estados, buscando colocar no debate nacional pautas desse campo político. Entre os nomes mais conhecidos estão os deputados federais psolistas Glauber Braga (RJ), Sâmia Bonfim (SP) e Fernanda Melchionna (RS), além do influenciador digital comunista Jones Manoel, que fez uma “filiação solidária” ao Psol este ano.

