‘Egodistônico’, livro póstumo com 31 poemas, entrou em pré-venda três meses após assassinato

“A próxima geração de poetas romperá com o cristianismo exacerbado que vê atônito suas crias tombarem frente a violência estatal onde comerciantes higienizam suas calçadas com o assassinato de pessoas em situação de risco e ex-maridos matam as mães de seus ‘ex-filhes’ por se apropriarem de uma pretensa superioridade moral que torna pessoas suas propriedades”.
O trecho em destaque é o primeiro parágrafo de “A próxima geração de poetas”, poema em prosa de Emmanuel 7Linhas, artista capixaba assassinado no último dia 8 de maio, em um ataque a tiros direcionado a pessoas em situação de rua. Três meses após o crime, ainda não esclarecido, a editora Cousa colocou em pré-venda nesta semana o livro Egodistônico, com 31 poesias do artista, que já estava pronto antes de sua morte. A obra pode ser adquirida pelo valor de R$ 54 por meio do site da editora.
Nessa segunda-feira (10), Emmanuel 7Linhas foi homenageado na abertura do XII Seminário Sobre o/a Autor/a Capixaba – Bravos/as Companheiros/as e Fantasmas, que aconteceu no Teatro Sônia Cabral, Centro de Vitória. Além dele, o evento homenageou o escritor Hudson Ribeiro (1961-2021), com trajetória também atravessada pela experiência como pessoa negra.
“Foi muito emocionante. Apesar de ainda ser muito triste tudo o que aconteceu, fiquei muito feliz de ver a homenagem e de finalmente o livro do meu pai estar em pré-venda. Essa homenagem tanto ao meu pai quanto ao Hudson, pra mim, é muito especial, porque eu acredito que esses corpos negros precisam estar em outros espaços e ter outras perspectivas. Então, eu fiquei muito impactada. Além disso, estava com minha família. Todo esse apoio que recebemos juntos é muito importante e faz o legado do meu pai permanecer vivo”, afirma Mayrianne Mattos, filha de Emmanuel 7Linhas.
Os poemas de Egodistônico são marcados por forte teor de denúncia social, e que dialogam com os ritmos da música popular e urbana que fizeram parte da trajetória do poeta. 7Linhas lança mão da paródia em textos como “Pátria armada”, uma releitura do hino nacional brasileiro da perspectiva de um país tomado pelo militarismo; e “Mágoas de aço”, em que usa a estrutura da canção “Águas de março” para pintar um retrato social bem menos idílico do que o celebrado na bossa nova de Tom Jobim e Elis Regina.
A filha do artista avalia que a literatura e arte marginal de 7Linhas “vem dar voz e resistir a um Brasil que continua explorando e matando corpos negros. E vejo que, nesse livro, ele mistura a revolta crítica, de uma pátria armada que insiste em matar corpos negros, periféricos, pobres, como o dele, mas também há esperança e afeto de um novo futuro possível e ancestral”.
Também há espaço para um lado mais afetivo. “Verossimilhança” é dedicado à filha mais velha: “Os anos como pétalas/ A chuva como lágrimas/ Do tempo ampulheta/ De noite ainda guardo/ Teu choro pelas gavetas”, diz um trecho.
“Uma das poesias que mais me emocionou, sem dúvida, é a que fez pra mim. Eu leio e vejo ele se despir e mostrar sua vulnerabilidade enquanto pai, e isso me traz muita saudade, mas também me conforta. Esse livro sempre foi um sonho do meu pai, um sonho que eu acredito que é coletivo, pois é também nosso. Então, estou muito feliz de ver finalmente esse sonho tomando forma e sendo realizado. Eu acredito que lançar esse livro é também uma forma de manter o legado e a memória do meu pai vivos, pois pra mim, um poeta permanece vivo enquanto é lido, ouvido e sentido”, acrescenta Mayrianne Mattos.
Luiz Emmanuel Pinto nasceu em Vitória, em 1980, e cresceu em Vila Velha, no bairro Santos Dumont. Adotando o nome artístico de Emmanuel 7Linhas, tornou-se poeta, compositor, performer, cantor, produtor cultural, rapper e educador social. Ele fez parte dos grupos de hip hop Diretoria du XV e Intifada RAM. Também integrou o trio A Priori – Música Brasileira do Brasil, que apresentava releituras da música popular brasileira em bares da Grande Vitória. Além disso, foi compositor e intérprete da banda Pó de ser emoriô. Também contribuiu para a cultura capixaba como compositor e intérprete do grupo Céu do Congo, com apresentações no Carnaval de Congo de Roda d’água, em Cariacica, e fez parcerias com diversos artistas.
O multiartista também realizava oficinas de Hip Hop e escrita criativa. Nos últimos anos de vida, atuou como realizador do Sarau do Fim do Mundo, experiência que trouxe de São Paulo, onde se destacou em grupos como o Slam Antirracista.
“Eu acho meu pai um artista genial. Ele conseguia transitar de forma fluída e profunda entre múltiplas artes, como a poesia, a música e a dança, e também por vários ritmos, desde a música popular brasileira, o samba e o rap. E essa irreverência também aparece em sua escrita. Enquanto escritor, ele conseguiu falar desde sua origem e sua vivência como um homem negro, criado por uma mulher negra que enfrentou a fome e conseguiu se formar enquanto professora de Geografia na Ufes [Universidade Federal do Espírito Santo]. Tem também muito da vivência acadêmica dele, já que ele transitou naquele espaço para muito além dos muros”, afirma Mayrianne Mattos.

Crime
O crime que vitimou Emmanuel 7Linhas ocorreu na madrugada de uma sexta-feira, por volta de 1h, na rua Cruzeiro do Sul, no bairro Ibes. O artista tinha ido até a casa de um amigo e, na volta, passou por uma região onde ficam pessoas em situação de rua. No local, estava interagindo com uma mulher identificada como Kézia Kelly Aristides Miranda, uma catadora de materiais recicláveis a quem tentava ajudar. O artista costumava fazer ações junto à população de rua.
Foi então que, segundo relatos de uma testemunha à polícia, dois homens passaram pela rua em uma moto. Na segunda passagem, realizaram diversos disparos de arma de fogo. Os tiros acertaram Emmanuel e Kézia, que faleceram, e um outro homem em situação de rua, que foi atendido pela equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), sendo encaminhado ao Hospital Antônio Bezerra de Faria.
Desde então, não há novidades sobre o caso – as investigações seguem em sigilo, para que não haja comprometimento no trabalho. A família do artista, que também deixou uma outra filha de 11 anos, tem sido acompanhada por dois advogados. A Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa (Ales) também se colocou à disposição dos familiares, de acordo com Mayrianne.
Alerta para aumento da violência
No último domingo (9), ocorreu um crime parecido, também em Vila Velha. Dois homens foram mortos a tiros em diferentes pontos do bairro Jaburuna enquanto dormiam na rua. Os suspeitos teriam utilizado um carro para realizar o ataque.
A repetição de casos acende alerta para um crescimento da violência praticada contra essa população. Em maio, foi preso um homem classificado pela polícia como exterminador de ‘moradores’ em situação de rua”. No mês anterior, dois vigilantes de uma empresa particular de segurança pública foram presos acusados de sequestrar, torturar e matar uma pessoa em situação de rua que estava na Praia do Suá, em Vitória. Outros seis funcionários estariam envolvidos no crime. Além desses crimes, também em maio, a polícia prendeu em flagrante um indivíduo de 30 anos, suspeito de atear fogo no corpo de um homem em situação de rua, de 33 anos, em Nova Almeida, na Serra.

