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Estudante mobiliza campanha para apresentar projeto na África do Sul

Trabalho de Géssica Noé relata experiência de educação em saúde no Território do Bem

A estudante de Enfermagem da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Géssica Noé de Souza, tem mobilizado redes de apoio para viabilizar sua participação no 18º Congresso Mundial de Saúde Pública, que será realizado na Cidade do Cabo, na África do Sul. Com um trabalho aprovado para apresentação no evento, ela enfrenta a falta de financiamento institucional para custear a viagem.

A alternativa encontrada foi arrecadar recursos por meio de uma rifa divulgada nas redes sociais, com valores de R$ 5 para estudantes e R$ 10 para o público em geral. O formulário para participação, onde é possível escolher os números para o sorteio e acessar a chave Pix para contribuição, é divulgado no perfil pessoal da estudante no Instagram.

Reprodução

O trabalho aprovado é um relato de experiência desenvolvida a partir de ações realizadas em um Centro de Referência da Juventude (CRJ) no bairro de Itararé, na região do Território do Bem, em Vitória. O projeto é vinculado ao Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde Equidade), iniciativa do Ministério da Saúde em parceria com instituições de ensino, para fortalecer a formação de profissionais alinhados às diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS). Inicialmente focada na prevenção da gravidez na adolescência entre jovens mães, a iniciativa se expandiu para discutir temas como maternidade, gênero, autonomia e desigualdades sociais.

O congresso onde o trabalho será apresentado é considerado um dos principais eventos internacionais da área. A programação inclui plenárias, workshops, apresentações orais e sessões de pôsteres, reunindo profissionais de diversos países para discutir temas como equidade, sustentabilidade e inovação em saúde pública.

Apesar da relevância da pesquisa, a estudante não conseguiu apoio financeiro da Ufes. Em resposta a uma solicitação formal, a coordenação local do projeto informou que não há orçamento disponível para custear a participação, embora tenha reconhecido a importância da aprovação do trabalho. A ausência de financiamento evidencia a dificuldade enfrentada por estudantes que buscam inserção em espaços internacionais. Na universidade, os auxílios para viagens acadêmicas costumam ser limitados e, em muitos casos, não cobrem os custos necessários.

Para Géssica, participar do congresso permitirá trocar experiências com pesquisadores de outros países e fortalecer práticas voltadas à comunidade. Ela ressalta que o trabalho revelou como a educação popular em saúde possibilita ações mais inclusivas e eficazes, fortalecendo o acesso a direitos e incentivando a busca qualificada por serviços no SUS. Outro ponto estratégico para a promoção da equidade, segundo a estudante, é a integração entre ensino, serviço e comunidade.

“A promoção da saúde não pode ficar restrita à universidade ou ao serviço de saúde. A gente precisa ir até a comunidade, entender as prioridades das pessoas e construir junto. E também aprender com o que está sendo feito em outros lugares”, destaca.

Ela detalha que as atividades do projeto foram organizadas em rodas de conversa, reunindo estudantes, profissionais da saúde e equipe do CRJ. A proposta se baseia numa abordagem que prioriza o diálogo, a escuta e a valorização dos saberes das próprias participantes. “A educação popular em saúde é muito importante. É impossível promover saúde sem conhecer a pessoa, a sociedade, e sem escuta. Muitas vezes, os tratamentos falham por conta disso: você não ouve, não conhece, não sabe os hábitos, e isso acaba atrapalhando todo o tratamento, inclusive o uso de medicação”, explica.

Segundo ela, a adesão aos cuidados também depende da compreensão das orientações. “A pessoa precisa entender o porquê de seguir aquelas recomendações. Então, todos os profissionais de saúde, antes de serem profissionais, têm que saber ser educadores. Têm que saber ouvir e valorizar os conhecimentos dos outros”, completa.

O projeto também incorporou práticas artísticas como estratégia de aproximação, incluindo música, poesia e escrita. As participantes foram incentivadas a produzir textos sobre suas vivências, em um processo inspirado no conceito de “escrevivência”, da escritora Conceição Evaristo, além de contribuírem para a construção coletiva dos encontros.

Entre os resultados do trabalho, a estudante destaca o fortalecimento do acesso à informação sobre saúde sexual e reprodutiva e a ampliação do vínculo com os serviços públicos. Um dos desdobramentos concretos foi o encaminhamento de jovens para inserção do Implanon, método contraceptivo de longa duração, contribuindo para o planejamento reprodutivo.

Enquanto aguarda respostas de possíveis apoios e segue com a arrecadação, Géssica mantém a expectativa de garantir a viagem. A apresentação no congresso, enfatiza, também é uma forma de levar as experiências das jovens mães do território para além das fronteiras locais, ampliando o alcance de uma prática construída coletivamente.

Em menos de duas semanas, a estudante alcançou milhares de visualizações nas redes sociais, mas o valor arrecadado ainda está distante do necessário para cobrir os custos totais, que incluem inscrição – estimada em cerca de R$ 2 mil —, passagens e hospedagem.

“Ter a oportunidade de ir para fora vai ser muito útil, não só para mim, porque também vou inspirar outras jovens negras, crianças, adolescentes e adultos. É algo que tem um significado muito amplo”, pontua.

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