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Cesan pretende desativar Estação de Tratamento de Esgoto de Camburi em 2028

Efluentes devem ser tratados em unidade em construção na Serra

Reprodução/Cesan

A Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Camburi, em Vitória, deve ser desativada no início de 2028, segundo novo relatório técnico apresentado pela Cesan à Justiça. A companhia afirma que a nova Estação de Produção de Água de Reúso (EPAR Camburi), apontada como solução definitiva para substituir a atual unidade, já está licenciada e com obras em andamento, em uma área de 11 mil metros quadrados doada pela ArcelorMittal, atrás do Fórum Cível da Serra, em São Geraldo.

A informação consta da manifestação apresentada pela Companhia Espírito-Santense de Saneamento (Cesan) na ação civil pública movida a partir de denúncia da Juntos SOS Espírito Santo Ambiental. A associação recorreu à Justiça para cobrar medidas de controle dos odores atribuídos à estação, além de monitoramento dos compostos odorantes, preservação de dados operacionais, inspeção técnica e um plano emergencial para evitar novos episódios.

A nova unidade vai receber o efluente atualmente encaminhado à ETE Camburi, em Vitória, e produzir água de reúso para fins industriais. A proposta está inserida no contrato firmado entre o Governo do Estado, a Cesan e o consórcio GS Inima e já provocou resistência entre moradores da Serra, que questionam a transferência dos impactos da operação, da instalação da nova tubulação que atravessará diversos bairros para transportar o esgoto bombeado até a Epar e cobram participação popular nas decisões. Até a conclusão da nova estrutura, a Cesan afirmou que a ETE continua operando sob um conjunto de medidas de manutenção e monitoramento adotadas após os episódios de mau cheiro registrados nos últimos meses.

O relatório técnico foi juntado aos autos nesse domingo (30) e representa a primeira atualização apresentada pela companhia desde que a Justiça determinou que ela se manifestasse sobre o pedido de liminar. Após receber a documentação, a juíza Sayonara Couto Bittencourt, da 1ª Vara da Fazenda Pública Estadual, Municipal, Registros Públicos, Meio Ambiente, Saúde e Acidentes de Trabalho de Vitória, encaminhou o processo ao Ministério Público do Espírito Santo (MPES).

Enquanto a nova estrutura não entra em operação, a Cesan afirma ter adotado uma série de medidas para estabilizar a ETE Camburi e reduzir a possibilidade de novos episódios de odor. A companhia afirma que o episódio de mau cheiro registrado principalmente em junho e julho foi “pontual e já superado”. Segundo o relatório, foram identificadas diferentes causas potenciais para a alteração no funcionamento da estação e executadas medidas corretivas e preventivas.

Entre elas estão manutenção dos equipamentos de aeração, limpeza das lagoas, remoção de materiais sobrenadantes, acompanhamento de parâmetros físico-químicos e biológicos e aplicação de produtos e técnicas destinadas a acelerar a degradação da matéria orgânica. A Cesan informa que atualmente os 24 aeradores da ETE estão em funcionamento, totalizando aproximadamente 330 cavalos de potência instalados. Também foram realizadas intervenções corretivas e preventivas em motores de aeração e componentes dos painéis do Centro de Controle de Motores.

A empresa diz que passou a utilizar caminhão-vácuo semanalmente para remover materiais sobrenadantes e realiza limpeza manual diária das superfícies das lagoas. Os canais desarenadores passaram a contar com limpeza mensal. Também foi implantado um processo de bioaumentação, denominado BABMA, que utiliza microrganismos presentes no próprio ambiente para acelerar a degradação da matéria orgânica, segundo a companhia, que justifica a medida para reduzir o acúmulo de lodo e contribuir para a diminuição da formação de compostos odoríferos.

Apesar de afirmar que o episódio já foi superado, a Cesan apresentou uma nova explicação para parte do problema. Análises laboratoriais realizadas durante a investigação apontaram, a partir de julho, aumento considerado anômalo da carga do esgoto bruto que chegava à estação. Segundo o relatório, foram registradas concentrações de até 1,4 mil mg/L de DQO, 848 mg/L de DBO e 693,37 mg/L de óleos e graxas. A companhia afirma que os valores são muito superiores aos parâmetros típicos de esgoto doméstico.

Como a alteração da carga orgânica não foi acompanhada de aumento proporcional da vazão, a Cesan sustenta que não houve uma sobrecarga hidráulica da estação. A hipótese apresentada é de que tenham ocorrido contribuições atípicas na rede coletora, possivelmente relacionadas a lançamentos irregulares de terceiros, que a empresa não identificou no documento.

A associação ambientalista havia solicitado à Justiça que a Cesan implantasse monitoramento de compostos odorantes tanto dentro quanto fora da ETE, especialmente nas áreas residenciais atingidas pelos episódios, mas a companhia afirma que não está prevista a extensão do monitoramento de H₂S para pontos externos da estação.

A Cesan informou que já começou a medir sulfeto de hidrogênio (H₂S) em pontos internos da estação, incluindo a lagoa aerada e o tratamento preliminar. Também são acompanhados diariamente parâmetros como pH, temperatura, oxigênio dissolvido, condutividade e potencial redox.

A empresa também diz que não pretende, neste momento, criar o canal público específico e georreferenciado solicitado pela associação para registrar episódios de odor. Segundo a manifestação, continuam disponíveis os canais gerais de atendimento ao público. A Cesan afirma ainda realizar avaliações qualitativas diárias da percepção de odores, feitas pelas equipes operacionais e por pessoas localizadas no entorno da unidade.

A unidade de tratamento de Camburi, localizada no bairro Aeroporto, é composta por três lagoas de tratamento que recebem esgoto de diferentes regiões de Vitória e Serra e há anos geram queixas de mau cheiro e impacto ambiental na região.Enquanto a EPAR não entra em funcionamento, a unidade segue em operação e vai depender dependerá das medidas adotadas pela Cesan para manter a estabilidade do tratamento.

No processo judicial, a Cesan afirma que já existe um plano de ação estruturado para prevenção e controle dos odores. A companhia também declarou não haver impedimento técnico para a realização de uma inspeção na estação com participação da associação, desde que previamente agendada e respeitadas as regras de segurança. A empresa sustenta ainda que o sistema biológico necessita de tempo para recuperar completamente o equilíbrio microbiológico após alterações operacionais e que, diante das medidas já adotadas, não espera a repetição dos episódios nos níveis registrados anteriormente.

A Juntos SOS Ambiental havia solicitado que a Justiça obrigasse a companhia a adotar medidas adicionais enquanto a atual estação permanecer em funcionamento, incluindo monitoramento externo, plano emergencial e mecanismos de registro das ocorrências. Após a manifestação da Cesan, a juíza determinou o envio dos autos ao Ministério Público, que deve se posicionar sobre o caso.

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