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Mas aí acontece um eclipse total do Sol...

Para garantir nossa breve passagem sobre a Terra temos a constante proteção do SOL, que sem exagero denominamos Astro-Rei: um deus que distribui de graça sua luz e calor sobre ricos e pobres, feios e bonitos, bons e maus. Sem ele não existiríamos. Correndo na pista oposta temos a modesta LUA: pálida e humilde, sem luz e sem calor. Se de repente fosse atraída para o sinistro buraco-negro do universo, a Terra continuaria rodando?  Esse pequeno satélite que inspira poetas trovadores jamais ousaria desafiar o poderoso sol. 

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Mas aí acontece um eclipse total do Sol… raro, belíssimo, pungente! Por alguns minutos roubados da constante rotação dos corpos celestes, a modesta lua se sobrepõe e ofusca o rei. Você provavelmente viu esse evento na sua TV, mas é preciso ir mais fundo para entender o quanto esse singelo espetáculo da atmosfera tem amplos significados para nossa banalidade diária. “Quando o sol se apaga em um eclipse se vê melhor sua grandeza,” Lucio Anneo Sêneca.

Na nossa corrida incessante para manter a sobrevivência diária, somos luas modestas acompanhando na sombra a vida e a obra dos deuses que adoramos, ignorando seus pés de barro: políticos, atores, cantores, atletas, músicos, inventores, escritores, influenciadores… e tantas outras estrelas com brilho próprio, mas efêmero. Essa é nossa vez de eclipsar os deuses que entronizamos. Sem inveja e rancores, apenas um breve momento para lembrar que a fama se desgasta, que a glória é passageira e os nomes que brilham nas manchetes de hoje serão substituídos pelas manchetes do futuro. “E o sol morreu no céu, e uma névoa maligna o cobriu.” Na Odisseia, de Ulisses.

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O recente eclipse total do sol atraiu turistas e astrônomos, cientistas e malabaristas, gente importante e pessoas comuns no mundo todo. Há muitos outros eclipses acontecendo nesse vasto infinito que não entendemos e que não podemos assistir. Somos um minúsculo grão de areia nessa praia. Mas talvez o futuro tenha outros planos, e telescópios intrometidos poderão revelar a imensa grandeza do infinito ao modesto olhar curioso da pessoa humana. Quem viver, verá. 

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Enquanto isso não acontece, continuamos sendo a raia miúda, cidadão/cidadã comum que lê a notícia, mas nunca é notícia – pelo menos no bom sentido. Acompanhamos a vida e as façanhas de ricos e famosos, lemos os livros dos autores badalados, esmiuçamos a vida e a obra dos astros da TV e do cinema, lotamos os estádios aplaudindo os reis do momento… os sóis do nosso céu que amamos e endeusamos.

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Mas no silêncio de suas gaiolas douradas, nossos ídolos são pessoas comuns, com nossos defeitos e pecados, nossos sonhos e nossa minúscula realidade… Até que a pálida lua se intrometa e mais uma vez possa se interpor entre nós e o sol que nos ilumina.  “Quando o sol começava a desaparecer, os loucos e os cativos eram sacrificados para que seu sangue fosse oferecido, e em todos os templos havia cantos e gritos de guerra”.  Livro VII do Código Florentino, de Bernardino de Sahagún.

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