Uma dinâmica de bravatas e recuos patéticos
“Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada. Eu não quero que isso aconteça, mas provavelmente acontecerá (…) Talvez algo revolucionário e maravilhoso possa acontecer, descobriremos esta noite, em um dos momentos mais importantes da longa e complexa história do mundo; 47 anos de extorsão, corrupção e morte finalmente chegarão ao fim. Deus abençoe o grande povo do Irã!”. Assim disse Trump em sua bravata mais patética da atual quadra da História.
Era uma coletiva de imprensa em que o presidente norte-americano ameaçava realizar um ataque sem precedentes sobre o Irã, caso não reabrisse o Estreito de Ormuz até a noite do dia 7 de abril. Contudo, Trump concordou em suspender ataques ao país do Oriente Médio por duas semanas. Tal anúncio ocorreu duas horas antes do fim do prazo estabelecido pelo ultimato trumpista, em que ele afirmou que os Estados Unidos tinham alcançado uma “vitória total e completa”. Decisão tomada após conversas com o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, e o chefe do Exército paquistanês, Asim Munir, que pediram a suspensão das ações militares imediatas.
Tal cessar-fogo, que estava condicionado pela reabertura do Estreito de Ormuz, era um plano de Trump de suspensão dos ataques contra o Irã por duas semanas. Seria um acordo bilateral. Uma das razões é que Trump havia declarado que os Estados Unidos já teriam alcançado os seus objetivos militares e que um acordo definitivo já estaria próximo, o que incluía uma proposta de dez pontos do Irã, que foi considerada pelo país norte-americano como uma base viável para um acordo mais amplo.
Depois de anunciar que faria ataques contra infraestruturas como pontes e usinas de energia no Irã, Trump afirma em publicação na plataforma Truth Social que tinha decidido pelo adiamento dos ataques após conversas com autoridades paquistanesas, em uma manobra diplomática do Paquistão para que as negociações avançassem durante este cessar-fogo, além de reduzir as tensões na região. O premier paquistanês Sharif pediu que Trump ampliasse o prazo para o Irã e também pediu a Teerã a reabertura do Estreito de Ormuz. Tal diplomacia tinha resultado incerto, e foi o que se provou logo em seguida.
Em meio a questionamentos sobre a campanha norte-americana contra o regime iraniano, em que esta alternância entre guerra e cessar-fogo, em que se dá uma dinâmica de bravatas megalomaníacas e recuos patéticos de Trump, consolida-se uma imagem de fraqueza na opinião pública em relação ao governo trumpista, sobretudo diante de China e Rússia, num contexto de retrocesso estratégico, em que a hegemonia do poderio militar dos Estados Unidos se vê minado em uma guerra assimétrica de drones caseiros e golpes na economia mundial representada pelo petróleo.
Trump lida com o desastre de um problema econômico inventado, os tarifaços, e uma guerra também inventada pelo seu narcisismo. Um caos geopolítico, em que a invencionice, que é ir além dos problemas naturais e culturais normais, da vida em sua dinâmica, tomando este rumo produzido por um ego mimado, narcisista, que extrapola a realidade, sem as vicissitudes da psicose delirante ou alucinada, mas fora da realidade, com postagens que viram memes como numa autoparódia messiânica de uma ego trip mundial. O narcisismo é fronteiriço com a realidade das coisas, tal qual o psicótico que delira e alucina, contudo, neste caso, a bomba cai na cabeça dos outros.
O cessar-fogo trumpista, depois de uma bravata patética de uma épica anacrônica, culmina também em algo frágil, que desmorona num estalar de dedos, com os ataques de Israel contra o Hezbollah no Líbano, que ganham escala com mais de duas mil mortes e bombardeios intensos em Beirute e no sul, incluindo também ataques contínuos na Faixa de Gaza. E Israel também atacou o Irã, em um conflito que envolve o controle militar israelense em partes da zona costeira, através de campanhas aéreas intensivas contra instalações militares e nucleares iranianas.
Israel julgou o momento propício devido à vulnerabilidade em que se encontra o regime dos aiatolás, no intuito de impedir que a teocracia chegue à construção de uma bomba atômica, o que se sabe, pelas próprias análises feitas por autoridades, que está bem longe da realidade. Tais ataques ocorreram horas após o anúncio do cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, em que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu afirmou que o conflito no Líbano não se aplicava ao acordo, e Donald Trump endossou a posição israelense, embora o mediador paquistanês, logo a seguir, tenha afirmado que o Líbano estava incluso na trégua.
Neste ínterim, o Irã acusou Israel de violar o cessar-fogo e voltou a fechar o Estreito de Ormuz. E o Irã está tanto frágil internamente como tem seus principais aliados em vulnerabilidade também, pois sofreram derrotas sucessivas em confrontos com Israel, com apoio das principais potências militares do Ocidente. O Hezbollah perdeu sua liderança, milhares de combatentes e parte de seu arsenal devido aos ataques no sul do Líbano. A Síria teve a queda do regime de Bashar al-Assad em dezembro de 2024. Em Gaza e na Cisjordânia, o Hamas e a Jihad Islâmica continuam sendo atingidos por Israel.
Além disso, foram assassinadas importantes lideranças militares iranianas, além de comandantes regionais ligados à Força Quds, uma unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã. O regime dos aiatolás também enfrenta desafios internos em que a economia sofre inflação alta e sanções internacionais, lida com protestos contra o governo, iniciadas em 2022 após a morte da jovem Mahsa Amini, por não estar usando “corretamente” um véu islâmico para cobrir os cabelos, e que continuam acontecendo, diante de grande repressão.
Israel tentou se antecipar a um novo entendimento entre Irã, Estados Unidos e países europeus, pois após isso, as ações militares israelenses contra a infraestrutura iraniana seriam consideradas como uma violação do consenso internacional. Benjamin Netanyahu também visa a sua manutenção no poder, uma vez que enfrenta uma crise de credibilidade política, que se ampliou com a crise de Gaza, e o estado de guerra de Israel interessa, portanto, ao primeiro-ministro.
Israel intensificou os bombardeios contra o Líbano com o início da guerra no Irã, após ataques do Hezbollah contra o país israelense, enquanto o grupo xiita alega agir em retaliação aos ataques de Israel contra o país libanês e como resposta ao assassinato de Ali Khamenei, líder supremo do Irã. E o conflito também está ligado à destruição da Faixa de Gaza a partir de 2023, em que o Hezbollah lança foguetes contra o norte de Israel em solidariedade aos palestinos e para atingir a defesa israelense.
O cessar-fogo feito em novembro de 2024 entre o grupo xiita e o governo de Israel, após este ter matado lideranças do Hezbollah, não impediu violações sistemáticas do acordo, com ataques periódicos contra o Líbano, por parte de Israel, para atingir a infraestrutura do Hezbollah. Tal acordo tem sido frágil e ganhou uma prorrogação agora através do anúncio norte-americano, com mais três semanas de trégua, após reunião na Casa Branca, com Trump, J D Vance, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e os embaixadores de Israel e do Líbano. Tais negociações ocorreram um dia depois da morte da jornalista libanesa Amal Khalil em um ataque aéreo israelense no sul do Líbano.
O Líbano defende o cessar-fogo como condição para a retirada de Israel do país e definição das fronteiras terrestres, ao passo que Israel quer o desmantelamento do Hezbollah como garantia para a segurança na fronteira. Irã mantém o cessar-fogo no Líbano como parte das negociações com os Estados Unidos. E tanto o Hezbollah como o Irã relacionam o cessar-fogo no Líbano à força conjunta do Eixo da Resistência, que é uma aliança anti-Israel e anti-Ocidente liderada por Teerã, que inclui grupos como o Hamas e a Jihad Islâmica, uma rede de apoio predominantemente xiita e que inclui grupos sunitas.
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
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